terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Uma estudante-manequim

Ana Baptista
Num mundo em que a moda não passa despercebida e onde a curiosidade pelas novas tendências reina, Portugal está cada vez mais relacionado com este projeto que fascina inúmeras pessoas.
Ana Baptista, uma jovem manequim de 18 anos, atual estudante de arquitetura na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa mas proveniente de Coimbra, partilha connosco um pouco acerca da sua experiência profissional nesta área.

Quando começou a pensar em agenciar-se?

Nunca pensei em me agenciar. No 9º ano fui a uma visita de estudo à Futurália, onde se encontravam também em exposição, algumas agências de modelos que quiseram ficar com o meu contacto. A certa altura uma senhora veio ter comigo a divulgar a sua agência e perguntou-me se eu não queria tirar umas fotos. Não sabia o que fazer mas o meu professor de ciências que nos acompanhava, insistiu para eu aceitar e acabei por o fazer. Tiraram-me algumas fotos e as medidas e disseram que me iriam contactar. Umas semanas depois, quando até já nem me recordava do episódio, recebi uma chamada da Diretora da agência. Acabei por ir a Lisboa com os meus pais e depois de uma reunião fiquei agenciada pela ML.

Quem a motivou a fazê-lo? Porquê?

A minha família, os meus amigos e professores sempre insistiram comigo para experimentar pois diziam que tinha o perfil perfeito para ser modelo.

Por que agências já passou e em qual se encontra agenciada no momento?

Já passei pela ML agency (entre 2011 e 2013) e neste momento estou na Elite Lisbon (desde Setembro de 2013)

Já deve ter ido a muitos castings, sofreu alguma desilusão?

Sim, já fiquei desiludida algumas vezes, mas é normal, estou num mundo onde há muita concorrência e onde as coisas nem sempre são justas. Só fico um pouco triste na altura mas rapidamente passa, não vale a pena estar a sofrer.

Que experiência a marcou até então como manequim?

A minha ida à China para representar Portugal na final internacional do concurso Elite Model Look  2013, foi sem dúvida a maior experiência que tive. Foi uma experiência de 15 dias com muitas sessões fotográficas, muita aprendizagem com mentoras experientes e de onde trago algumas amizades.

Agora que estuda arquitetura, consegue conciliar com o mundo da moda?

Sim claro, há tempo para tudo, apesar de estar num curso bastante trabalhoso. Temos de ter as nossas prioridades bem definidas e organizar bem o tempo. Tudo se consegue.

Concorda que Coimbra não seja uma terra de oportunidades, para quem quer seguir esta profissão?

Concordo e penso que é uma afirmação extensível a outras profissões.

Considera justo o mundo da moda ou já se sentiu injustiçada?

Não é um mundo justo. Deparamo-nos com muitas situações onde "a cunha" prevalece. 

Para terminar, quem é a sua manequim de eleição?


Tenho várias, como por exemplo, Charlotte Di Calypso, Cara Delevingne e Liu Wen.

Natacha Roxo

Portugal, um ponto de partida

Dina Moura tem 29 anos e é licenciada em Psicologia do Desporto (curso que já não existe) e concluiu um Mestrado em Psicologia da Educação na UTAD. Dina é mais uma jovem portuguesa qualificada pertencente à nova geração de emigrantes que parte todos os dias para o estrangeiro em busca de uma vida que não lhes negue oportunidades. Dois anos depois de ter concluído os seus estudos, achou que já lhe tinham sido negadas demasiadas oportunidades. E foi então que tomou a grande decisão da sua vida: emigrar.

Dina Moura

Para que país emigraste?
Emigrei para a Suíça no dia 21 de fevereiro de 2013.

Que razões te levaram a emigrar? Emigraste sozinha?
Emigrei porque me sentia completamente em crise. Além do meu país estar em crise, eu própria me sentia em crise. Não via qualquer perspetiva de futuro em Portugal. E já não me sentia lá bem. A minha vontade era mesmo sair. Emigrei sozinha e vim para casa dos padrinhos do meu irmão que não são família mas que me são muito chegados.

