domingo, 13 de dezembro de 2015

Licenciaturas, será que uma chega?

Num país onde a empregabilidade e a crise económica são temas constantes na língua das pessoas surge uma questão importante quanto à formação das mesmas. Portugal tem 17,6% de população com ensino superior mas 8% desta população está desempregada… será que ao obter mais do que um curso de formação ajuda? Valdemar Ramalho, de sessenta e cinco anos, professor de ensino secundário na escola Dr. Joaquim de Carvalho na Figueira da Foz depara-se com o seu último ano como docente e respondeu-nos às seguintes perguntas:

 img.1 Valdemar Ramalho

Quais foram os cursos em que o professor se licenciou?
- Sociologia no ISCTE-IUL, Design no IADE-U em ensino privado e também tirei Fotografia e Cinema enquanto fazia parte do exército, pelos serviços cartográficos do mesmo.

Quantos anos diria que viveu como “estudante” de ensino superior?
- Como estudante gosto de pensar que ainda hoje o sou, mas a estudar no ensino superior passei um pouco menos. O curso de Fotografia e Cinema foi o mais curto que foi de apenas um ano, demorei quatro anos a licenciar-me em Design e finalmente cinco anos em Sociologia, três anos para a licenciatura e dois anos para a especialização em Sociologia da Arte.

Ao licenciar-se em três áreas diferentes certamente pensou nas vantagens que lhe trariam. Quais foram?
- Pode parecer inacreditável mas os cursos que tirei, individualmente, não me trouxeram vantagens quase nenhumas. Trabalhei como operador de câmara na RTP em mil novecentos e setenta durante um ano e meio com o curso de foto-cine. Fui fazendo vários biscates e trabalhos pagos ao longo da minha vida com grande fundamento em Design e Fotografia mas nunca um emprego a sério. Só em mil novecentos e oitenta e quatro é que consegui ingressar numa escola de ensino secundário como professor de história e cultura das artes graças à minha especialização em Sociologia das Artes e da licenciatura em Design. Mas posso aplicar apenas um pouco do meu conhecimento  em sociologia e em design enquanto dou aulas, a outra grande parte apenas me satisfaz intelectual e culturalmente, mas não me ajuda propriamente a exercer o meu cargo.

O professor Valdemar acabou de dizer que entrou no mundo do ensino com os seus trinta e quatro anos. Nunca pensou em ingressar noutro mundo com a vantagem de ter várias áreas de formação superior?
- Pensei em trabalhar em relações públicas com a ajuda do curso de Sociologia ou mesmo em Design de Interiores com o curso de design, mas a triste verdade é que apesar de ter tirado vários cursos era muito difícil arranjar um emprego em que pudesse aplicar todos os meus conhecimentos. Professor de história das artes foi talvez o único emprego que tive até à data em que pude com mais facilidade difundir o conhecimento das minhas áreas de especialização e foi também o emprego que me deu mais prazer em termos intelectuais e académicos.

Com toda a sua experiência de vida, que conselhos pode dar a estudantes que têm interesse em tirar mais do que uma licenciatura?
- O maior conselho que lhes posso dar é para seguirem o que gostam e não perderem demasiado tempo a estudar como eu fiz. Tive sorte em ter uma família que vivia bem assalariada e pode cobrir todos os meus estudos mas poderia ter começado muito mais cedo a exercer algo. Escolham um curso que gostem e se depois concluírem que afinal é tiro no escuro, então aí, e só aí, podem ou devem tentar formar-se noutra área.


Aconselha a outros alunos do ensino superior a percorrerem o caminho que o professor tomou?
- Muito concisamente, não. Arrependi-me a longo termo pois o país não recompensa alunos com mais áreas de formação porque cada área é muito limitada em termos académicos. Nunca encontrei um emprego onde pudesse aplicar conhecimentos de mais do que um curso portanto hoje posso dizer que só tirei proveito de um deles enquanto professor de História das Artes. A decisão do curso acertado deve ser prévia à resolução do mesmo portanto se não gostarem do curso em que estão, sugiro que mudem o mais rápido possível em vez de o completarem por uma questão de orgulho ou de medo de não conseguirem tirar outro curso. Basta um curso para se ser bem sucedido, o resto cabe a cada um de nós averiguar.

img.2 auto retrato de Valdemar Ramalho


Leonardo Ramalho, Grupo 3

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De estagiária a colaboradora - Entrevista a Crisália Azevedo

Crisália Azevedo, uma recém-licenciada da Escola Superior de Educação de Coimbra, é agora colaboradora do Jornal de Notícias, mas tudo começou com um estágio, empenho, trabalho e muita dedicação.


