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terça-feira, 4 de novembro de 2014

"Neste momento, ser professor tornou-se um negócio"

A professora na inauguração de um centro comercial
Filipa Gonçalves, licenciada em Ensino Básico variante Português e Inglês pela Escola Superior de Educação de Castelo Branco, é uma apaixonada pela sua profissão, apesar do desânimo sentido face às suas atuais condições profissionais. A sua primeira experiência profissional foi em Itália, onde lecionou Inglês e Português durante seis meses a alunos do primeiro ciclo, proporcionada pelo programa ‘’Commenius Leonardo Da Vinci’’. A partir daí, trabalha há cinco anos na Câmara Municipal de Penafiel, nas Atividades Extracurriculares (AECS), como professora de Inglês. O seu tempo livre é, essencialmente, dedicado à natação e à fotografia.


   Qual foi o momento em que surgiu a vontade de ser professora ou em que decidiu que            esta seria a sua profissão?
Quando concorri para o ensino superior, a minha primeira opção foi o curso de Assistente Social mas como não consegui entrar, fui colocada em Castelo Branco no curso de Português e Inglês, e ainda bem (risos). Esta minha escolha surgiu quando uma professora me disse que tinha perfil para este curso. Na altura não tínhamos psicóloga de aconselhamento vocacional, e como andava um pouco perdida decidi seguir o conselho da minha professora.

Quantos anos tem de serviço? Que balanço faz deste seu percurso profissional?
Tenho cinco anos de serviço. Cada vez mais, os professores trabalham sem que as horas lecionadas sejam contadas para o tempo de serviço, o que é lamentável. Isto acontece frequentemente em jardins de infância e em colégios privados o que complica imenso a colocação de professores porque o critério fundamental dos concursos de professores é o tempo de serviço. Apesar disto, considero o meu percurso profissional positivo, uma vez que, conheço muita gente do meu curso que nunca foi colocada ou que que nunca trabalhou como docente.

Como é que se descreve enquanto professora? Quais são os seus pontos fortes, ou, pelo contrário, quais são os aspetos que sente mais dificuldade no seu exercício profissional?
No mínimo tenho que ser interessada e estar motivada no que estou a fazer. Acho que o fundamental é ter uma boa ligação com a turma, depois as coisas acontecem naturalmente e a comunicação entre professora e aluno consegue realmente resultar. Os pontos fracos verificam-se, essencialmente, quando desanimamos por causa das poucas horas que nos são atribuídas. Por vezes sentimo-nos estafados e descompensados porque não é fácil ser professor. Ser professor é ser ator, cantor, pintor, todos os dias dentro da sala de aula.


Podendo dar aulas ao primeiro ciclo, pré-primária e segundo ciclo, onde sente mais dificuldade? Porquê?
É sem dúvida o primeiro ciclo porque é a faixa etária em que menos me identifico. Acho que um professor primário deve investir muito em trabalhos de expressão plástica, coisa que não gosto, prefiro coisas mais objetivas e menos infantis.

Estando atualmente a dar aulas nas AECS das escolas primárias, na sua opinião, qual é a razão do investimento da língua inglesa em idade pré-escolar e ensino primário?
Eu acho que este investimento já devia ter sido feito, existem vários países que já o fazem e Portugal apenas há seis anos é que se preocupou de verdade com isso, pelo menos no ensino público. Cada vez mais estamos ligados às tecnologias, e essa mesma tecnologia exige muito domínio de inglês e, se não o possuirmos não vamos poder responder eficazmente à realidade. E o mais importante ainda é que o inglês tornou-se a língua comercial do momento.

Que condições lhe foram oferecidas no concurso das AECS da Câmara Municipal de Penafiel? Qual é a sua opinião sobre o assunto?
Foram-me oferecidas diferentes horas desde que trabalho nas AECS : comecei com treze horas semanais, no segundo ano tive direito a quinze horas, depois ofereceram-me vinte e uma horas e este ano trabalho oito horas por semana. Penso que cada vez mais é difícil ao Estado pagar aos professores das AECS e vejo em “vias de extinção” esta profissão.