O que sentiste no momento da partida?
Quando parti sinceramente só me apetecia mesmo isso, partir. E senti que era essa a decisão a tomar. Estava completamente determinada.

Como foi a adaptação à tua vida na Suíça?
Adorei a Suíça desde o primeiro minuto. A adaptação não poderia ter sido melhor. Senti-me em casa desde o primeiro momento. Mas isso talvez se deva ao facto de ter nascido aqui nesta mesma cidade onde resido atualmente, Lucerna, e de ter vivido aqui durante sete anos. Tenho muitas recordações. Foi um regresso às origens.

Gostas dos costumes e tradições suíços?
Gosto muito dos costumes e tradições suíças. Embora neste aspeto goste mais dos de Portugal.


Dina Moura passeando em Lucerna no primeiro nevão deste outono de 2014.


Quando chegaste, em que área começaste a trabalhar?
Assim que aqui cheguei o meu objetivo era apenas um: arranjar qualquer trabalho, sentir-me digna, e ganhar dinheiro para poder fazer o que quisesse. Comecei a servir num restaurante aos fins-de-semana, aos ábados à noite e domingos à tarde. Passadas duas semanas comecei nas limpezas. Antes disto fui sozinha procurar trabalho em hotéis sem conhecer nada da cidade. Consegui fazer uma prova num deles mas depois decidi escolher as limpezas. O trabalho de hotel aqui na Suíça mais me pareceu uma escravidão. É que isto aqui não é de todo um mar de rosas.

E em que é que trabalhas atualmente?
Neste momento continuo na mesma firma de limpezas. Estive um ano também no restaurante. O que significa que trabalhava sete dias por semana. Nas limpezas trabalho cerca de 40 horas semanais, por vezes mais. O horário normal é das seis da manha às 15h com uma hora de pausa para o almoço. Tenho também umas horas de limpeza numa senhora particular e por vezes faço mais horas quando alguém tem férias. Na firma pagam a cerca de 15 francos limpos à hora. Na privada pagam-me 25 francos limpos. O trabalho na firma rende-me uma média de 2700 francos limpos.

Para além disso, tens mais atividades? O que costumas fazer nos teus tempos livres aí?
Nos tempos livres ando muito de bicicleta, estou inscrita num ginásio, passeio muito nas montanhas, jogo ping pong, e brevemente vou jogar ténis. Uma vez por semana tenho aulas privadas de alemão. 

De que é que sentes mais falta?
Sinceramente apenas sinto falta da minha família. E do sol e da comida.

Sentes-te desiludida com "o teu Portugal"?
Portugal é uma desilusão. Vivi muitos bons momentos mas como se quer viver e ser feliz num país completamente corrupto e destruído? Não dá. Gosto de justiça. Na Suíça a justiça funciona. Tudo funciona.

Vês algum futuro em Portugal para os jovens desta geração?
O único futuro que vejo em Portugal para os jovens é unicamente ou para quem tem cunhas ou para quem tem dinheiro ou negócios de família.

O que achas que devia mudar? O que sentes que está mal?
Esta é a pergunta mais difícil. O sistema político é uma total catástrofe. Do que mais se ouve falar é que este ou aquele foi acusado disto ou aquilo. Por isso desliguei-me das notícias portuguesas. Cansei-me de ouvir falar dos deputados, dos ministros, do Presidente da República. Perdi a paciência. Os problemas de Portugal estão enraizados. Cortar estas raízes de erros sucessivos vai demorar uns bons anos. Parece que tudo está a andar para trás e a afundar-se. Sistema de saúde, educativo, económico, bancário e por aí em diante.

