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domingo, 8 de abril de 2012

Venha "desfazer o folar"!


Na segunda-feira de páscoa é dia de “desfazer o folar” em Freixo de Espada à Cinta. Uma tradição muito antiga que marca também o dia do feriado municipal.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas as tradições permanecem de pé, embora um pouco mais adulteradas.
Em tempos de outrora, as gentes levavam o farnel para o campo e degustavam-no ao som dos realejos e das concertinas. Hoje em dia é a música pimba que impera, e à sombra das grandes árvores da praia fluvial da congida, junto ao rio Douro, come-se a merenda onde o folar (que nesta região é feito com enchidos como a chouriça, o salpicão e presunto) é rei e senhor, acompanhado das azeitonas do queijo e do vinho.
Mais que um simples dia de descanso, o “desfazer do folar” serve essencialmente para se confraternizar com a família e amigos que não se viam desde o natal ,e que nesta época se reúnem à mesa.
Entre a comida e a bebida cruzam-se conversas, relembram-se velhos tempos e perspectiva-se um futuro próximo.
Depois partem, abastecidos com os diversos produtos da região, levando com eles o desejo de voltar.

Fait divers por Tiago Rentes

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Entre o céu e o inferno fica o purgatório

Consideradas património artístico e religioso, as alminhas encontram-se espalhadas maioritariamente pela região norte de Portugal, foram edificadas em encruzilhadas de caminhos rurais, nos montes, junto às estradas municipais e até inseridas nas rochas.

Segundo António Matias Coelho, professor de história e investigador de manifestações de cultura religiosa popular,"as alminhas são uma criação genuinemente portuguesa e não há sinais de haver este tipo de representação das almas do Purgatório, pedindo para os vivos se lembrarem delas para poderem purificar e "subir" até ao Céu, em mais lado nenhum do mundo a não ser em Portugal".

No concelho de Freixo de Espada à Cinta existem alguns exemplares destes marcos de culto aos mortos.
Alminhas junto à estrada do candedo - Ligares (FEC)
Exterior das alminhas
Interior das alminhas
Pormenor do cristo cruxificado e as almas no purgatório

Estes pequenos altares a que se dá o nome de alminhas geralmente têm representadas, a figura de Cristo, da Virgem Maria ou do Espírito Santo bem como as almas no purgatório.
Alminhas no cimo da serra de Poiares (FEC)
                                       
Alminhas junto à estrada de Poiares - (FEC)
Interior das alminhas
Nas alminhas, as pessoas representam as almas dos defuntos no purgatório, suplicando aos transeuntes que por elas passam rezas e esmolas para que se purifiquem e consigam alcançar o céu.


Aliminhas junto à estrada de Freixo de Espada à Cinta

Quadras que apelam a orações pelas almas





Pormenor do depósito de esmolas
Nª.Sra.dos Montes Ermos representada nas alminhas de Freixo
Nas alminhas é frequente encontrar-se velas acesas, deixadas pelas pessoas que passam no local, ou mesmo flores que foram oferecidas.

Alminhas no caminho largo - Freixo de Espada à Cinta
Pormenor das velas nas alminhas


Estes templos pedem pelas almas de todos os defuntos, mas podem estar associadas a situações pessoais, como por exemplo mortes trágicas, que impressionaram a comunidade local.

(todas as fotos são da minha autoria)

Tema: Religião
Foto reportagem por Tiago Rentes. R2

sábado, 19 de novembro de 2011

Arte em estado puro


Foto acessível em: http://www.guiadacidade.pt/pt/poi-gravuras-rupestres-de-mazouco-15060

Arte rupestre, foi o termo escolhido para designar as antigas representações artísticas da época do paleolítico superior. Este tipo de arte pode estar representado nas paredes de cavernas ou pequenos abrigos, e ainda em terrenos rochosos e ao ar livre.


Em Portugal, esta arte marca presença em centenas de localidades.
A escassos quilómetros de Freixo de Espada à Cinta fica situada a aldeia de Mazouco, uma terra pequena com cerca de 200 habitantes, uma terra indissociável da arte rupestre, pela posse de uma gravura do paleolítico superior, que representa um cavalo de przewalski.