Concorreu ao Concurso Nacional de Professores? Foi colocada?
Não concorri porque achei que não seria colocada. Neste momento, os professores já não se preocupam tanto com o Concurso Nacional graças às listas indetermináveis de professores. Eu estou a números muitos distantes de ser colocada e cada vez mais perco a esperança de ter uma única escola para trabalhar e um horário completo. Sinceramente, acho uma perda de tempo concorrer ao Concurso Nacional, já para não falar dos exames feitos aos professores, que são cobrados. Neste momento, ser professor tornou-se um negócio.

O que acha que deve ser feito para que o sector da educação evolua?
Eu acho que o essencial é fazer turmas mais pequenas e arranjar meios económicos para conseguir ter um professor para cada turma. Para além disso, devemo-nos preocupar em tornar o ensino tecnológico, mas sem exageros. A grande onda tecnológica que invadiu as escolas acabou por atrapalhar a evolução do conhecimento dos alunos e distorceu a visão correta do passado. Eu orgulho-me de dar aulas num agrupamento que começou a fazer jogos tradicionais, e isto sim é uma ótima aposta para os alunos em que eles podem ter o mesmo gozo ou até mais do que num jogo de computador.

Já pensou em mudar de profissão? Se o tivesse de fazer, qual seria a sua escolha?
Já pensei várias vezes e o motivo mais óbvio é a situação de fragilidade dos professores nos dias de hoje mas quero-me manter no ensino enquanto conseguir. Se não tiver oportunidade de exercer a minha profissão, já pensei em investir na Fotografia que é uma área de que gosto muito mas é igualmente frágil. Sinceramente, custa-me muito pensar nisso porque todos os sectores profissionais estão instáveis. Por isso, pensar no que vou ser se ficar sem o emprego de professora é muito difícil porque, primeiro, tenho que conseguir emprego e um rendimento, e depois ser autossuficiente e manter esse mesmo emprego.

O que traz e sempre trará de bom desta profissão?
Esta profissão tem, sem dúvida, um retorno muito positivo porque temos várias experiências com os nossos alunos. O mais bonito de ver, todos os dias, são os sorrisos dos alunos que nos recebem de braços abertos, e isso sim ajuda-nos a percorrer este difícil caminho. Ser professora é desafiante porque conseguimos retirar da turma novos métodos de trabalho e novos conhecimentos, quer pela evolução da educação, quer pelos próprios alunos que são os portadores de atualidade e conhecimento. Portanto, é muito boa a troca entre professor e aluno porque, normalmente, um traz conhecimento ao outro. O professor só existe quando existe aluno e o aluno só existe quando existe professor.

Por: Maria João Gonçalves

"Arte de cuidar"

Vera Monteiro
Vera Monteiro, licenciada em Enfermagem pela Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro,  fala da sua profissão e do ataque a que a sua classe é alvo nos dias de hoje. Aborda a emigração e a dificuldade no início da sua carreira.

As pessoas tem uma ideia errada sobre o que é ser enfermeiro?
Sim sem dúvida! Acham que somos os empregados dos médicos, sim é verdade que são eles que passam as prescrisões médicas e tudo que envolva medicação, mas somos nós enfermeiros que ajudamos as pessoas dependentes, satisfazemos as  suas necessidades humanas, somos nós que os ajudamos a deslocar, comer, comunicar. São os enfermeiros que passam a maioria do tempo com os doentes, sou eu como enfermeira que estou mais atenta às evoluções ou retrocessos do doente, por exemplo sou eu que vejo a temperatura e a tensão do doente e posteriormente informo  o médico para caso seja necessário prescrever algum medicamento.

Acredita que o mercado de trabalho na sua área está sobrecarregado?
Não. Eu não acredito que esteja sobrecarregado, não há é colocações o que leva a que muitos de nós não possam exercer.

