sexta-feira, 9 de março de 2012

segunda-feira, 5 de março de 2012

Tristeza Mascarada

Nem o fenómeno Carnaval escapou à crise. Vale de Ílhavo foi salva pelos Cardadores.

Nos passados dias 19 e 21 de Fevereiro realizou-se mais um típico Carnaval de Vale de Ílhavo.
Como já é hábito, a população aveirense assistiu ao corso carnavalesco composto por participantes de todas as idades e deliciou-se com a principal atracção desta localidade, os Cardadores de Vale de Ílhavo.

“Para mim, carnaval significa Cardadores.”, confessou Ângela Pereira, enquanto observava o desfile, “Os Cardadores são o que alegra o carnaval e uma tradição própria de Vale de Ílhavo. Gosto do cheiro das fitas deles.”, acrescentou.

Os Cardadores são representados por homens mascarados que nestes dias de festa soltam gritos e dão saltos enormes, enquanto passam as suas cardas nas mulheres com que se cruzam e repetem em voz de falsete: “Ai tanta lã! Ai tanta lã!”
Apesar do paranorana económico-fincanceiro do nosso país, os cardadores não desistiram desta tradição, no entanto, foi possível verificarem-se em menor número.
Assim, a crise assombrou o Carnaval. Os cardadores estão quase desaparecidos, o cortejo não teve a habitual animação e muitas pessoas não quiseram pagar para assistir ao desfile este ano.

“O carnaval este ano foi mais triste, teve menos animação. Pensei que tivesse mais piadas com a crise e com a troika. Mesmo as piadas não tinham piada nenhuma.”, afirmou a espectadora referida acima, “Os Cardadores não são tão enérgicos como antigamente, a tradição já não é o que era. É outra geração.”

Como refere o ditado “É rir para não chorar!”, os portugueses este ano celebraram o carnaval numa tentativa de esquecer a crise que atravessam. Porém, não existe máscara capaz de disfarçar a tristeza e a preocupação que os inquieta.  


Por Filipa Lopes

SEMPRE FRESCO!!! - Mercado Municipal D. Pedro V

A meio da manhã o ambiente é pacato no Mercado Municipal D. Pedro V, até as horas mais movimentadas têm agora poucos fregueses, mas o mercado mantém o seu encanto, com os mais diversos produtos, uma mistura de cheiros, bancas verdejantes, flores coloridas, pastelarias com bolos chamativos, talhos que se alinham uns a seguir aos outros, lojas de roupa e retrosarias, sapatarias, uma loja de cestas, outra de decoração… Aqui há de tudo!
Entrando pela porta do lado do Elevador do Mercado, somos recebidos pelas floristas, que aguardam à porta. Depois o cheiro a peixe dá-nos as boas-vindas. Atrás das bancas cheias de carapau, sardinha, pargo, salmão, os vendedores esperam pela clientela que escasseia, olham expectantes para cada cliente ou turista que por ali passa.

Numa das bancas encontrámos a já terceira geração a ocupar aquele lugar: Pedro Fernandes, 34 anos, conta-nos “Trabalho aqui há cinco meses, isto é do meu pai. Eu já cresci aqui. Já era da avó e passou para o pai e agora estou cá eu!”. Mas o dia-a-dia dele e dos colegas das bancas de peixe que o rodeiam, não é fácil, e as horas parecem não chegar: “ Vamos à lota todos os dias buscar peixe fresco. Tanto podemos ir à Figueira, como a Aveiro… durante a noite… temos de fazer esses sacrifícios…” e às seis e pouco da manhã já estão a descarregar a mercadoria e a montar a banca do mercado, e depois é esperar que alguém compre.

No meio de frutas, legumes e hortaliças, Dona Maria, de 58 anos, revela-nos que nem sempre os vendedores tiveram a sua banca reservada. Antes da reconstrução do mercado em 2001 “também tínhamos a banca numerada e o lugar fixo” mas, “Antigamente não, corria-se e era uma confusão desgraçada”. E já lá vão “ 40 e tantos, 44 p’ra aí!“ que Maria anda pelo mercado de Coimbra, vendendo hortaliças, e há mais ainda anda Leonor da Conceição, que nos chamou a perguntar se queríamos comprar tomate, diz com melancolia e olhando para trás “ó filha, nem à escola fui! Desde pequena, desde pequenina…andar nas terras e trazer para aqui. É tudo cultivado por mim!", e a vida continua dura, para esta senhora de olhos doces e rosto cansado, continua atrás da banca do mercado, semana após semana “eu já tenho 75 anos, venho porque as reformas são muito fracas…”. E porque o mercado sempre foi a sua vida e nunca foi à escola, não pôde tirar a carta, e com carinho conta que o seu marido, a quem chama “meu amor”, está doente: “ conduzir para aqui ainda tem sido o meu homem, que eu nem sei ler nem tenho carta… mas nas terras tenho de ser eu sozinha”.

O mercado está envelhecido, maioria dos vendedores são da terceira idade, continuam a trabalhar porque as reformas são pequenas ou porque o fizeram toda a vida: cultivar e vender. Os jovens também não compram no mercado, vão aos shoppings, talvez culpa do sistema da cidade, como nos diz Pedro Fernandes “ é muitos hipermercados muito juntos e dentro da cidade e com preços que a gente não tem possibilidade de acompanhar, são preços muito mais baixos”. De facto o acesso aos hipermercados é mais fácil e é impossível combater preços de supermercado em certos produtos, por serem frescos, por demorarem a tornarem-se consumíveis, como as alfaces que Maria Alice Marques produz e vende “uma alface não conseguimos fazer em três semanas! Eu tenho lá umas plantadas desde Outubro! É verdade…”, mas há outros produtos que Maria Alice afirma custarem menos de metade que no supermercado, e indiscutivelmente “são de boa qualidade, são feitos por nós, e custam a fazer, mas até são mais gostosos”, e é isso que o mercado tem de melhor: a qualidade, os produtos frescos e caseiros, e Maria Alice lamenta, entre os seus vasinhos, plantas e raminhos “ é pena que as pessoas, por vezes, não saibam! Não sei o que é que nós temos de fazer realmente para que haja mais jovens a vir”

O mercado é moderno, limpo, arrumado e com óptimas condições de higiene. Variedade de produtos não falta e tão pouco de preços. A qualidade é indiscutível e os vendedores estão sempre prontos para dois dedos de conversa. A história deste mercado construiu ao longo de 172 anos, este lugar fantástico, pedra sobre pedra, mandando embora o vento e a chuva e que as infra-estruturas antigas não podiam proteger, e agora, com condições que nunca teve antes, para comerciantes e clientes, vê os dias cada vez mais difíceis. A crise também não ajuda, mas a mudança de hábitos, de estilo de vida, são as principais razões para uma sexta-feira de mercado tão pacata, um dos dias que costumava ser mais efusivo.

A Dona Celeste leva uma das cestinhas que vende na mão, e vai com pressa, mas ainda nos diz “trabalho aqui há 51 anos e só me desanimei ontem que não me estreei em todo o dia, não vendi nada desta vida”. E de velhice prematura sofre este mercado. Um apelo a todos, mas principalmente aos jovens para que aqui venham comprar, é o recado que os comerciantes nos mandam, na esperança que possam ver renascer aquele que para alguns foi o seu berço, para outros a sua escola, a sua casa, a sua vida.

Catarina Rodrigues