O cavalo de Mazouco, como é designado, já era conhecido há muitos anos pela população local, mas só em 1981 foi dado a conhecer ao mundo, ganhando o título de um dos mais importantes vestígios do paleolítico em Portugal e o primeiro exemplo de arte rupestre ao ar livre a ser identificado na Europa.

A gravura está inserida num painel de xisto, localizado na foz de uma ribeira que a poucos metros desagua no rio Douro, um local mágico onde os sons da natureza são reis.

A figura encontra-se parcialmente protegida por outras rochas, o que faz com que esta não esteja em contacto directo com as intempéries, e por isso, permanece num bom estado de conservação.

O cavalo de Mazouco é assim uma das mais belas imagens de arte rupestre em todo o mundo, e uma das maravilhas de um conselho com história.
Por Tiago Rentes - R.2

domingo, 13 de novembro de 2011

O paraíso de Trás-os-Montes

Sendo eu um transmontano de raiz, e amante da minha terra, decidi dar a conhecer o paraíso de Trás-os-Montes. Freixo deEspada à Cinta é uma pequena vila situada no extremo sul do distrito de Bragança, bem no interior transmontano.
Entre a beleza e a imponência dos montes, é em pleno parque natural do douro internacional que se encontra uma localidade cheia de história, ou não falasse eu, naquela que é considerada a vila mais manuelina de Portugal.


Visite, descubra e apaixone-se...
É pelo manuelino, ou melhor, pelos monumentos do estilo arquitectónico manuelino que aconselho a começar a visita.
Entre as ruas que me conduzem até à zona histórica vislumbra-se arte no seu estado mais puro. Janelas trabalhadas, beirais dos telhados e até as portas de algumas casas têm o seu apontamento manuelino.
Assim que chego à zona histórica, salta à vista uma praça onde a Igreja Matriz e a Torre do Galo ou do Relógio (única que resistiu à queda do castelo outrora ali existente), se distinguem de tudo o resto pela sua arquitectura e altivez. O interior da Igreja faz lembrar o Mosteiro dos Jerónimos mas em ponto pequeno. O já velhinho mas famoso freixo que deu nome a esta localidade também está lá e até tem uma espada à cinta. Merece ser visto.
Decidi subir uma vez mais ao cabeçinho, o monte onde está situado o Santuário de Nª. Sra. dos Montes Ermos (considerada a padroeira dos freixenistas). Ao longo do caminho, uma ponte românica, uma fonte, e a paisagem envolvente, roubaram alguns minutos da minha atenção.
Deslumbrante! É a palavra que me ocorre para descrever aquilo que a minha vista alcança, lá, bem no cimo do monte. Imagem digna de ser registada na máquina fotográfica e acima de tudo na nossa memória. Avista-se a vila, o rio Douro, que por estas paragens serve de fronteira entre Portugal e Espanha, o miradouro Penedo Durão e até terras de “nuestros hermanos”. As paisagens que os miradouros nos oferecem são de tal forma robustas que mais parecem telas pintadas por um grande pintor.
Um passeio de barco pelo douro é uma das muitas atracções que Freixo de Espada à Cintatem para nos brindar. Rio acima, num ambiente onde reina o silêncio, a calma e a paz, aprecia-se a fauna e a flora, e com um pouco de sorte, ainda observamos a cegonha negra no seu ninho. Nas encostas do douro, a paisagem verde, as cascatas, os pomares, e até um pinheiro solitário, tudo concorre para tornar este espaço num autêntico paraíso.