Acha que o seu trabalho é bem remunerado?
Não, de maneira alguma! Além do esforço e do número de horas a responsabilidade e o rigor que nos é exigido não corresponde ao salário que nos é atribuído. Estamos a falar de um trabalho que envolve a saúde, melhor a vida da nossa população e todo o cuidado é pouco.

Actualmente vemos muitas contestações por vossa parte, qual é a sua posição em relação a esses acontecimentos?
As coisas não estão facéis para o nosso lado, há mais sobrecarga de trabalho e não somos remunerados por isso. Fazemos noites, horas extras e o que nos pagam não é equivalente a esse esforço, como já referi. Temos deveres, mas também temos direitos e famílias para sustentar.

Vemos diariamente enfermeiros a sair do país, pois o nosso Sistema Nacional de Saúde é incapaz de resolver as suas necessidades. Na pele de um enfermeiro, que medidas acha que deveriam ser tomadas para impedir essas saídas?
Criar mais emprego, com mais colocações, quer em hospitais, centros de saúde, hospitais privados e clinicas, só assim se conseguirá barrar as emigrações. Claro que há quem saia do país por decisão própria, mas a maioria é por não conseguir ocupação laboral por cá.

Em relação à emigração, sabe-se que há países que são a favor da morte assistida ao contrário de Portugal, em que medida isso pode influenciar um possivél retorno desses emigrados?
   O facto de Portugal não aceitar a morte assistida, como a eutanásia, não é impedimento para um possível retorno. Para exercer no nosso país apenas necessitamos de ser licenciados em enfermagem, estar inscrito na Ordem dos Enfermeiros e com as quotas em dia, essas quantias são definidas pela própria Ordem.

Concretamente no seu caso, foi fácil iniciar a sua carreira?
 Estive meio ano desempregada, enviei currículos para todo o lado, full-time, part-time qualquer coisa, queria era exercer. Concorri para duas vagas que havia num hospital na ilha do Faial (Arquipélago dos Açores) no qual fiquei em quarto lugar, não fiquei colocada então regressei Portugal Continental, estava disposta a ir para Espanha porque sabia que tinha uma vaga lá. No dia antes de tirar a passagem para Espanha sou chamada para uma outra vaga no mesmo hospital nos Açores, imediatamente cancelei a entrevista em Espanha e fui para o Faial onde iniciei os meus trabalhos a Janeiro de 2009.
Posteriormente estive no Hospital de Amarante e actualmente estou no Centro Hospitalar Tamêga e Sousa, também conhecido como Hospital Padre Américo em Penafiel.

Conte-nos um pouco o dia-a-dia de um enfermeiro.
Bem, independente do turno, chego ao hospital visto a farda e vou ver o meu plano de trabalho atribuído pela minha chefe, o meu colega cede-me o turno, e dá-me todas as informações sobre os pacientes que vou ter de assistir.
Começo por fazer uma ronda a todos eles e normalmente dou entrada a novos doentes. Durante o dia vou dar-lhes as refeições, medicações necessárias, posicionar doentes que estejam impossibilitados de o fazer sem qualquer ajuda, controlo o oxigénio, o soro, meço tensões. Além disso respondo a todas as necessidades e dúvidas dos familiares dos nossos pacientes. Por fim faço um relatório dos doentes para depois passar o turno a um novo colega. Primeiramente os meus pacientes, tudo para eles, como alguma coisa quando tenho tempo, não há intervalos é sempre em alerta para que numa urgência consiga logo assisti-los.

Resuma numa frase o que é ser Enfermeiro.
Desde que entrei na faculdade que me disseram que enfermagem é a arte de cuidar, e acho que não há frase que melhor defina o nosso trabalho que essa, a enfermagem é a arte de cuidar dos nos cidadãos.