Faz uma breve comparação entre Portugal e a Suíça, nos bons e nos maus aspetos.
Portugal tem alegria, tem cor, tem mar, tem sol, tem boa gastronomia, tem inovação e investigação de alta qualidade. Mas tem falta de energia, tem as pessoas erradas à frente do país, e tem muitas pessoas de nariz empinado. O desemprego era inevitável num país onde se criaram meninos especiais mas que o mercado não conseguiria absorver. E então esses meninos especiais ficam no desemprego a pensar que são especiais só porque tem um diploma universitário na mão. Não. Ninguém é especial porque estudou. A suíça tem a natureza, tem justiça, tem ordem, tem organização. Depois destas qualidades a felicidade vem por acréscimo. Por outro lado a rigidez suíça parece demasiada. O clima não é dos melhores. E a gastronomia quase inexistente.

Quando pretendes regressar? Achas que a tua vida vai estar na Suíça nos próximos anos?
Só pretendo regressar quando me reformar. Estou bem aqui. Depois de poder fazer uma vida tranquila aqui porquê querer voltar a Portugal onde só tinha preocupações? Não. Emigrar para mim foi perfeito e depois de um ano e meio sinto-me completamente integrada e feliz.

Francisco Lopes

Ganhou a batalha contra o vício, ganhou a guerra contra si próprio

Apesar de ter uma história de vida conturbada, Luís Adelino Lopes, de 47 anos, deu o seu testemunho para mostrar um exemplo que não deve ser seguido. Uma história que evoca a realidade nos seus atalhos mais obscuros e que traz consigo sentimentos difíceis de gerir.

Em primeiro lugar, conte-me um pouco acerca da sua infância.
Acho que tive uma infância normal, vivi até aos 10 em Tomar com os meus pais e mais dois irmãos. A família estava sempre à frente de tudo e o meu melhor amigo era um dos meus irmãos. A única pessoa da família com quem eu não me dava muito bem era com o meu pai. Via o que a minha mãe sofria com ele, mas por ser ele o único a sustentar a casa, lá tinha ela de engolir os sapos todos!

A partir dos 10 anos, foi viver para onde?
Fui morar para Abrantes, o meu pai perdeu o emprego e mudámo-nos porque surgiu outra oportunidade.

Acha que essa mudança influenciou o caminho que a sua vida tomou?
Com 10 anos a mudança não me custou muito, por isso acho que não influenciou em nada as escolhas que fiz. Era aquela idade em que era muito fácil fazerem-se amizades e, além disso, tinha a minha família e bastava-me. Sempre me adaptei bem às mudanças e como era uma criança muito extrovertida e sociável conseguia cativar a atenção e a amizade de todos facilmente.

Mudou de casa, mudou de escola. Como era nas aulas?
(risos) Eu nunca fui muito dedicado aos estudos, mas nunca chumbei nenhum ano… até ao meu décimo segundo.

O que aconteceu nessa altura?
No meu décimo segundo ano tive de mudar de escola outra vez, porque os meus pais quiseram mudar para uma casa maior. Fomos para um bairro que ficava a alguns quarteirões da casa onde estávamos e a escola lá era frequentada por pessoas totalmente diferentes das que estava habituado. Acabei por perder contacto com a maior parte dos meus amigos e vi-me obrigado a integrar-me num grupo que não era nada a minha cara até à altura. Todos consumiam algum tipo de drogas e quando me comecei a aperceber da situação já era tarde demais. Já estava no meio do grupo e, caso saísse, ía ser desprezado pela escola toda porque eles tinham muito poder lá na escola.

Os seus pais alguma vez o alertaram para esse tipo de situações?
Lembro-me muito bem de uma semana depois de ter começado na escola nova, a minha mãe me ter perguntado se alguém já me tinha oferecido alguma coisa. A minha expressão foi de completa surpresa porque não me passava de todo pela cabeça que alguém sequer com a nossa idade o pudesse fazer. Eu, sinceramente, agora que olho para trás, penso que com 17 anos era mais inocente do que crianças hoje em dia com 12 anos. Se queres que te seja sincero, eu lá para os meus 14 anos experimentei uns cigarritos com os meus colegas, mas como nenhum de nós sabia como fazer, desistimos porque aquilo nos dava uma tosse horrível.