      Sempre soubeste que o teu futuro ia ser o jornalismo ou tinhas algo diferente em mente no início do teu percurso universitário?
O caminho para chegar até aqui foi um pouco atribulado. Não posso dizer que quero ser jornalista desde pequena nem tão pouco que sempre soube a área que queria seguir. O meu ingresso no ensino superior também não foi em Jornalismo: primeiro estive um ano no curso de Português na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi um percurso de “tentativas-erro” até chegar a Comunicação Social. A minha escolha no secundário também já não teria sido a mais acertada, mas só mais tarde é que me apercebi que as minhas aptidões em tudo se coadunavam mais com área científico-humanística do que com o curso que frequentava, de Ciências e Tecnologias. Mas mesmo já a estudar Comunicação Social, cheguei a equacionar a possibilidade de seguir o segundo ramo, de Criação de Conteúdos para os Novos Media, por aparentemente ter mais saída e um leque mais vasto de possibilidades para ingressar no mercado de trabalho. Mas o Jornalismo é um caminho que se constrói. Cada jornalista que se forma fá-lo de maneira diferente e com percursos diferentes. 

   Com tantas áreas dentro do jornalismo, porque imprensa?
Primeiro, porque sempre gostei de escrever e o facto de poder contar histórias é algo que me fascina no mundo do Jornalismo. Depois porque acho nobre assumir a tarefa de informar o outro, não fosse o Jornalismo o mediador da democracia.

         O que te levou a escolher o Jornal de Notícias como local de estágio?
O Jornal de Notícias era uma das publicações com as quais estava mais familiarizada e com a qual me identificava, no conteúdo e na forma. E depois porque são mais de 100 anos de “jornais” e “notícias”, com toda a história e prestígio que isso traz.

     Enquanto estagiária quais eram as tuas responsabilidades e quais foram os teus maiores desafios?

O meu estágio no Jornal de Notícias levou-me abandonar a ideia romântica que a maior parte dos estudantes alimenta, acerca do Jornalismo, antes de ter a primeira experiência na área. Ali, eu era claramente uma estagiária, mas fazia exatamente as mesmas tarefas de um jornalista. A nível de aproximação do mercado de trabalho não poderia ter tido melhor experiência. Tinha que atingir os mesmo objetivos que qualquer um dos jornalistas. Com o mesmo rigor, a mesma clareza, a mesma humanização das reportagens. Aliás, a clareza e o rigor são um dos princípios básicos do Jornalismo e é logo o artigo 1º do Código Deontológico do Jornalista: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”. A única diferença é que os serviços que fazia não eram tão exigentes quanto os deles, nem se transformavam em página e meia de jornal. Ainda assim publiquei algumas peças de destaque e todas elas assinadas, algo que não estava à espera que acontecesse antes de iniciar o estágio. Os editores davam-me total liberdade para recolher informação e redigir as notícias. Apenas faziam uma revisão e procediam às alterações necessárias antes das páginas serem fechadas no Millenium – o software utilizado para fazer o jornal. Muitos dos trabalhos revelaram-se um desafio para mim mas quanto maiores os desafios, maiores as aprendizagens e conquistas. Dou-vos um exemplo prático: em março, tive que fazer o balanço do projeto “Paraíso Solidário”, em Vilar do Paraíso, que presta apoio a 220 famílias e distribui 32 toneladas de alimentos por ano. A verba provém de empresas da freguesia que decidiram aliar-se à causa e pagar uma espécie de “imposto social” que ronda os 100/200€ por mês para o programa conseguir dar respostas às necessidades de cada família. O JN noticiou o lançamento do programa e, três anos mais tarde, decidiu recuperar a história. No entanto, entrevistar algumas das pessoas beneficiadas pelo programa não foi fácil pela carga emocional que acarreta dar o testemunho de uma situação tão delicada quanto esta. Uma das entrevistadas vivia com sérias dificuldades económicas e partilhava casa com seis familiares. Pagava uma renda de 360 euros, um valor demasiado alto para os 511 euros com os quais a família se governava. As lágrimas e soluços entre palavas eram uma constante. Toda aquela exposição deixou-me desarmada. A senhora estava a por a sua alma a nú, diante de mim e eu tinha que continuar a fazer-lhe perguntas para obter a informação que precisava, por muito que me custasse fazê-lo. Entrevistei-a mas de uma forma particular: como se tivéssemos a ter uma conversa informal. E a verdade é que a posição que se assume perante uma fonte – formal ou informal – muda bastante a postura e disponibilidade do entrevistado para com o jornalista. Se conseguirmos criar empatia com a pessoa, mais e mais importantes informações ela estará disposta a dar-nos. Este aspeto da comunicação é fundamental para que ela desenvolva as suas respostas e não responda apenas com “sim” e “não”.

