quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Uma mão lava a outra




A relação entre as fontes e os jornalistas é um tema cada vez mais discutido e controverso dentro e fora do meio noticioso. Perante o negativismo que cada vez mais caracteriza os orgãos de comunicação social, e a falta de educação para os media, é cada vez mais necessário desvendar e colocar “em pratos limpos” a troca de informação, a selecção e  mediatismo que ocorre entre os que fornecem a informação, as fontes, e os que a tratam e disponibilizam-na  para o público, a comunicação social. A legitimidade do jornalista para transmitir certas informações é tantas vezes questionada  como a própria intenção da fonte ao fornecer os dados.
Metafóricamente, o jornalista será o viciado e a fonte o seu traficante? Ou vice-versa? Parece ser esta a visão que hoje em dia existe deste relacionamento que, na realidade, não deixa qualquer uma das partes em desvantagem, pois tanta é a procura de informação, como a sua oferta, num mundo de lutas de interesses e poder. Então, o que noticiar? O mau, que dá audiências e leitores, ou o bem, que é economicamente menos vantajoso para as empresas que detêm os orgãos de comunicação social, mas que também merece chegar às consciências de cada um de nós? Sejamos sinceros, hoje em dia o comando pára de fazer “zapping” na primeira tragédia que encontrar.


A propósito deste contexto, a relação estabelecida entre os meios de comunicação organizacional e as organizações não-governamentais (ONG’s) foi um dos temas debatidos na cerimónia final do Prémio Nacional de Jornalismo Universitário(PNJU). Algumas organizações convidadas, como a Abraço, a Assistência Médica Internacional (AMI), e a Cáritas pronunciaram-se sobre a sua ligação com os meios de comunicação social.
Existem questões, factos e problemáticas francamente pertinentes e merecedoras de algum debate e reflexão.
Nos dias que decorrem, existe uma relação de mútua dependência entre as organizações de solidariedade social e os meios de comunicação social, embora seja o papel dos media que mais transparece, para bem e para mal. A efemeridade das notícias e a corrida à “cacha” tornam o meio noticioso viciado nas relações com as fontes, entre elas as ONG’s. Por sua vez, estas entidades necessitam do eco dado pelos media para difundir as suas acções e conseguirem a amplitude de que realmente necessitam para chegar às pessoas e satisfazer as necessidades das causas que defendem. Nas palavras de Fernando Nobre, presidente da AMI, “ a AMI precisa da comunicação social para divulgar os seus actos. Por outro lado estes orgãos de comunicação aproveitam-se destas mesmas acções para estarem no local do acontecimento em tempo quase real, como se verificou com a catástrofe do Haiti”.
Apesar desta troca de interesses, é também destacável o facto desta relação ser mantida através da manutenção do grau de confiança entre as ONG’s e os orgãos noticiosos. Ao longo do tempo, a reciprocidade de atenção e necessidade entre ambas as partes constrói uma ponte sólida , através da qual o fluxo informativo torna-se constante e quase imediato.
No entanto, as pequenas organizações de apoio social, como “A Voz do Amor”, que acolhe idosos, queixam-se de pouca atenção dada, pelos media, às suas causas, realçando o facto de apenas as más notícias e catástrofes conseguirem captar a atenção dos jornalistas e das agências de comunicação. Em relação a este problema, Filomena Barros, sub-editora da Rádio Renascença afirma ser necessário que estas organizações, com menor destaque, mas não menos importância, na sociedade, empenhem-se mais para comunicar com os orgãos de comunicação social de modo a permancerem na agenda mediática porque, de facto, são demasiados os pedidos de atenção para todo um vasto leque de problemas que requerem a atenção de todos nós.
A realidade actual é que as notícias com um teor negativo vendem mais e segundo uma das frases do meio jornalístico “Good News are no news”, partimos então do príncipio que os acontecimentos, como mortes em massa, e valores-notícia, como a amplitude e a relevância, subjugam a bondade e os cuidados prestados por quatro ou cinco voluntários numa pequena aldeia. A grande questão é, então, ceder à necessidade de lucrar ou mostrar aqueles que ainda conseguem ser pequenos heróis numa sociedade de vilões? Filomena Barros assume que nenhum jornalista, perante um código deontológico, defende a legitimidade desta realidade, embora garanta que nenhum editor hesitará em colocar as más notícias “em ar” antes, e durante mais tempo, do que as notícias que revelam atitudes bondosas. Ainda assim, Laurinda Alves, também ela jornalista, diz que cabe a cada profissional da informação defender e calibrar a realidade tendo um critério próprio para defender a legitimidade da sua peça, seja ela de cariz positivo ou negativo. Salienta ainda a importância da valorização de temas relacionados com os direitos humanos e cidadania, através da qualidade das peças jornalísticas e da necessidade de uma excelência em termos de prestação para que se altere o panorama jornalístico, genericamente negativista e espectacular.


Chegar a bom porto implica, então, equilibrar a atenção dada aos valores-notícia, respeitar o código deontológico e apostar num desempenho activo dos meios de comunicação social junto das organizações não-governamentais, evitando a inércia do ciclo fonte-jornalista, que deixa de parte muita da qualidade que o jornalismo genérico supõe, e torna insuficiente a atenção dada às causas nobres e positivas. Causas estas que também deverão ser transmitidas juntamente com o que de mal ocorre por todo o mundo.
As palavras de ordem para uma possível evolução parecem ser bom-senso, equilíbrio e entreajuda entre ONG’s, fontes oficiais, e a comunicação social porque cada um destes elementos é necessário para ajudar os que necessitam e informar os que podem prestar esse auxílio, respectivamente.
 O bem, mesmo que em doses mais pequenas, também existe e, talvez porque ao longo do caminho o jornalismo perdeu-se entre o que de pior há e acontece, construindo assim a terrível fama que tem hoje, também é necessário expor o bem aatravés de um esforço extra, quer das organizações que o practicam, quer dos jornalistas e repórteres que têm cada vez mais que valorizar o seu papel de educadores da sociedade.

Cristina Freitas


(Este texto foi redigido em 2009, mas pela sua matéria, que permite continuidade, achei oportuno publicá-lo)

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