sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Ideias Que Fabricam Cidades - Portalegre

[Reportagem]

Norte Alentejo. 15 000 habitantes. Indústria e Património. Portalegre é capital de distrito há mais de um século; hoje, está cada vez mais longe de o ser. A falta de investimento e o encerramento de alguns serviços estão a conduzir a região do interior do país a um isolamento crescente. Antevê-se uma cidade estagnada no tempo. Curiosamente, é o estrangeiro que a resgata do esquecimento e diz ser "Tempo de Renovação" para Portalegre. Assim ontem, com a construção da fábrica Robinson pelos ingleses, como hoje, com a distinção da Fundação Robinson no Philippe Rothier European Prize for Architecture. 

"Cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros", assim a caracteriza o poeta José Régio, na Toada que dedicou à terra que o acolheu por mais de 30 anos. Portalegre é as muralhas e os castelos que D. Dinis mandou fortificar, é a cal branca que cobre as paredes das casas e que as protege dos dias escaldantes de Verão. Portalegre é o plátano mais célebre do país com 160 anos, é a manufactura de tapeçarias que, pela originalidade e valor artístico, são um ex-líbris da cidade. Portalegre é as igrejas e as catedrais. Portalegre é a gente que preza o passado e o reconstrói no presente, mesmo quando o país se esquece de tudo o que a cidade já foi e a isola de tudo o que ainda poderá ser. 
Portalegre já viu centenas de habitantes trocar as planícies pelo litoral, já assistiu ao encerramento de fábricas que outrora movimentavam a cidade, já esteve ligada às principais artérias da Península Ibérica e, actualmente, prepara-se para mais uma perda...a desactivação da única linha ferroviária existente. 
Em 1834 a cidade tornou-se capital de distrito; hoje, está cada vez mais longe de o ser. Daniel de Jesus, portalegrense a residir em Lisboa, argumenta que "A serra está para Portalegre assim como o rio está para Lisboa, ou seja: esquecida. Não aproveitam o potencial da serra para actividades. Há falta de emprego, há falta de iniciativas. Agora que estou em Lisboa apercebo-me de que Portalegre está numa apatia extrema, tem um ar doentio, existe uma tensão vivida pelas pessoas". 
Espera-se que com a passagem do tempo as condições evoluam, que aconteçam mais investimentos, que mais postos de trabalho sejam criados, mais meios de transportes sejam facultados, que mais pessoas queiram conhecer a região, se queiram fixar, que mais conterrâneos achem que vale a pena regressar. Esta seria a ordem natural dos acontecimentos. Mas toda esta sequência lógica de evolução se perde quando os sucessivos governos, ao invés de apostar, cortam nas despesas e suprimem meios. E assim, vão silenciando uma terra que outrora viveu tempos prósperos. 
Se hoje Portalegre e toda a zona do Alentejo são vistas como um mundo à parte, outrora houve quem visse qualidade de vida e rendimento ao investir na região. Foi o caso de George Robinson, um britânico que, decorria 1900, foi a figura mais marcante da história da fábrica de cortiça de Portalegre. A Fábrica Robinson, ou "fábrica da Rolha", como ficou conhecida, chegou a reunir 2000 trabalhadores e teve a capacidade de integrar novas metodologias produtivas e alterações tecnológicas, como a máquina a vapor e o gerador eléctrico, trazidos de Inglaterra. Com períodos de trabalho intensivo e outros de evidente baixa na produção, a fábrica Robinson esteve no activo durante mais de um século. Manuel Candeias, reformado de 84 anos, foi trabalhador fabril durante 42. Foi versátil e percorreu várias secções da fábrica Robinson durante o período em que esteve empregado. "Fui broquista, que consistia em fazer as rolhas, estive na secção de prensas, onde se cozia a cortiça a vapor, passei pela fase de secagem, pela secção do isolamento e também regulava a temperatura das caldeiras", conta, ainda com entusiasmo. Nessa altura, a "fábrica da rolha" recebia encomendas do Japão, da Filadélfia e de Macau. 
A unidade fabril que esteve na origem do primeiro sindicato operário da história da actividade corticeira e que tinha como prioridade a segurança dos seus trabalhadores, encerrou funções, mas nem por isso deixou de fazer história. 
A Fundação Robinson consiste numa entidade jurídica de direito privado que nasceu do entendimento entre a Sociedade Corticeira Robinson e a Câmara Municipal de Portalegre sobre o potencial patrimonial da fábrica. A Fundação assegura a continuidade do espaço da fábrica que até há uns anos estava sem qualquer utilização.  Deste modo, como forma de aproveitar o espaço da "fábrica da rolha", nas periferias do edifício construiu-se a Escola de Hotelaria e Turismo de Portalegre, inaugurada em 2008, fruto de um projecto de requalificação, assinado pelo Arquitecto Eduardo Souto Moura
Quando Portugal fecha os olhos às potencialidades de uma região, o resto do mundo parece debruçar-se sobre elas e reconhecê-las! O jornal Público de 28 de Setembro de 2011 escreve que "O Espaço Robinson (...) recebeu uma menção honrosa nos prémios Philippe Rothier European Prize for Architecture e foi escolhido para integrar o catálogo que ilustra a exposição da edição 2011 e que estará patente no Museu de Arquitectura La Loge, em Bruxelas." Face à distinção do projecto, José Manuel Barradas, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Robinson afirma que "é a confirmação de que o trabalho que estamos a desenvolver em Portalegre, no Espaço Robinson, é de facto um projecto urbanístico de dimensão internacional com um enorme potencial e vai, não só influenciar a vida da cidade de Portalegre como também projectar o seu nome além-fronteiras”.
Há uns anos, os trabalhadores viram-se forçados a abandonar o emprego de uma vida, mas as lembranças e o legado centenário da Robinson, através de novas formas, mantêm-se vivos na cidade.
Manuel Candeias, que começou a trabalhar na Robinson numa fase de crescimento exponencial de encomendas, recorda hoje, com saudade, "o apito da fábrica que tocava às 7h30 da manhã para chamar os trabalhadores e, depois, às 17h, para anunciar o recolher e o final de mais um dia de trabalho"

Este é um exemplo de que Portalegre tem a capacidade de fazer renascer! Cada final pode ser um novo começo. E assim como se começa, assim se acaba, com as palavras de José Régio, poeta-amante da cidade.

"E a cada raminho novo/
Que a tenra acácia deitava,/ 
Será loucura!..., mas era/
Uma alegria/ 
Na longa e negra apatia/
Daquela miséria extrema/ 
Em que vivia,/ E vivera (...)".

Paula Cabaço
Redacção 2


1 comentário:

  1. "Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te, que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso (...)"

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