E mesmo com os avisos que eles lhe deram, decidiu experimentar? Talvez devido a alguma pressão por parte do grupo?
Eles eram boas pessoas. A certa altura, o meu pai voltou a perder o emprego e as coisas lá em casa não andavam famosas. Eu via naquele grupo uma forma de escape da realidade. Lembro-me de uma vez estarmos todos num café ao lado da escola e um deles se virar e dizer «porque é que não fumas algo connosco para relaxares?». Aquilo ao início não me pareceu nada boa ideia, mas eles estavam bem, por isso não devia fazer assim tão mal. Começamos a fumar uns charrozitos depois do liceu. Íamos para o meio da mata que havia por trás da nossa escola e lá nos deixávamos ficar durante tardes inteiras e até os nosso olhos voltarem ao normal para depois irmos para casa.

Então, o Luís começou experimentar esse tipo de coisas porque o relaxavam e faziam-no afastar dos problemas em casa. Qual foi o ponto de viragem para começar a consumir substâncias mais fortes e prejudiciais? Foi também por influência do grupo?
O que fumava no início era praticamente inofensivo, tal como os problemas em casa. Foi no verão, quando o meu irmão mais chegado morreu, que a minha vida mudou completamente. Recordo-me de nesse dia, depois de saber o que tinha acontecido, de ter ido ter com os meus amigos e ter fumado mais erva do que alguma vez tinha fumado na vida. Nessa altura aconteceu muita coisa, o meu pai tinha perdido o trabalho e chegava sempre bêbedo a casa, o meu irmão morreu e, por causa de tudo isso, eu acabei por chumbar o décimo segundo ano. Foi passados uns meses que comecei a entrar em caminhos mais perigosos.

Caminhos perigosos?
Fui um bocado movido pela curiosidade e pela necessidade de me fechar do mundo que tinha à minha volta. Foi uma pena não ter percebido que não enfrentar a realidade só me iria trazer mais problemas. Comecei a experimentar coisas novas e com efeitos mais fortes, como heroína, por volta dos 18/19 anos. A partir daí, as drogas dominaram a minha vida por completo.

Em algum momento se deu conta de que já não havia volta a dar?
Foi um período muito mau. Eu comecei a afastar-me da minha família e até dos meus amigos. Cheguei a viver na rua e sabia que aquilo me estava a matar, mas por muito que eu quisesse sair daquele buraco, já não havia volta a dar e eu sabia isso. Comecei a dar me bem com uns senhores que tinham um café. Eles todos os dias davam-me o que sobrava dos bolos e do pão e levavam-me água, mas também não me davam muita confiança. Eu era um sem-abrigo, não era uma pessoa como eles. Parecia que toda a gente tinha medo de mim e sinceramente tinham todas as razoes para ter. Eu estava medonho, estava mais chupado que um palito e tinha uma cara que metia medo ao susto. Chegou a uma altura em que eu vi a minha mãe chorar dia e noite por minha culpa. Foi aí que eu decidi que tinha de fazer alguma coisa e tentei deixar-me daquilo.
Mudei de cidade, estive em Viseu cinco anos e durante esses cinco anos mudei de emprego 11 vezes. Dá para acreditar? 11 vezes. Trabalhei nas obras, como padeiro, numa loja de ferragens, fui jardineiro… tive tanta profissão que já nem eu me lembro. Deitei tudo a perder várias vezes por causa de recaídas e cheguei a viver em condições degradantes. Quando estive viciado durante todo aquele tempo, mal me lembro das coisas que fazia. Foi um período horrível e muito desgastante, mas fez parte de mim. Com as drogas, eu destruí as minhas amizades, as minhas paixões, até a minha família, e ainda hoje estou a lutar por recuperá-los. A droga dominou literalmente a minha vida, ensinou-me a mentir, a manipular e levou-me ao caminho de que mais me envergonho: a roubar. Aliás, o facto de eu ter tido 11 empregos deve-se muito a isto. Na padaria, por exemplo, só trabalhei duas semanas porque estava a ressacar por droga e precisava de comprar mais. Roubei na altura 80 contos [hoje em dia 400 euros] e assim que descobriram que tinha sido eu, fui posto no olho da rua.