5        Alguma vez durante o estágio pensaste que te iam convidar a permanecer enquanto colaboradora?
Não, nunca pensei nessa possibilidade. Fui para o estágio com o objetivo de dar o meu melhor e, acima de tudo, de terminar com sucesso a última etapa da minha formação académica. Nunca pensei que ali se abririam as primeiras portas para o mercado de trabalho porque estava ciente das dificuldades de um recém-licenciado em arranjar emprego. O setor da informação é um mercado extremamente saturado, onde para além de ser difícil entrar, é difícil permanecer. Por ano formam-se em Jornalismo, muitas mais pessoas que aquelas que os media têm capacidade para acolher. E os despedimentos coletivos são cada vez mais frequentes e em maior número. Vejamos o “Sol” e o “i”. Ainda assim, existem sempre alternativas e novos projetos a acontecer.

     Quais são as maiores diferenças entre estagiária e colaboradora?
São cargos completamente distintos. Um estagiário – não desvirtuando as suas responsabilidades e o seu empenho – cumpre funções dentro da instituição, no âmbito curricular. O estágio é a etapa final da formação académica de um estudante e para a grande maioria é o primeiro contato com o mercado de trabalho e com o Jornalismo. Um estagiário está numa publicação para aprender e para melhorar dia após dia. Para fazer cada vez mais em menos tempo e para dizer muito sem serem precisas muitas palavras. Por outro lado, um colaborador faz parte do “pessoal” da instituição embora não seja dos “quadros”. Um colaborador presta serviços à instituição mediática e dá o seu nome a uma equipa que trabalha em prol do mesmo objetivo. É uma questão administrativa e acima de tudo orçamental, porque quanto ao resto, um colaborador e um jornalista são o mesmo.
      
Quais as funções que exerces no JN neste momento?  
Neste momento estou a fazer serviço de Agenda. Um jornalista de agenda não executa trabalho editorial nem redige notícias mas tem nas suas mãos o poder de decidir sobre que temas se irá escrever. Para além de ter conhecimento dos trabalhos que todas as secções estão a desenvolver (e por quem), é na agenda que a informação é filtrada. E a agenda é essencialmente isso - filtragem de informação - por telefone, e-mail ou qualquer outra via – e planeamento. A agenda é uma secção onde são necessárias fontes e, acima de tudo, ter bem consolidado o conceito de valor-notícia. Fazer serviço de agenda não traz visibilidade nem reconhecimento a um jornalista. Ele não produz notícias nem vê o seu nome assinado em nenhuma peça. Na realidade, fazer a agenda não é um trabalho muito exigente mas reconheço que é de grande responsabilidade. A agenda é o "esqueleto" de um jornal. É na agenda onde estão marcados os serviços para os dias seguintes, os horários, os locais, os fotógrafos. Uma pequena falha no horário ou na data, implica que ninguém cubra o serviço, isto é, que o jornal não esteja presente no acontecimento. A agenda, enquanto documento, conserva informações relevantes, durante o seu tempo de vida útil e todas as secções, de todo o jornal, dependem da agenda. É um elemento fundamental mas, devido aos cortes orçamentais, cada vez mais “dispensável” para a organização de um diário. Estou satisfeita com esta oportunidade mas não realizada porque não estou a escrever, que é aquilo que gosto verdadeiramente de fazer embora tenha liberdade para propor temas e escrever sobre eles, como tem acontecido ultimamente, sempre que tenho oportunidade para o fazer.