Por: Silvana Queirós

"Nesse instante tudo na minha vida mudou"

Fábio a jogar no SC Rio de Moinhos
Fábio Ferreira, uma criança de 13 anos, descreve como é ter a doença de crohn, há mais de um ano, e a melhor maneira de viver com ela. Explica como apareceu esta doença na sua vida, a reação imediata aos tratamentos e a tudo o que a partir daquele dia iria mudar na sua vida para sempre.

O que é a doença de crohn?
A doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal. Os sintomas e os tratamentos dependem de cada pessoa, mas segundo o que sei o mais comum é haver dor abdominal, diarreia, perda de peso e febre. Atualmente não há cura para esta doença, no entanto os tratamentos permitem alívio dos sintomas e melhoria de qualidade de vida. É uma doença muito complicada para se detetar e que afeta muito o foro psicológico.

Quais foram os primeiros sintomas da doença de crohn?
Comecei por sentir muita diarreia e uma forte dor de barriga constante. Inicialmente pensei que seria uma gastroenterite, alias, este foi o primeiro diagnóstico médico que tive. Desde a primeira dor até ao diagnóstico final passaram seis meses, nesse tempo as dores eram frequentes e a intensidade era cada vez maior. Acabei por ser internado, fiz uma carga de exames entre eles a endoscopia e a colonoscopia, exames muito dolorosos e que me custaram muito. Estive internado durante uma semana e assim diagnosticaram-me a doença de crohn. Nesse instante tudo na minha vida mudou.

Dada a descoberta tardia da sua doença, houve algum tratamento imediato?
Sim, tive de fazer um tratamento durante dois meses que consistia em ingerir 8 a 12 iogurtes líquidos fortimel diários. Durante esse tempo não pude comer qualquer tipo de alimento, só gomas para estimular o maxilar. Provavelmente foi o pior da minha doença, tornava-se complicado estar perto das pessoas e vê-las comer e eu sem puder provar. Em certas alturas até queria comer coisas que nem apreciava, mas a vontade de comer era tanta, que tudo parecia mais apetecível que nunca, ainda hoje tenho medo de repetir esse tratamento.

Qual foi a sua reação ao descobrir que sofria desta doença?
Foi bastante má, ainda hoje tenho consciência que não aceito por completo esta doença. Senti-me revoltado quando fui internado, descobrir a doença fez-me sentir derrotado e saber que tinha de fazer um tratamento tão rigoroso deixou-me revoltado. Nunca fui capaz de perceber como é que com 12 anos teria de aceitar uma doença que teria para toda a minha vida. Não sabia nem como lidar com a doença, nem o que era esta doença, nunca tinha ouvido falar. Hoje, é o dia que tudo é mais complicado, a doença não estabilizou e a minha vida vai oscilando entre dias bons e dias maus, não consigo ter estabilidade e o medo de a doença piorar vai crescendo a cada dia, a cada dor de barriga.

O que mudou na sua vida?
Muita coisa mudou, a começar por mim. Comecei a ter mais responsabilidade, dada a medicação que tomo, tenho de cumprir muitos horários. Passei a ter um maior cuidado com a alimentação feita, deixei de beber qualquer tipo de bebida com gás comecei a reduzir as verduras, os chocolates e os fritos. Passei a ter uma alimentação mais cuidada e saudável. Os médicos nunca me proibiram de comer nada, apenas me disseram o que poderia evitar. Muita coisa que sei, ou é de ver na internet ou então o que ouço as pessoas a dizerem. O meu pensamento diário ao sair de casa era “Será que vai ter casa de banho perto”, era a minha maior preocupação, ainda é.

Tem por hábito pesquisar na internet sobre a sua doença?
Sim, habitualmente para me manter informado sobre tudo da doença, o que pode ajudar e o que devo evitar, essencialmente. Vou sempre muito esperançoso para ver se há algum estudo que perspetive novos tratamentos, novas medicações que me possam ajudar.

Conhece alguém com a mesma doença?
Sim conheço, já chegamos inclusive a falar sobre a doença, senti-me bem por conhecer alguém que de certa forma compreende aquilo o que sinto.