Foi uma recuperação difícil, mas hoje, felizmente, está de boa saúde e com um emprego. Acredito que haja um momento em que se pense “tem de ser desta, é agora ou nunca” e que o faça mudar de vida radicalmente e de vez. Qual foi esse momento, Luís?
Nunca é definitivo, ainda hoje luto por isto. Eu estive à beira da morte duas vezes e, como à terceira é de vez, decidi que não podia haver terceira. Tinha eu 29 anos na altura e foi quando conheci a minha atual esposa. Foi como um anjo que me apareceu na vida. Tinha começado a trabalhar há pouco tempo como empregado de mesa noutro café lá de Viseu, há cerca de três semanas, e tinha terminado mais uns tratamentos de desintoxicação. As pessoas que me deram trabalho foram também impecáveis, foram as únicas que se conseguiam aproximar de mim sem julgamentos. Confiaram em mim e foi por isso mesmo que não os desiludi. Trabalhei e esforcei-me para mudar. A droga era um assunto que estava a começar a ficar tratado. Com 34 anos saí da minha última sessão de terapia de reabilitação. Casei, trabalho num café com a minha mulher e hoje tenho um filho que me dá muita alegria, tem 7 anos e quer ser astronauta. Como é a imaginação das crianças…

Qual é a maior lição que tira de tudo o que viveu?
 Se eu não tivesse batido no fundo do poço nunca saberia o que era a vida. Não foi uma fase bonita da minha vida, mas fez de mim a pessoa que sou hoje. Só quem passa por algo assim é que sabe a força que é precisa para ultrapassarmos isto e lutarmos até contra nós próprios. Nós somos os nossos melhores amigos, mas ao mesmo tempo os nossos piores inimigos… E um vício é um vício. Hoje em dia, os pais não têm noção das coisas a que os filhos estão sujeitos todos os dias. Nunca vou deixar que o meu filho perca o controlo da mesma maneira que eu perdi. Não tenho orgulho naquilo que fui há muitos anos atrás, mas tenho orgulho na batalha que eu ganhei. A solução é contornar os problemas e não fugir deles. Mas, mais importante que tudo isso, temos de saber pedir ajuda. Sozinho, teria sido impossível.

Disse que ainda hoje luta por uma vida diferente. Continua em reabilitação?

Quando saímos de um vício, quer seja álcool, drogas ou outra coisa qualquer, ele fica sempre nas nossas vidas, quer queiramos quer não, e há sempre a possibilidade de haver uma recaída. É preciso continuar a tratar, mais do que as físicas, as marcas psicológicas. Por isso, eu participo em algumas reuniões em que estão presentes alguns ex-viciados e todos os dias partilhamos experiências novas, porque todos os dias, sobretudo no início do tratamento de desintoxicação, se vencem novas batalhas. Por muito pequenas que sejam, são fundamentais. É bom sentirmos que alguém passou pelo mesmo que nós e que valoriza as nossas pequenas vitórias. E eu preciso de continuar a ouvir essas histórias para nunca me esquecer que não posso voltar a passar por elas.