8      Acreditas que o tipo de jornalismo produzido no nosso país é de qualidade?
Essa pergunta não tem uma resposta fácil. No meu ponto de vista, acho que existe sim Jornalismo de qualidade no nosso país, assim como muito bons jornalistas. Nomeadamente Jornalismo que não é de massas. Mas, como é de senso comum, a informação é muitas vezes defraudada pelo número de vendas e o Jornalismo transforma-se em propaganda e sensacionalismo ao invés de cumprir funções de serviço público. As publicações de massas vivem com a pressão de cumprirem metas e liderarem o mercado e isso é muitas vezes incompatível com informar de forma isenta e rigorosa.
9
           Quais são os teus maiores objetivos enquanto jornalista?
Poder escrever sobre todo e qualquer assunto, sem que o tema me possa “melindrar” e criar uma boa rede de contactos. Mas mais importante que isso quero melhorar, dia após dia, para ser uma profissional completa, competente e versátil, o que inclui ser 100% autónoma na produção de conteúdos jornalísticos, desde a fase de recolha de informação até à redação de uma notícia.  

      Pensas completar a tua formação académica de alguma outra forma?
De momento não, mas não excluo a possibilidade de num futuro próximo, conciliar o trabalho com mestrado ou averiguar outras possibilidades compatíveis com as minhas funções no Jornal de Notícias. A verdade é que sinto que ainda tenho muito que aprender e três anos de Licenciatura não são suficientes para adquirirmos muitos conhecimentos. Mas a melhor escola para um jornalista é, sem dúvida, uma redação. 

Grupo 7 no âmbito do tema "Jornalismo e Profissão"
Sara Pestana
Frederica Wilbraham
Roberto Quintas  

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Um caminho alternativo para um futuro promissor

Futebol. Esta é a grande paixão de Jorge Martins. A caminho do seu terceiro ano como treinador de futebol nas camadas jovens do clube da sua zona de residência - o Grupo Desportivo Recreativo Bidoeirense – foi lá que o jovem de 22 anos descobriu um caminho para o seu futuro. É para lá que move grande parte das suas energias. “Um clube: uma família”, é como o descreve.

Após o 12º ano tomou a decisão de não seguir para uma licenciatura, mas essa escolha não fez com que parasse de estudar. Divide o seu dia-a-dia entre o trabalho numas estufas locais, os cursos de formação onde se inscreveu e os “miúdos do futebol”, como carinhosamente lhes chama. 
Futebol. 



Imagem 1 Jorge Martins (à direita, vestido de preto), com a equipa de sub-12 do GDR Bidoeirense


Qual é a atividade que ocupa mais os teus tempos livres?
O desporto, mas em particular, o futebol.

Como foi o teu percurso escolar?
Depois de terminar o 9º ano fui para Artes Visuais, no ensino secundário. Terminei o 12º ano e parei de estudar. 

O desporto sempre foi a tua área preferida?
Artes Visuais foi o curso que escolhi no ensino secundário e depois de o terminar, ao ficar parado um ano, reparei que o desporto é que me fazia feliz.

Como vives agora a tua semana, dia-a-dia?
Divido os meus dias entre o trabalho, os cursos de formação que estou a tirar e os miúdos que treino, num clube de futebol local.

Que cursos estás a tirar?
Estou a tirar um curso de Massagem Terapêutica e Desportiva que se foca mais em massagem desportiva. Dá-me a possibilidade de trabalhar em clubes, em áreas relacionadas com o desporto. Agora vou começar também o curso de treinador de futebol.

Sempre quiseste seguir esta via de formação, através dos cursos de formação? Porquê?
Não, nem sempre. Quando eu terminei o 9º ano fui para Artes Visuais porque na altura eu gostava de desenhar mas quando acabei o 12º ano fiquei sem saber o que fazer ou que licenciatura escolher então estive parado algum tempo. Depois surgiu esta oportunidade no futebol e partir daí é que o gosto pelo desporto, pelo futebol em si, começou a crescer. O interesse nesta área aumentou também, daí ter decidido tirar dois cursos mais destinados para a vertente desportiva.

Sentes que o teu trabalho nas estufas te deu segurança para voltar a estudar?
Deu. Monetariamente é sempre mais fácil conseguirmos arranjar o nosso dinheiro e investi-lo nos estudos do que estar constantemente a pedir dinheiro aos pais para pagar os cursos.



