quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ver os de fora, cá dentro


Entrevista realizada a Catarina Elias, estudante de comunicação Social, residente na cidade de Coimbra desde os três anos até aos dias de hoje, onde continua a sua vida académica na Escola Superior de Educação de Coimbra.

1-      Como residente em Coimbra há vários anos, sempre sonhaste/tiveste como objetivo estudar na tua cidade?
Nasci em Coimbra e, embora não tenha vivido cá até aos três anos, frequentei o Infantário, o Ensino Primário e o Secundário cá. Quando pensava em entrar na faculdade, nunca considerei a hipótese de sair de Coimbra. No entanto, quando acabei o 12ºano fiz uma pesquisa acerca dos cursos nas áreas que me cativavam e alguns deles seriam em faculdades de Lisboa. Mesmo assim, um dos cursos que mais me interessavam existia aqui na ESEC e, por questões de facilitismo e comodidade, decidi permanecer cá.
                                                                                                                                       


              Imagem 1 – Catarina Elias no cortejo da Queima das Fitas 2015

2-      Comunicação Social sempre foi a tua escolha ou foi a escolha de recurso antes da candidatura?
Eu sempre gostei de várias coisas, tanto relacionadas com Ciências como com Letras. Apesar de ter seguido o curso de Ciências e Tecnologias no secundário, sempre soube que não queria seguir nada relacionado com Ciências. Achei que me identificava mais com as letras, pelo meu gosto pela escrita. Por isso, as minhas opções passavam pelo Jornalismo, pela Psicologia… A ideia de Psicologia foi rapidamente descartada, virei-me para o Jornalismo. Para além da escrita, a rádio também me interessava. Comparei o curso de Jornalismo na Universidade de Coimbra com o de Comunicação Social da Escola Superior de Educação de Coimbra e depois de conhecer melhor as unidades curriculares de cada um dos cursos, optei pelo que me pareceu ser a melhor escolha: Comunicação Social. Hoje sei que fiz a melhor escolha e percebi que também ganhei o ‘gosto’ pela área da produção e edição de conteúdos, que era algo que, inicialmente, não tinha em mente.

Imagem 2 – Fotos de Curso (Comunicação Social).


3-      O que é que uma pessoa que sempre viveu na cidade sente ao chegar a esta fase da sua vida, mantendo-se cá?
Agora é difícil falar sobre Coimbra sem soar, por uma vez ou outra, clichê. Há tanto para dizer e as ‘frases feitas’ dizem quase tudo. Mas vou tentar.   
No início do meu primeiro ano não senti grande entusiasmo, só uma certa ansiedade porque ía começar um novo ano rodeada de pessoas que não conhecia. Para além disso, não sabia o que esperar nem como me iria adaptar ou integrar. Mas, com o tempo, senti que fazia parte de uma família, a família dos estudantes. A família de Coimbra. Finalmente percebi que existia uma família diferente por detrás daquela que sempre tinha sido a minha cidade. E o melhor? Eu fazia parte dela. A partir daí, comecei a olhar para Coimbra de outra forma. Não mudei de cidade, mas mudou aquilo que eu via nela. Era como se, a partir daquele momento, ela me pertencesse um bocadinho mais e eu a conhecesse um bocadinho melhor – de uma maneira que nunca tinha conhecido. Dei por mim num mundo completamente diferente, que eu queria agarrar e aproveitar ao máximo. Conheci a magia de Coimbra de que tanta gente falava. Conheci pessoas de todos os pontos do país. Chegava a casa com dezenas de sotaques diferentes na cabeça. Comecei a sentir saudades dos tempos que passavam e, sempre que me deslocava para fora da zona de Coimbra, o regresso era cada vez mais desejado. Como é que, depois de 17 anos aqui, mais três anos me começaram a parecer demasiado pouco?
Quando cheguei a esta fase da minha vida, mantendo-me cá, pude viver a euforia daqueles que seriam ‘os melhores anos da minha vida’, como todos os estudantes de Coimbra, mas sempre com o conforto de minha casa. Pensava que, por continuar em Coimbra durante mais uns anos, não iria sentir nenhuma mudança. Mas a verdade é que Coimbra nunca mais foi a mesma e eu estava longe de imaginar tudo aquilo que viria a encontrar.    


