terça-feira, 3 de novembro de 2015

A calçada portuguesa é o chão, o céu de Coimbra é o teto!




São muitos aqueles que adormecem com vista para o céu de Coimbra e acordam na calçada portuguesa. São muitos aqueles que fazem do banco de jardim a sua casa e o Mondego a sua janela. São muitos aqueles dos quais a calçada já sentiu as suas lágrimas e os seus corações. Eles são pessoas. São seres humanos. Fogem dos flash´s dos turistas e dos curiosos. Pedem na rua de cabeça baixa. Sentem vergonha. São sem-abrigo.


 
Nem todos os que vêem param. Nem todos os que fogem têm medo. “Acredito que as pessoas quando passam na rua discriminem e não consideram os sem abrigo como sendo parte da sociedade” diz-nos o técnico Tiago Ferreira da Associação Integrar (trabalho que o preenche à cerca de três anos). Nem todos assumem o que os atormenta, mas existe quem se preocupe. Existe quem queira fazer, por mínimo que seja, algo de bom por estes seres humanos. Entre os que querem ajudar temos o nome de várias instituições distribuídas pela cidade de Coimbra. Todos os dias há uma carrinha a percorrer as ruas da cidade, desde locais perto da Praça D. Dinis até outros locais identificados, quer pelos cidadãos, quer pelas instituições. Todos os dias da semana há uma instituição nas ruas da cidade, sendo que durante a semana há várias instituições com equipas na rua, a instituição Anajovem, a associação Integrar, a Câmara Municipal de Coimbra (Divisão de Ação Social e Familia), o Centro de Acolhimento João Paulo II, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Associação Todos pelos Outros e a Instituição CASA. “As equipas de rua já funcionam há mais ou menos dez anos”– Tiago Ferreira. Este percurso tem início às 21:30 horas e pode prolongar-se até às doze badaladas que soam dos sinos das capelas e das igrejas de Coimbra.



A Associação Integrar, sediada na Rua Do Teodoro junto ao Estádio Cidade de Coimbra, no âmbito do projecto de ajuda aos sem-abrigo, tem a preocupação de implementar rotinas de passagem para a distribuição de cobertores e alimentação. “A população alvo da associação são maioritariamente pessoas desfavorecidas em situação de sem abrigo e/ou com problemática de adição” refere Sara Teixeira. A instituição, para além dos giros noturnos e diurnos, tem ainda um “centro de acolhimento familiar” mais direcionado a famílias carenciadas, “um pronto a vestir no pólo de formação das lages” onde os mais necessitados podem recorrer sem qualquer custo. Oferece ainda um “centro de acolhimento que acolhe doze Homens e acompanha mais vinte e cinco Homens em regime ambolatório” explica a técnica Sara Teixeira da Associação Integrar. O principal objectivo é a intervenção tanto a nível psicológico como social. 



Esta Associação conta com setenta a oitenta voluntários distribuídos pelos diversos projectos da associação. “Para ser voluntário é muito simples. Existem duas maneiras: ou dirigem-se à sede da Associação Integrar e preenchem o formulário de voluntariado ou então preenchem o mesmo formulário presente no site da instituição e mandam para o e-mail da mesma.” – Sara Teixeira. Os voluntários poderão ser chamados de imediato ou quando a associação sentir a necessidade de os chamar, tendo em conta a disponibilidade horária apresentada pelo mesmo. “A primeira coisa que os voluntários fazem em ambiente de giro é ocuparem os seus postos pré-definidos e começarem a distribuição de bens alimentares”- Tiago Ferreira. A intenção de ajudar alguém através do voluntariado, de doações alimentares ou de vestuário é necessária ao longo de todo o ano, no entanto Sara Teixeira diz-nos que, “As épocas festivas são as alturas em que notamos, infelizmente, que a maior parte das pessoas se lembra de ajudar. É nessa altura que há mais procura tanto pela imprensa para fazer reportagens e pelos cidadãos para fazer voluntáriado. Lamentavelmente acontece que existem alturas do ano em que é dificil termos os bens necessários para distribuir e, por exemplo, no natal passado houve uma abundância exagerada de bens distribuídos”. Mesmo com a exagerada afluência de bens materiais, a associação tenta “juntar todos os utentes na Quinta dos Olivais durante o dia para promover as relações entre eles”– Tiago Ferreira. Esta é uma iniciativa da associação que tem como objectivo mostrar que o Natal é e deve ser para todos e que ninguém está sozinho. A familia é insubstituível mas o carinho que recebem atenua esse sentimento de perda e de solidão.

A baixa de Coimbra é sem dúvida o maior palco destes que são os familiares da calçada Portuguesa. É junto ao Mondego e na zona da Estação Nova que muitos se fixam. Esta realidade faz principalmente parte da vida de muitos adultos, reformados e inválidos que todos os dias tentam sobreviver. No entanto, existem jovens que passam por estas situações por questões de necessidade ou por rebeldia. A fome, o frio e a solidão não são as únicas complicações da vida destas pessoas, que muitas vezes são atraiçoadas pelas dependências. 



Na quinta-feira, a Associação Integrar saiu à rua, à semelhança de todas as semanas. Eram cerca de 21:30h quando a carrinha da associação saiu das suas instalações com rumo à zona da portagem, mais concretamente ao hotel “Astória”. Em representação da instituição havia dois profissionais técnicos, duas voluntárias e Maria Garcia, estudante de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Coimbra. Chegaram não só recheados de comida para distribuir como também de carinho para dar. “A primeira coisa que fazemos quando chegamos ao local de encontro é cumprimentar as pessoas e saber se alguém precisa de apoio tentando perceber se existe algum tipo de problema com os utentes que acompanhamos”, diz-nos Tiago Ferreira. “É gratificante saber que um simples “boa noite!”, um sorriso e uma refeição quente podem fazer a diferença na vida destas pessoas que entre sorrisos e apertos de mão se divertiam sem pudor. Ali eles sabem que estão bem. Estão seguros e nada de mal lhes vai acontecer.” diz Maria Garcia. Sentaram-se a conversar e por ali ficaram cerca de meia hora. Ao todo eram cerca de trinta e cinco pessoas das quais o técnico Tiago Ferreira apontou “os nomes e eventuais problemas que possam existir”. Reuniram-se mais cedo, meteram a conversa em dia e assim que a carrinha da associação chegou, fizeram fila para recolher a sua refeição. 

“Todos os dias, nós e as restantes instituições da Cidade, ajudamos cerca de setenta a oitenta pessoas que se deslocam ao nosso encontro com grande afluência na primeira paragem do nosso percurso que é no hotel «Astória»”. Sara afirma ainda que “este projecto não é movido apenas pela felicidade que sentimos ao fazer parte dele mas sim pela possibilidade de intervir para ajudar e fazer alguma coisa diferente pelos outros“. Para estas pessoas é sem dúvida o momento mais esperado do dia. 



Grupo 8
Maria Garcia
Cristiana Barreto
Rafael Simões
Rubina Teles

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