Onde arranja forças para combater esta doença?
Na família, a minha mãe tem sido o meu grande apoio, nunca me deixou sozinho em nada e acompanha-me em todos os exames, em todas as consultas. Se não fosse ela, não sei o que seria de mim, é a minha proteção e sei que com ela por perto nunca nada me faltará.

Sente-se diferente das crianças da sua idade?
Não, sinto-me igual a todas as outras crianças, nunca fui descriminado, nem posto de lado, bem pelo contrário, todos os meus colegas ajudam-me no que podem. Continuei no futebol, desporto que já praticava, e mesmo na equipa todos me ajudaram em tudo, nunca me senti diferente.

Em que sentido os seus amigos lhe dão apoio?
Quando estive internado, um amigo fazia anos e decidiu não fazer a festa de aniversário por eu não estar presente, foi uma prova de amizade. E quando regressei às aulas, depois de estar internado, fizeram uma surpresa e deram-me um cartaz com mensagens de apoio. Aproveitei esse mesmo dia para explicar a todos o que tinha sucedido e dar-lhes a conhecer esta doença que daqui em diante faria parte da minha vida.

Alguma vez pensou o porque de a doença ter aparecido na sua vida?
Senti-me injustiçado, interroguei-me varias vezes de porquê a mim, porquê eu, que mal fiz eu para ter esta doença. Não aceitei e isso deixou-me bastante revoltado. Comecei a ter menos paciência para qualquer pessoa, exalto-me com frequência e por vezes tenho atitudes erradas. Psicologicamente fiquei muito afetado, e comecei a pensar que poderia morrer. Com 12 anos pensar que a vida é tão efémera, deixou-me muito fragilizado. 

Chegou a consultar algum psicólogo?
Comecei, não por vontade própria, mas hoje considero que foi o melhor que fiz, sozinho não iria aguentar esta mudança repentina na minha vida. Além disso sou uma pensa que pensa muito nas coisas, e o sistema nervoso afeta muito a minha doença, mais de que qualquer alimento prejudicial.

Qual o seu maior medo?
O meu maior medo é de não encontrar estabilidade, de não conseguir ter uma vida normal, tenho medo, inclusive, dos medicamentos deixarem de fazer efeito, de piorar. Sou uma pessoa muito negativa e penso muito em tudo isto, o que só prejudica a minha saúde.

Fábio Ferreira

Sente-se com mais coragem, mais força para ultrapassar qualquer obstáculo na sua vida?
É uma pergunta interessante, posso dizer que sinto, já passei por situações muito complicadas e nunca desisti nem irei desistir. Se a vida existe é para ser vivida, se os problemas existem são para ser vencidos.

Qual o melhor conselho que pode dar a quem sofre desta doença?
Não se deixem abalar, o pior da doença é não aceita-la, e tudo na vida tem uma razão de ser, só nos resta ser fortes, mais fortes que a própria doença.

Por: Filipa Ferreira

O escutismo como um modo de vida

Paulo Garcia na atividade 22nd World Scout Jamboree Sweden 2011
Paulo Garcia é chefe da IV Secção, secção que abrange escuteiros com idades compreendidas entre os 18 e os 22 anos,  no Agrupamento 1215 Tavarede, do Concelho da Figueira da Foz.
Em entrevista, o chefe escuteiro fala-nos um pouco sobre o mundo do escutismo e sobre o significado deste grande movimento assim como nos dá a conhecer algumas das suas experiências vividas.

Há quantos anos é que é escuteiro?
Sou desde 2001. Portanto, isto já há 13 anos. Foi desde que o meu filho veio para os Lobitos. Entretanto, fui convidado pelo Agrupamento para fazer parte deste mundo e é desde essa altura que estou cá.

O que é que o levou a querer fazer parte deste grande movimento que é o escutismo?