O que significa para ti ser treinador no clube de futebol local?
Eu joguei muito tempo no Bidoeirense e agora, ao transmitir aos miúdos o que aprendi, torna-se uma forma de retribuir ao clube o que ele me deu nos anos anteriores. 

Imaginas-te a trabalhar noutra área no futuro? 
Não, definitivamente tem de ser algo relacionado com o desporto.

Sentes-te realizado com as tuas escolhas?
Não completamente, mas talvez daqui a um ano já diga que sim.

Se pudesses mudar algo na tua vida, o que seria?
Talvez, depois do 9º ano, teria enveredado por um curso profissional  de desporto ou então em vez de ter escolhido Artes Visuais teria optado por um curso que me desse mais bases na área desportiva.


Joana Ferreira (grupo 3)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

“…pintava as paredes à minha mãe - ela não achava muita piada."

“O futuro é como o papel branco onde podemos escrever e desenhar o que queremos.”. Se é assim que José Vítor Silva o encara, exploremos com ele, as primeiras linhas desenhadas por si. Gosta de coisas “Simples, clean” e pertence à geração de ’95. Natural de Amarante e estudante de Comunicação e Design Multimédia na Escola Superior de Educação de Coimbra. 
Eis o “Zé Vitro”.


1.Trabalho de dupla exposição de "Zé Vitro"
Das vastas áreas que dominas - Fotografia, Design, Multimédia - em qual apostas mais tempo? Tem alguma explicação lógica?
  Tudo depende da altura do ano, mas acabo por estar sempre mais dentro das áreas da Fotografia e do Design. Por exemplo, quando não tenho trabalhos da faculdade, tento sempre criar “propostas” para comigo, para me manter sempre ativo e nunca me desleixar nesta área. Passo muito tempo ao computador e isso influencia muito.  

Qual foi o momento em que te apercebeste que era esta a tua zona de conforto?
  Acho que desde novo já mostrava sinais que gostava de desenho, inclusive pintava as paredes à minha mãe - ela não achava muita piada. Sempre gostei de comunicar com as pessoas de forma diferente, com desenhos… algo que não fosse necessário utilizar a voz. 
  Conheci a área do Design bastante cedo e sabia que esta era uma boa forma de usar o desenho como um meio de comunicação, mantendo-me sempre atual e tentando inovar constantemente todos os anos. A isto juntou-se um hobbie que sempre tive desde pequeno - fotografar, fotografar e fotografar…  

Já alguma vez foste criticado, pela tua área ou pelo teu trabalho?
  Acho que todos nós recebemos críticas, sejam elas positivas ou negativas, e eu não sou exceção. Fui, sim, criticado construtivamente pelo meu trabalho, no entanto tento respeitar sempre essas opiniões. 
  Todas essas críticas nos fazem pensar no que devemos melhorar para tentar “reverter” esse pensamento. 

Como percebes que uma ideia deve realmente ser concretizada?
  Para mim só o facto de criar uma ideia já a torna moderadamente concretizada. Se todos pensarmos assim e formos ambiciosos, vamos conseguir mostrar aquilo que gostamos de fazer e, de certeza que, alguém reconhecerá o nosso trabalho. Se ninguém o fizer, fazemos nós! Não há nada melhor que nós próprios nos sentirmos bem com o nosso trabalho.

Tens esperança no Design Português?
  Não só tenho como acho que é das melhores artes que o artista português faz, Design. Admiro bastante a nossa cultura e poder mostrá-la aos outros países, sendo que a melhor forma de o fazer é desenhá-la. Saber expressar pormenores que caracterizem o nosso país e que o identifiquem de imediato é do mais gratificante que existe. 

Consideras que o design é suficientemente valorizado?
  Acho que precisamos de ser persistentes e continuar a desenhar, a ilustrar, a fotografar, basicamente a comunicar. 
  Hoje em dia, no século XXI, penso que as pessoas estão aderir bastante a estas áreas e começam a procurar muito o Design para ser aplicado em vários assuntos. Por outro lado, considero que o desafio mais difícil é saber mostrar esta arte às pessoas mais velhas, porque para a minha avó eu sou um “desenhador” que faz “rabiscos”, no entanto sei que ela valoriza esses “rabiscos” e tenta implantar-lhes uma lógica. 