Catarina Elias

Uma Mulher diferente e sempre ativa

Maria Adelaide Bello é uma mulher de 72 anos, mãe, esposa, avó, professora, aluna, cuja experiência faz questionar se realmente podemos influenciar muito o resultado ou se na prática, são as pessoas que, em si mesmas, constroem as condições para que as coisas aconteçam.
Uma figura ativa e irreverente que se preocupa em manter-se motivada e envolvida na vida ativa, contribuindo com a sua experiência e saber. Mesmo aposentada profissionalmente, Maria Adelaide mantém o seu tempo preenchido com cursos aplicados às mais diversas áreas, com atividades ligadas ao desporto, com aulas, etc…
Maria Adelaide Bello


Maria Adelaide, considera que sempre foi uma pessoa diferente do normal?
Penso que sim. Herdei essa costela da minha mãe, embora ela, tenha sido muito mais irreverente que eu. Os tempos também eram outros e as diferenças tornavam-se mais óbvias. No entanto, o ambiente em que me desenvolvi também não era fácil e as minhas atitudes e princípios sempre se destacaram pela originalidade e particularidade, é verdade!



Tem algumas situações na sua vida, que queira partilhar, que caracterizem essa sua diferença?
A primeira que me ocorre é ter saído à noite durante a minha juventude, sem o meu irmão. Éramos dois e, supostamente as “meninas” não andavam por aí sozinhas. Eu tinha um irmão, mas não tinha um guarda-costas, cada um de nós fazia a sua vida.


Depois, em 1960, quando entrei para a faculdade – IST - comprei uma Lambreta- Honda Vespa - e fiz toda a universidade com ela. Tendo em conta que eu era mulher, a lambreta foi sem dúvida um sinal único de diferença. Não pela lambreta em si, mas pela atitude de a comprar e usar. Corri o país, com ela, visitando amigos e locais que me interessavam ver.

Numa época em que o mundo não estava acessível a qualquer um, sem grandes posses económicas, mas com muita vontade, visitei, com amigos, alguns países da europa, de comboio e sempre em segunda classe.


Quando começou a trabalhar?
Assim que entrei na faculdade, comecei a dar explicações num externato para ganhar o meu dinheiro. Como já referi não venho de uma família de grandes posses e a minha mãe sempre nos educou de forma a lutarmos e trabalharmos por aquilo que era importante. O dinheiro que tinha para gastar era ganho por mim.
Mal acabei o curso, em 1967, fui convidada pelo departamento de física para dar aulas.


Qual foi o seu percurso profissional?
Lecionei diferentes cadeiras de física no IST, fiz investigação em Física molecular durante dez anos e, porque não vi grande mais-valia para mim, acabei por não fazer doutoramento. Abandonei a faculdade e fui dar aulas de físico-química no ensino Secundário.
Pertenci, durante 5 anos à equipa que elaborou as provas de física do 12º ano e fiz manuais escolares de física para os 10º, 11º e 12º anos com uma colega, professora da universidade de Coimbra.


Com que idade e em que condições se reformou?
Reformei-me aos 65 anos, quando atingi o limite de idade. Não procurei fazê-lo antes nem depois. Assumi que era altura e reformei-me!


Em que é que esse momento alterou a sua vida?
Fiquei sem stress nenhum. A correria em que vivia desapareceu e ganhei espaço e disposição para me dedicar a coisas novas e principalmente, aquilo que me dá gozo fazer.

Como preparou esse momento?
Não investi grande tempo na preparação. Chegou a altura e assumi que era O Momento e, nessa altura dediquei-me a pensar fazer coisas bem diferentes daquilo que tinha feito até então.

Com que se ocupa depois de se ter reformado?
Há 4 anos que faço teatro, estudo italiano e literatura portuguesa. Frequento aulas de Cultura Russa. Vou a exposições, feiras, museus, eventos, muito mais frequentemente do que ia. Ainda no ativo tirei o curso de fotografia no ARCO e, agora, aproveitei para o completar com um curso de Fotoshop e um curso avançado de fotografia a cores.
Entretenho-me também a estudar Matemática de 12º ano para ajudar o filho de uma amiga, fazer paciências e Sudokus, ler jornais e revistas… A preocupação não é manter a cabeça a funcionar, mas sim entreter-me. O facto é que tem ajudado a adiar a visita do Sr Alemão – Alzeimer e a sentir-me intelectualmente ativa.
Adoro comer bem e cozinhar, por isso devoro os episódios de 24 Kitchen que complementam os diversos cursos de culinária em que participo e que me ajudam a enriquecer a imaginação e a alargar o paladar.
Encontro-me, todas as semanas, em minha casa, com amigas para lanchar, conversar e fazemos manualidades ( tricot, costura, etc, etc ). Procuro participar em alguns Workshops de costura, bilros, tricot. Para manter a minha fabulosa forma física – acrescenta em tom de brincadeira – tenho aulas de pilates com um PT particular.