Inicialmente, quando eu entrei para o escutismo, não fazia a menor ideia do que era este movimento, o maior movimento do mundo, a maior associação do mundo e quando vim para cá, o que me trouxe foi a alegria dos jovens, a alegria das músicas e da forma como eles viviam e partilhavam entre todos.
O que é que o escutismo significa para si?

Ora, o escutismo, para mim, é um modo de vida. Consigo viver este ideal, este conceito de escutismo diariamente. Sinto-me útil, sinto que consigo viver e conviver com os jovens e é essa a base da minha dedicação ao escutismo.

Como chefe de secção e como exemplo para os jovens escuteiros, de que forma é que o escutismo serve como um processo de aprendizagem e como um crescimento individual e coletivo?
Não me considero um chefe, não me considero uma pessoa que manda, uma pessoa que imponha regras. Nisto do escutismo não há, assim, essa fórmula de regras mas sim uma forma de educação, aprendendo fazendo. E talvez pela minha maturidade e pelas minhas experiências de vida, eu consiga dar ao jovem essa experiência e esse exemplo para que eles possam chegar a esse objectivo. Não só estou a ensinar ou a dedicar-me a eles mas também estou a aprender com eles e é essa aprendizagem mútua que nós temos. Eu já não me considero um chefe mas sim mais um elemento no Clã e acho que sou uma mais-valia para o Clã em tentar ajudar e dar outras perspectivas de vida.




Como é que a religião católica pode estar directamente relacionada com o escutismo?
Baden Powell (B.P.) quando fundou o escutismo dizia que qualquer escuteiro deve acreditar, acreditar em algo, acreditar num Deus. Nós temos a igreja católica, temos o CNE (Corpo Nacional de Escutas) mas também temos uma outra associação que é a AEP (Associação dos Escoteiros de Portugal) que reúne várias religiões do mundo e também pode ter católicos.
Nós, como CNE, como escutismo católico português, temos como prioridade ter alguém que nos possa fazer este elo de ligação com a Natureza e com os próprios elementos. O caminheiro é diferente e é nesse sentido que faz a diferença de um católico, de um praticante, de uma pessoa que se assuma perante a sociedade.
Um jovem quando anda nos escuteiros, nomeadamente um caminheiro, acredita e assume que acredita e não tem medo de dizer aos jovens da universidade “Eu acredito!”.

Sendo o escutismo um movimento mundial, que experiências é que já viveu com escuteiros de outras nacionalidades?

Já tive algumas experiências com escuteiros de outras nacionalidades e foi muito gratificante naqueles encontros imediatos. Parece que temos todos a mesma linguagem, parece que acreditamos no mesmo ideal, que vivemos na mesma cidade e, passado pouco tempo, tratamo-nos quase como irmãos porque é uma alegria grande nós adivinharmos que o outro não fala a nossa língua mas que nos entende e nos percebe e depois é a troca de experiências que nós temos uns com uns outros e a alegria de partilharmos até mesmo os hábitos, os costumes, a alimentação e a forma de pensar que são tão diferentes.
Nós já tivemos o prazer de receber suecos na nossa comunidade, no nosso agrupamento, em Tavarede. 64 suecos vieram para Portugal fazer serviço. Lá está, a mesma linguagem que nós temos a nível mundial: servir.
Entretanto, tivemos a oportunidade de participar num Jamboree na Suécia e quando nós chegámos lá com uma enorme alegria, entusiasmo e algumas expectativas criadas e toda aquela movimentação mundial de 40 mil jovens das mesmas idades, encontrei, precisamente, algumas pessoas que tinham estado cá em Tavarede e foi uma alegria fantástica. Nem um nem outro sabíamos que iriamos lá estar mas foi aquele abraço gigante de “Estás aqui? Estou!”.
22nd World Scout Jamboree, um acampamento mundial, realizado em 2011 na Suécia

Embora tenha convivido com outros escuteiros noutras atividades a nível nacional, que vieram ao nosso país, já convivi também com outros países que vieram a atividades a nível regional, até mesmo com Cabo Verde e muitos outros países. Ainda hoje tenho esses contactos, com italianos, com suecos, com dinamarqueses, com ingleses. Tenho esses contactos todos e é muito bom porque há sempre uma partilha, há sempre um convívio que parece que ainda estamos naquela atividade em que participámos. É essa a experiência que tenho com outros países estrangeiros. É essa linguagem do escutismo, de puro ambiente e saudação que temos uns com outros.



