terça-feira, 4 de novembro de 2014

"A verdadeira guerra está no mundo civil"

David Santiago
David Santiago, 21 anos, é, atualmente, militar no Campo Militar de Santa Margarida, maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada e uma das maiores instalações militares da Europa. Em estilo de confissão, o jovem revela-nos alguns dos seus objectivos e os seus maiores medos.

Sempre quis seguir carreira militar?
Sim, é um sonho desde miúdo. Sempre vi filmes de guerra e ação com o meu pai, que despoletaram o meu interesse pelo Exército.

Está no Exército há quanto tempo?
Estou no Exército desde 7 de Maio de 2012, portanto há dois anos e seis meses.

Para o recrutamento, o que é que é preciso?
Para o recrutamento é preciso ter Nacionalidade Portuguesa; ter pelo menos 18 anos de idade, à data da incorporação; ter aptidão psicofísica adequada; não estar inibido ou interditado do exercício de funções públicas; não ter sido condenado criminalmente em pena de prisão efetiva; possuir situação militar regularizada; possuir habilitações literárias adequadas ( 9.º ano para a categoria de Praças, frequência de ensino superior ou licenciatura (na área de Saúde) para a categoria de Sargentos, licenciatura ou mestrado integrado para a categoria de Oficiais).

Quanto à recruta, foi o que estava à espera ou surpreendeu-o?
A recruta surpreende sempre, porque é uma fase em que tudo é desconhecido. É uma fase de aprendizagem em que fazemos coisas que nunca imaginamos um dia vir a fazer. A minha recruta foi muito complicada mas foi uma grande experiência e, sem dúvida, que me marcou bastante.

Quais são as diferenças entre o regime de voluntariado e o regime de contrato?
Regime de Voluntariado corresponde à prestação do serviço militar por um período de 12 meses, incluindo o período de instrução. Após este tempo, o militar pode ingressar no serviço efetivo em regime de contrato ou sair do Exército. O Regime de Contrato corresponde à prestação de serviço militar durante um período mínimo de dois anos e um máximo de seis.

Como está no Exército em Regime de Contrato, pretende continuar após o seu termo?
Eu estou a ponderar ficar porque, neste momento, a verdadeira guerra está no mundo civil. Aqui tenho um emprego estável, com vencimento certo. Se decidir sair, sei que o mais provável é contribuir para as estatísticas e ser mais um desempregado. Além disso, gosto daquilo que faço e não faz sentido sair.
David em frente ao carro Leopard 2A6

 Qual é a sua função no Exército?
Neste momento, sou condutor de Leopard 2A6 mas quando ingressei no Esquadrão de Reconhecimento tinha o curso de Atirador/Explorador e comecei como Atirador no 2º Pelotão de Reconhecimento (o Pelotão mais operacional do Esquadrão de Reconhecimento).


Sei que recentemente foi graduado de Praça a Cabo, isso foi um motivo de orgulho para si?
Claro que sim! Isso demonstra reconhecimento pelo meu trabalho, porque não somos nós que decidimos que vamos frequentar o curso de Cabo. Quem dá o seu parecer, em primeiro lugar, é o Cabo mais antigo do Pelotão, depois o Sargento do Pelotão e, por fim, é o Comandante do Pelotão que dá o nosso nome ao Comandante do Esquadrão.

O que é que faz no seu dia-a-dia?
No dia-a-dia normal, na parte da manhã, temos treino físico e à tarde tenho que fazer manutenção, testes e estudos ao carro (Leopard 2A6). Já no dia-a-dia mais fora do comum, fazemos exercícios no campo, onde treinamos situações reais de combate, entre outras coisas mais confidenciais. Além disto, também ajudamos a população em situações de cheias e incêndios, por exemplo.

Também no que toca a ajudar os outros, o Exército Português participa em alguma atividade de solidariedade?
Sim. Todos os meses, em Santa Margarida, participamos na Corrida Pires Garção de 5km e, de três em três meses, participamos na Corrida Pires Garção de 10km. Estas corridas têm como objetivo a angariação de fundos para uma instituição de crianças de Constância. O quartel tem também, todos os anos, uma campanha de recolha de roupa e de alimentos para uma associação de pessoas carenciadas de Constância.

O David nunca foi a nenhuma missão porquê?
Nunca fui a nenhuma missão por opção própria. Na altura a minha vida pessoal não era estável e então tive que ponderar muito bem essa hipótese. Uma missão nunca é fácil, nem para o militar nem para quem fica cá à nossa espera. Mas em princípio, irei participar numa próxima porque é para isso que cá estou e é para isso que trabalho diariamente.

A vida militar é o que esperava?
Por um lado sim porque conheci a acção e a aventura mas, por outro lado, acho que o Exército Português está muito desatualizado e isso desiludiu-me. No entanto, o Estado tem vindo a fazer cada vez mais esforços para modernizar o Exército e isso é bom. Um exemplo de modernização, é o investimento em Drones - veículos aéreos não-tripulados utilizados para captar imagens aéreas.

É fácil conciliar a vida militar com a vida pessoal?
Não, de todo! A vida militar é uma vida muito complicada, em que temos que colocar de parte muitas coisas. A partir do momento em que decidimos que é isto que queremos, temos que “deixar para trás” a família e os amigos e isso é muito complicado de gerir.

Sente que a sua forma de ser/estar/pensar mudou desde que está no Exército?
Sim. Agora dou mais valor às coisas simples da vida, como estar com a família, conviver com os amigos ou até tomar um banho de água quente. Além disso, em termos de respeito e civismo, mudei completamente. Antes de vir para aqui era muito egocêntrico, pensava muito em mim. Agora penso mais nos outros e tento ajudar toda a gente, dentro dos possíveis claro.

Se fosse agora, voltava a candidatar-se ao Exército?
Sinceramente, não ou, pelo menos, não me candidatava com 18 anos mas, talvez, com 25/26. Sinto que aqui perco muitas oportunidades e não aproveito tanto a vida e a minha juventude como poderia aproveitar se não estivesse cá.

Enquanto militar, quais são os seus maiores medos?
Os meus maiores medos são perder o meu camarada do lado, não conseguir acabar a missão que nos é dada, seja ela qual for e, principalmente, levar um tiro e perder a vida.



Por: Adriana Vieira

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