Qual a grande diferença na sua vida antes e depois da reforma?
O ritmo e a liberdade de escolha. A minha vida passou a fazer-se ao ritmo que eu quero e posso e não ao que tem de ser e, tão ou mais importante que isso, sou eu quem decido o que quero, não quero, posso ou não posso fazer e isso é fantástico!

Considera que continua a ser uma mulher diferente do normal?
Não tanto como antes. No entanto, o meu universo é pequeno e cheio de gente diferente. O facto de eu ser a decisora daquilo que faço tornou-me também seletiva. O meu ciclo de amigos e contactos responde às minhas exigências e expetativas e aí não cabem e não se destacam pessoas vulgares!

Para si, qual foi sempre o motor principal que a levou a ser sempre diferente?
O ADN. Leia-se eu própria.
Não me acomodo. Gosto de aprender e leio muito – sempre fui assim.
Sou visceralmente contra fanatismos, e seguidismos. Não vou atrás só por ir. Não gosto de modas nem de imitações. Só posso ser irreverente.
Chama-se a isto ser diferente? Então sim, sou diferente!



Maria Inês Gomes

Galeria de Sta Clara- um pequeno mundo de cultura em Coimbra





“Quem vai, quer voltar. Quem não foi, devia ir.” Este poderia ser o lema da “Galeria Bar Santa Clara”, um dos sitios que mais reflete a qualidade e beleza da cidade de Coimbra.


Localizada na Rua António Augusto Gonçalves, esta galeria existe desde 1993 e, desde logo, mostrou preocupação na forma como se apresenta ao público: o espaço, cheio de pinturas e obras de arte que se mesclam na decoração, é também palco de workshops, sessões de cinema, concertos de bandas locais que têm oportunidade de mostrar o seu trabalho ao público, sempre com o objetivo de proporcionar uma sensação de bem-estar, ao 
mesmo tempo que procura enriquecer culturalmente quem a visita

Foto 1- Vista da esplanada da galeria



Foto 2- Tecto com uma pintura numa das salas da galeria

É com infra-estruturas equipadas e preparadas para todo o tipo de demonstrações artisticas que a galeria se deixa visitar; todos os eventos que nela decorrem são pensados e preparados de forma meticulosa por quem lá trabalha, muitos dos quais resultam de parcerias com outras associações e instituições, o que contribui para a simplificação do trabalho.

                                                                                              Foto 3- Sala dedicada à leitura

Paralelamente, existe também um bar que se complementa com as peculariedades da galeria ao incutir ambientes distintos, como a esplanada à beira-rio, onde os visitantes são convidados a apreciar a cidade, ao mesmo tempo que se deleitam com os snacks e cocktails à disposição; além de dispor ainda de uma sala de estar (ou de concertos, dependendo da ocasião).





Foto 4- Azuleijos com história 


De exposições a conversas de café, de Fernando Pessoa ao teatro, de DJ’s ao jazz, a “Galeria Bar Santa Clara” proporciona momentos de lazer, descontração e convívio, num espaço permanentemente aberto para todos os que a pretendam visitar, com intenções de desfrutar da vista e colher algumas das riquezas culturais que por lá se cruzam.


                                                                                   Foto 5- Lanches da galeria



            Foto 6- Sala de concertos                                                      Foto 7- Ambiente da galeria 


                            
                                               Foto 8- Frase de Fernando Pessoa numa parede da galeria



Por: Marlene Ribeiro, Cláudia Gomes, Eduardo Pinto e Tiago Guedes