Relativamente há pouco tempo, o figueirense João Armando Gonçalves foi eleito Presidente do Comité Mundial do Escutismo. Como é que se sente em relação a este grande motivo de orgulho não só para os figueirenses como também para todos os portugueses?

É um pouco estranho porque eu sou amigo do João Armando já há alguns anos. Partilhámos algumas ideias e já estivemos também no Jamboree Mundial.
Cá na Figueira, convivo muito com ele e com a família, e chegámos a partilhar, precisamente, a sua candidatura.
Ele sempre foi uma pessoa que encarou tudo com muita naturalidade e normalidade. Nunca teve a ostentação do poder mas é uma pessoa que sabe muito, é uma pessoa que vive diariamente o escutismo puro e duro.
Ele já esteve à frente do WOSM (Organização Mundial do Movimento Escotista) e  agora ele tem essas capacidades. Ele é reconhecido a nível mundial como uma pessoa que sabe, que conhece todos os países e sabe como eles funcionam, sabe como é que há-de colocar isto em funcionamento. É uma pessoa que tem todas as capacidades e maturidade escutistas. Não foi uma pessoa que está à frente deste movimento e que deu uma passada maior que a perna. Ele deu passos firmes e sabe o que quer para o escutismo no mundo, atualmente.



Porque é que aconselha o escutismo a pessoas que não fazem parte deste movimento?
O escuteiro é uma pessoa diferente, é uma pessoa que vive diferente, é uma pessoa que tem uma alegria diferente e, por si só, vive de grandes emoções. Para quem quer viver emoções, para quem quer sentir a natureza, para quem quer sentir-se a si, conhecer-se a si e quer dar de si, vem para os escuteiros. Agora… é preciso dar esse primeiro passo: sair da sua comunidade, sair do seu bem-estar, sair de tudo o que este mundo oferece em termos de outras solicitações.
É claro que eu convido toda a gente a ser escuteiro mas também acredito que nem todos têm a coragem de abraçar este mundo de ser escuteiro. Escuteiro é aquela pessoa que se dedica e empenha, que vive os seus problemas em todas as ordens, é aquele que se preocupa com os outros, é aquele que marca a diferença por aquilo que é no mundo, é ser Homem no mundo.
Nós conhecemos tantos escuteiros que deixaram este movimento mas que continuam a ser escuteiros e eles marcam a diferença, seja nesses órgãos em que estejam envolvidos, seja na política ou nas empresas, são diferentes e quando nós notamos essa diferença nas pessoas, valeu bem a pena investir nelas nos escuteiros.
É uma educação não formal, toda a gente sabe: não se aprende na escola, não se aprende em casa, não se aprende em lado nenhum mas só se aprende nos escuteiros. É esta constante aprendizagem que nós desafiamos aos jovens.
Queres ir para os escuteiros? Então anda! Anda experimentar.  Eu convido toda a gente pelo menos a experimentar e a ver se gosta ou não. Depois disso, é livre de optar. Agora nunca digam que não sem nunca experimentarem. Experimentem e depois logo se vê! Vão ver que vão gostar.



Por: Maria Inês Guardado

sábado, 1 de novembro de 2014

Memórias de Infância

Num país em que somos cada vez mais obrigados a ser adultos, viemos para as ruas de Coimbra perguntar acerca das suas melhores recordações de infância!






Por: Flávia Silva, Catarina Coutinho, Larissa Costa, Lilliana Ferreira, Marisa Neves e Priscila Duarte