Qual é a tua referência no Design?
  Para mim, o que faz uma boa referência no Design é torná-lo apelativo e “clean”. Considero que, o mais difícil é fazer o simples. 
  A nível de Design Gráfico e de Tipografia, sem dúvida que Stanley Morison é uma inspiração. Foi ele que teve a capacidade de mostrar, ao longo da  história, que a letra é bastante importante na imagem corporativa. Enfrentou muitos obstáculos, como jornais e revistas, e conseguiu dar a conhecer ao mundo a famosa letra “Times New Roman”, a qual considero o maior sucesso de sempre no mundo da tipografia.  

E na fotografia?
  Tenho várias (referências), contudo uma fotografia torna-se numa referência quando me cria sensações, emoções. Para mim isso sim é uma boa fotografia, não o reconhecimento de uma pessoa em concreto. 

Sentes que o reconhecimento que tens recebido é equivalente ao teu esforço? 
  Não faço isto propriamente para ter um reconhecimento, mas é claro que todos nós gostamos de ser elogiados e receber algum apoio de quem nos é mais próximo.
2. "Zé Vitro" e a fotografia

As tuas fotografias são frequentemente partilhadas pelo “P3”, um site de informação de forte componente multimédia, resultante de um consórcio inédito entre o Público, a Universidade do Porto e o INESC - Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Porto. Consegues explicar-nos como encaras esta situação? 
  Como referiste, o Público tem uma forte componente multimédia em vários aspetos, para mim é dos melhores centros de informação que existe em Portugal. Ser destacado pelo jornal deixa-me muito grato, é o reconhecimento daquilo que faço. 

Como te sentes em relação a teres mais seguidores na aplicação “Instagram” que certas figuras públicas? 
  Não diria que me sinto melhor com isso por não é de todo gratificante. O mais importante para mim são as pessoas que se tornam assíduas e estão constantemente a acompanhar o meu trabalho - eu sei quem elas são. À custa disso, já criei laços com algumas pessoas, tanto no mundo do trabalho como na vida pessoal. Acaba por ser um espaço onde já conheces as pessoas pelo tipo de fotografia que captam e isso, sim, para mim é o mais importante. 

Tens algum conselho para dar a um futuro designer que está prestes a iniciar o seu percurso académico?
  Não sou a melhor pessoa para dar conselhos, porque eu próprio estou a começar, ainda tenho que aprender muito e tentar melhorar constantemente. No entanto, do pouco que sei, posso dizer que devemos persistir naquilo que gostamos de fazer, nunca desistir, porque se gostamos, vamos fazê-lo com alma e isso é o que nos faz crescer. 

Como futuro licenciado, vês um futuro multifacetado em ti? O que te vês a desempenhar num futuro próximo?
  Tenciono fazer o mestrado numa área mais especializada e conseguir focar-me naquilo que quero fazer na vida: Grafismo, Editoriais, Packaging, Fotografia, Tipografias…

Onde podemos encontrar os teus projetos?
  Neste momento estou a criar um site pessoal para conseguir expôr melhor aquilo que faço, com mais profissionalismo. Contudo, tenho algumas redes sociais que são o grande foco para as pessoas poderem ver aquilo que faço.

Tens medo de falhar?
  Tenho! Bastante aliás! Considero-me uma pessoa perfeccionista e preocupada com tudo o que pretendo alcançar. Exijo bastante de mim em tudo o que me envolvo e tento sempre orgulhar-me daquilo faço, contudo torna-se sempre complicado, porque quando criamos expectativas em nós próprios, apesar de achar que ter ambições é sempre bom, as coisas nem sempre correm bem. Temos que saber aprender com isso e melhorar…



Podem encontrar os trabalhos de "Zé Vitro" em:
behance.com/designibitre

Liliana Gonçalves (grupo 3)

Ver os de fora, cá dentro


Entrevista realizada a Catarina Elias, estudante de comunicação Social, residente na cidade de Coimbra desde os três anos até aos dias de hoje, onde continua a sua vida académica na Escola Superior de Educação de Coimbra.