Há ainda o artesanato local, que consiste em trabalhar a seda, gesto quase único em todo o país. Desde a criação do bicho-da-seda, até à extracção, tratamento e aplicação da mesma, tudo é feito através de processos ancestrais e artesanais. Ricos e admiráveis trabalhos em seda podem ser vistos e até adquiridos na Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada á Cinta (ADEPA).
Caso para dizer que aqui o bicho ainda faz trabalhar o tear.
Comer e dormir…
A gastronomia é um dos pontos fortes da região, ou não fosse esta, uma terra que vive essencialmente da agricultura.
Sopas de espargos, sopas de tomate, enchidos, doces feitos à base de amêndoa, como os CD’S ou os beijinhos de preta, e o bom vinho da região, o Montes Ermos, ganhador de prémios a nível nacional e internacional, fazem parte da ementa cá da terra.
Para terminar o dia em beleza na localidade do grande poeta Guerra Junqueiro, temos à nossa disposição as moradias da congida (junto ao rio douro) ou as típicas habitações de turismo rural, nascidas da reconstrução de casas devolutas, que hoje se enquadram muito bem na paisagem que as envolve.

Se isto não é o paraíso, o que é?

Artigo de opinião por: Tiago Rentes.R2


domingo, 30 de outubro de 2011

Reportagem: O bicho ainda faz trabalhar o tear...

Oriundo do norte da China, o bicho-da-seda encontra-se hoje espalhado por todo o mundo.
Em Portugal é em Freixo de Espada à Cinta, uma pequena vila situada no nordeste transmontano, que se encontra sedeada a Associação para o Estudo, Defesa e Promoção do Artesanato de Freixo de Espada á Cinta (ADEPA), a única do país a fazer a criação do bicho-da-seda e todo o processo a ele inerente, desde a extracção do fio até à tecelagem de várias peças. Tudo isto, através de processos ancestrais e artesanais.
Por Tiago Rentes
O inicio do processo de criação do bicho-da-seda é o seu nascimento.

Durante um ano, a associação conserva os ovos que contêm os bichos-da-seda, depositados em caixas de papelão (pela borboleta do ciclo anterior), em salas muito frias e escuras (adegas).

A criação do bicho-da-seda tem inicio numa altura própria do ano, “Abril, Maio e Junho são os meses favoráveis à criação, porque é quando começa a haver folha de amoreira, o único alimento dos bichos. Quando vemos as folhas a crescer coloca-mos os ovos à temperatura ambiente para eclodirem”, explica Susana Martins, formadora e membro da administração da ADEPA.
Quando os bichos-da-seda nascem são muito pequeninos, não medem mais de um milímetro e podem-se comparar à ponta de um alfinete.
Durante 45 dias são alimentados em grandes tabuleiros de madeira onde se colocam as folhas de amoreira que eles comem diariamente.
"Quando os bichos começam a ficar maiores os tabuleiros são ampliados para não existir uma super população no mesmo espaço.”
Deixar os tabuleiros livres de excrementos e folhas secas, é um hábito diário das cerca de seis funcionárias da ADEPA que asseguram assim um crescimento saudável do bicho.
Ao fim de 45 dias, os grandes devoradores de folhas atingem a fase adulta e deixam de se alimentar. Começam a estar preparados para construírem os casulos. Mais uma vez, as empregadas realizam um trabalho muito rigoroso: todos os bichos do mesmo tamanho são seleccionados e transferidos para um tabuleiro que está armado em toda a volta com arçãs ou rosmaninho que vão funcionar como suporte para eles começarem a construit a sua obra de arte.
Antes de se enclausurar na sua própria baba, a lagarta esvazia as entranhas de líquidos e impurezas e começa a segregar uma substância filamentosa e brilhante (baba) dando inicio à construção do casulo.Ao finalizar esse trabalho que demora entre cinco a seis dias, a larva fica encerrada, durante quinze dias, dentro do casulo que tem paredes isotérmicas e é bastante resistente.

