quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Tatuagens



As minhas marcas, a partir de agora, sou eu que escolho. A minha primeira tatuagem fez oito anos no mês passado. Lembro-me como se fosse hoje, o batimento cardíaco acelerado e as mãos transpiradas de excitação ao sentir a agulha pela primeira vez a rasgar a minha pele.

Fonte: http://tattoismo.wordpress.com/
Carregamos cicatrizes pela vida fora. Alguém que descarregou as suas frustrações em cima de nós, alguém que foi embora quando mais precisávamos, um ex-namorado que despedaçou o nosso coração, uma amizade que terminou sem motivos, alguém que a vida (ou a morte) levou mais depressa do que gostaríamos.

Quando olho para dentro, vejo crateras profundas, feridas que sangram até se transformarem em cicatrizes, muitas vezes, visíveis ao olhar nu dos outros. É la que está a dor. Dor estampada, bordada a linhas de cores fluorescentes e não me foi dada a escolher a cor que queria, a forma ou a textura da marca. Não houve opção de escolha no desenho, nem do profissional que a iria eternizar. Mas querendo ou não, elas estão ali, sem possibilidade de as esconder com roupa ou maquilhagem. São as minhas marcas, as minhas cicatrizes, as minhas vivências, a minha dor ou as minhas alegrias.

E lá vem alguém dizer, mais uma vez, “Não te vais arrepender de tatuar isso?”. A resposta é simples. Se me arrepender, aprenderei a conviver com a minha escolha, como aprendi a viver com as outras, aquelas que não escolhi. Porque, pelo menos, estas eu pude escolher.

Sempre fui contra a ideia de aceitar as imposições da vida. Fui uma criança difícil, uma adolescente rebelde e, agora, uma adulta livre, que escolhe o seu caminho, torto, por atalhos ou curvas. Não tenho medo de me perder para me encontrar. Mas para ilustrar o livro das minhas viagens, levo as minhas marcas tatuadas, por dentro e por fora. Convivo com as escondidas e escolho as visíveis. Porque independentemente do que carrego, a vida corre debaixo dos meus pés.


Por: Laura Duarte

O artigo está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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