1-      Como residente em Coimbra há vários anos, sempre sonhaste/tiveste como objetivo estudar na tua cidade?
Nasci em Coimbra e, embora não tenha vivido cá até aos três anos, frequentei o Infantário, o Ensino Primário e o Secundário cá. Quando pensava em entrar na faculdade, nunca considerei a hipótese de sair de Coimbra. No entanto, quando acabei o 12ºano fiz uma pesquisa acerca dos cursos nas áreas que me cativavam e alguns deles seriam em faculdades de Lisboa. Mesmo assim, um dos cursos que mais me interessavam existia aqui na ESEC e, por questões de facilitismo e comodidade, decidi permanecer cá.
                                                                                                                                       


              Imagem 1 – Catarina Elias no cortejo da Queima das Fitas 2015

2-      Comunicação Social sempre foi a tua escolha ou foi a escolha de recurso antes da candidatura?
Eu sempre gostei de várias coisas, tanto relacionadas com Ciências como com Letras. Apesar de ter seguido o curso de Ciências e Tecnologias no secundário, sempre soube que não queria seguir nada relacionado com Ciências. Achei que me identificava mais com as letras, pelo meu gosto pela escrita. Por isso, as minhas opções passavam pelo Jornalismo, pela Psicologia… A ideia de Psicologia foi rapidamente descartada, virei-me para o Jornalismo. Para além da escrita, a rádio também me interessava. Comparei o curso de Jornalismo na Universidade de Coimbra com o de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Coimbra e depois de conhecer melhor as unidades curriculares de cada um dos cursos, optei pelo que me pareceu ser a melhor escolha: Comunicação Social. Hoje sei que fiz a melhor escolha e percebi que também ganhei o ‘gosto’ pela área da produção e edição de conteúdos, que era algo que, inicialmente, não tinha em mente.

Imagem 2 – Fotos de Curso (Comunicação Social).


3-      O que é que uma pessoa que sempre viveu na cidade sente ao chegar a esta fase da sua vida, mantendo-se cá?
Agora é difícil falar sobre Coimbra sem soar, por uma vez ou outra, clichê. Há tanto para dizer e as ‘frases feitas’ dizem quase tudo. Mas vou tentar.   
No início do meu primeiro ano não senti grande entusiasmo, só uma certa ansiedade porque ía começar um novo ano rodeada de pessoas que não conhecia. Para além disso, não sabia o que esperar nem como me iria adaptar ou integrar. Mas, com o tempo, senti que fazia parte de uma família, a família dos estudantes. A família de Coimbra. Finalmente percebi que existia uma família diferente por detrás daquela que sempre tinha sido a minha cidade. E o melhor? Eu fazia parte dela. A partir daí, comecei a olhar para Coimbra de outra forma. Não mudei de cidade, mas mudou aquilo que eu via nela. Era como se, a partir daquele momento, ela me pertencesse um bocadinho mais e eu a conhecesse um bocadinho melhor – de uma maneira que nunca tinha conhecido. Dei por mim num mundo completamente diferente, que eu queria agarrar e aproveitar ao máximo. Conheci a magia de Coimbra de que tanta gente falava. Conheci pessoas de todos os pontos do país. Chegava a casa com dezenas de sotaques diferentes na cabeça. Comecei a sentir saudades dos tempos que passavam e, sempre que me deslocava para fora da zona de Coimbra, o regresso era cada vez mais desejado. Como é que, depois de 17 anos aqui, mais três anos me começaram a parecer demasiado pouco?
Quando cheguei a esta fase da minha vida, mantendo-me cá, pude viver a euforia daqueles que seriam ‘os melhores anos da minha vida’, como todos os estudantes de Coimbra, mas sempre com o conforto de minha casa. Pensava que, por continuar em Coimbra durante mais uns anos, não iria sentir nenhuma mudança. Mas a verdade é que Coimbra nunca mais foi a mesma e eu estava longe de imaginar tudo aquilo que viria a encontrar.    


4-      Quais eram as tuas expectativas de ser estudante no ensino superior, em Coimbra?
Sinceramente, não tinha grandes expectativas relativamente ao ensino superior. Nunca me preocupei muito com isso e acho que a ideia de seguir os estudos para a faculdade já nos é tão ‘imposta’ que não era algo que me surpreendesse de alguma forma. Eu sabia que depois do secundário, o caminho seria o ensino superior e pronto. Quando recebi o resultado da candidatura, o nervosismo sobrepôs-se ao entusiasmo. Não tinha criado expectativas, tinha apenas curiosidade. Ouvia dizer que ‘amigos da faculdade são amigos para a vida’ e que ‘Coimbra é uma lição de sonho e tradição’. Assisti a alguns cortejos da Queima das Fitas e não percebia o que motivava nos estudantes tanto orgulho e tanta nostalgia pela tradição. Mas lá está… esta vida académica ainda me era um cenário um pouco distante.