No interior do casulo acontece a mais bela das metamorfoses, o que antes era larva é agora borboleta.
Após nascerem, as borboletas são retiradas para uma caixa onde vão acasalar e depositar os ovos, “depois do acasalamento, uma só borboleta pode depositar entre 400 a 500 ovos por isso só deixamos nascer cerca de 10 borboletas. Os restantes casulos são colocados ao sol para o bicho morrer lá dentro e não furar o casulo porque se tal acontecer já não dá para produzir seda de primeira qualidade”, conta Susana Martins.
Os ovos depositados nas caixas de papelão são transportados para as salas frias e escuras e aí permanecem até ao ano seguinte.
Com o ciclo da criação do bicho-da-seda concluído, extrair, tratar e trabalhar a seda são os passos seguintes.
Existem dois tipos de seda, a seda de primeira qualidade que é proveniente dos casulos não furados (nos quais os bichos morrem antes de se transformarem em borboletas) e a seda de segunda qualidade que é proveniente dos casulos furados pela borboleta.
Para se produzir seda de boa qualidade a borboleta não pode sair do casulo, excepto claro está, quando se pretende obter ovos para a continuação do ciclo no ano seguinte. Caso a borboleta saia do casulo a qualidade da seda não vai ser a mesma porque o casulo fica furado, o que vai fazer com que no processo de extracção do fio, este não seja contínuo.
O processo da extracção da seda começa numa máquina manual que se chama sarilho, da qual fazem parte uma caldeira de cobre cheia de água e uma resistência que a faz chegar a uma temperatura de 90 graus. Os casulos são mergulhados na caldeira e com a ajuda de um ramo de carqueja consegue-se extrair de aproximadamente vinte casulos de cada vez, um fio muito fino de seda.
Os fios são unidos formando um único. “Como os vinte casulos não acabam todos ao mesmo tempo, volta-se a mergulhar a carqueja na água e apanham-se mais uns poucos, junta-se por baixo e cola ao que esta a correr, desta forma vai dando sempre continuidade ao fio”, explica Susana.
“Este processo demora aproximadamente três horas é muito lento e durante esse período se tudo correr bem o fio pode não partir”, completa.
O processo seguinte é dobar o fio numa dobadoura e enrola-lo em pequenos cartões.

Após as duas primeiras operações, o fio passa para o rodeleiro e juntamente com o cubilho obtém-se um fio mais grosso.
De seguida, a seda vai ao fuso a torcer, passando continuamente para a aspa, onde é feita a meada que vai a cozer em água e sabão natural, processo que se designa branquear ou degomar a seda.
É neste ponto que ela vai ganhar a sua cor natural, a cor pérola.

Depois de se tratar a seda de primeira qualidade passa-se à de segunda.
No processo de tratamento da seda de segunda qualidade (também designada de maranhos), os casulos (furados pela borboleta), são cozidos na caldeira durante duas horas com água a ferver. Depois, unem-se e forma-se uma espécie de manta já com a cor natural da seda. A manta é escorrida, posta a secar e depois carmeada (ganha o aspecto de uma bola de algodão) e fiada como a lã de ovelha.
O fio constrói-se pouco a pouco com a ajuda do fuso e a roca.
“Todo o fio que nos produzimos é para tecer em teares manuais”. Da seda de primeira qualidade executam-se teias e tramas, a seda de segunda qualidade, cuja base é o algodão, só é utilizada para executar os relevos das peças”.
Todos os instrumentos utilizados no fabrico da seda são rudimentares, artesanais e todos em madeira à excepção da caldeira.

A seda continua a ser um produto que não está acessível a todas as bolsas…
“As peças são um pouco caras e não têm muita saída”, refere Susana que explicou também como é que associação tem contornado a situação, “para que tenha-mos mais rentabilidade, além de trabalhos em seda, fazemos peças em linho e até tapetes de algodão, também investimos em pequenas lembranças como flores, ganchos para o cabelo, colares, aplicações em quadros, tudo feito com os casulos”remata com um tom entusiasta.
Com o intuito de promover o artesanato local, a ADEPA percorre todos os anos algumas feiras de artesanato e exposições, não só em Portugal mas também no estrangeiro, executando demonstrações de toda a riqueza do processo de trabalhar a seda.
Nota:
Imagem nº1 acessível em : http://www.braganca.cienciaviva.pt/seda/;
Imagens nº 2/3/4/5/10/12/13/14/15/16/17/18, da minha autoria;