5-      Foram ao encontro disso?
Sem dúvida que superaram. Se antes não sabia para o que ía, hoje espero pelo que aí vem. Se antes não sabia os amigos que ía encontrar, hoje não imagino sequer como é que seria se não tivesse escolhido o curso que escolhi. Vivi e senti, na minha própria pele, a lição de sonho e tradição enquanto envergava capa e batina pela calçada. E hoje digo, com toda a certeza, que não há expectativa alguma que chegue a Coimbra. Nem palavras que a expressem.


6-      Gostavas de ter ido para outra cidade? Prosseguindo lá os teus estudos?
Pelo espírito académico, não. Não há outro como o de Coimbra. Talvez no futuro vá para outra cidade, mas a Licenciatura tinha mesmo de ser aqui. Não há acordes como os que se ouvem por aqui, pelas ruas místicas que veem passar o preto das capas a arrastar. Se fosse hoje, voltaria a escolher ficar por cá.


7-      Recomendarias o curso que frequentas?
Em termos de saídas profissionais, penso que o curso é muito bom e o facto de nos possibilitar a realização de estágio curricular no último ano da licenciatura é uma vantagem em relação a outros cursos, como, por exemplo, o de Jornalismo da UC. Outro ponto a favor é a possibilidade de seguir dois ramos na área da Comunicação Social, o de Jornalismo e Informação e o de Produção de Conteúdos para os Novos Media. Para quem tem interesse nestas áreas, sim, recomendaria.


8-      Notas alguma diferença na tua cidade, Coimbra, desde que vieste para cá até aos dias de hoje?
Sinceramente, não me vem à cabeça nada que tenha mudado drasticamente ao longo destes anos. É evidente que a cidade evoluiu e um dos momentos mais importantes na sua história foi o reconhecimento, pela UNESCO, da Universidade de Coimbra – Alta e Sofia, como Património Mundial.


9-      Quais são as tuas expectativas de trabalho? Pensas continuar a estudar após a licenciatura?   
Tento não criar grandes expectativas relativamente ao trabalho, porque esta não é uma área fácil. Por enquanto, estou focada em aproveitar os próximos meses em estágio e, a partir daí, pensarei no que fazer. Gostava de prosseguir os estudos e inscrever-me num mestrado, mas ainda não está nada definido.


10-   Ambicionas trabalhar em Portugal ou no estrangeiro?
Obviamente que gostava de trabalhar em Portugal, mas confesso que fazê-lo no estrangeiro também não é uma ideia que me desagrade. De certeza que seria uma ótima experiência!


11-   Achas que o jornalismo no futuro irá continuar a ser uma profissão rentável?

Eu acho que o jornalismo não pode deixar de existir e, enquanto existir, será uma profissão frágil, mas essencial. Talvez devido a uma crescente facilidade em aceder à informação, o profissional do jornalismo seja menos valorizado e, nesse sentido, o seu trabalho pode tornar-se menos rentável. Ainda assim, olho para o jornalismo como a força que mantém o país ‘de pé’ e os valores indispensáveis a ele associados não se encontram facilmente noutras atividades profissionais. Fala-se muito no “Jornalismo do Futuro” na era da internet, do mundo digital. Hoje, as redações fazem o esforço de adotar estratégias online que mantêm a sua edição em papel rentável, como é o exemplo do Diário de Coimbra. Eu acho que o jornalismo ‘puro e duro’ terá sempre de existir, assim como o trabalho de investigação que ele exige. Há certas abordagens que não se conseguem se não for feito um trabalho aprofundado, um trabalho em campo. Tarefas que cabem aos jornalistas, profissionais qualificados para as concretizar. O trabalho do jornalista pode ser sobrevalorizado, mas em tempos de crise, quer sociais, políticas ou até económicas, constitui o grande ponto de equilíbrio. Por alguma razão, o jornalismo procura afirmar-se como o “Quarto-Poder”. 

Miguel Azinheira (grupo 3)