4-      Quais eram as tuas expectativas de ser estudante no ensino superior, em Coimbra?
Sinceramente, não tinha grandes expectativas relativamente ao ensino superior. Nunca me preocupei muito com isso e acho que a ideia de seguir os estudos para a faculdade já nos é tão ‘imposta’ que não era algo que me surpreendesse de alguma forma. Eu sabia que depois do secundário, o caminho seria o ensino superior e pronto. Quando recebi o resultado da candidatura, o nervosismo sobrepôs-se ao entusiasmo. Não tinha criado expectativas, tinha apenas curiosidade. Ouvia dizer que ‘amigos da faculdade são amigos para a vida’ e que ‘Coimbra é uma lição de sonho e tradição’. Assisti a alguns cortejos da Queima das Fitas e não percebia o que motivava nos estudantes tanto orgulho e tanta nostalgia pela tradição. Mas lá está… esta vida académica ainda me era um cenário um pouco distante.


5-      Foram ao encontro disso?
Sem dúvida que superaram. Se antes não sabia para o que ía, hoje espero pelo que aí vem. Se antes não sabia os amigos que ía encontrar, hoje não imagino sequer como é que seria se não tivesse escolhido o curso que escolhi. Vivi e senti, na minha própria pele, a lição de sonho e tradição enquanto envergava capa e batina pela calçada. E hoje digo, com toda a certeza, que não há expectativa alguma que chegue a Coimbra. Nem palavras que a expressem.


6-      Gostavas de ter ido para outra cidade? Prosseguindo lá os teus estudos?
Pelo espírito académico, não. Não há outro como o de Coimbra. Talvez no futuro vá para outra cidade, mas a Licenciatura tinha mesmo de ser aqui. Não há acordes como os que se ouvem por aqui, pelas ruas místicas que veem passar o preto das capas a arrastar. Se fosse hoje, voltaria a escolher ficar por cá.


7-      Recomendarias o curso que frequentas?
Em termos de saídas profissionais, penso que o curso é muito bom e o facto de nos possibilitar a realização de estágio curricular no último ano da licenciatura é uma vantagem em relação a outros cursos, como, por exemplo, o de Jornalismo da UC. Outro ponto a favor é a possibilidade de seguir dois ramos na área da Comunicação Social, o de Jornalismo e Informação e o de Produção de Conteúdos para os Novos Media. Para quem tem interesse nestas áreas, sim, recomendaria.


8-      Notas alguma diferença na tua cidade, Coimbra, desde que vieste para cá até aos dias de hoje?
Sinceramente, não me vem à cabeça nada que tenha mudado drasticamente ao longo destes anos. É evidente que a cidade evoluiu e um dos momentos mais importantes na sua história foi o reconhecimento, pela UNESCO, da Universidade de Coimbra – Alta e Sofia, como Património Mundial.


9-      Quais são as tuas expectativas de trabalho? Pensas continuar a estudar após a licenciatura?   
Tento não criar grandes expectativas relativamente ao trabalho, porque esta não é uma área fácil. Por enquanto, estou focada em aproveitar os próximos meses em estágio e, a partir daí, pensarei no que fazer. Gostava de prosseguir os estudos e inscrever-me num mestrado, mas ainda não está nada definido.


10-   Ambicionas trabalhar em Portugal ou no estrangeiro?
Obviamente que gostava de trabalhar em Portugal, mas confesso que fazê-lo no estrangeiro também não é uma ideia que me desagrade. De certeza que seria uma ótima experiência!


11-   Achas que o jornalismo no futuro irá continuar a ser uma profissão rentável?

Eu acho que o jornalismo não pode deixar de existir e, enquanto existir, será uma profissão frágil, mas essencial. Talvez devido a uma crescente facilidade em aceder à informação, o profissional do jornalismo seja menos valorizado e, nesse sentido, o seu trabalho pode tornar-se menos rentável. Ainda assim, olho para o jornalismo como a força que mantém o país ‘de pé’ e os valores indispensáveis a ele associados não se encontram facilmente noutras atividades profissionais. Fala-se muito no “Jornalismo do Futuro” na era da internet, do mundo digital. Hoje, as redações fazem o esforço de adotar estratégias online que mantêm a sua edição em papel rentável, como é o exemplo do Diário de Coimbra. Eu acho que o jornalismo ‘puro e duro’ terá sempre de existir, assim como o trabalho de investigação que ele exige. Há certas abordagens que não se conseguem se não for feito um trabalho aprofundado, um trabalho em campo. Tarefas que cabem aos jornalistas, profissionais qualificados para as concretizar. O trabalho do jornalista pode ser sobrevalorizado, mas em tempos de crise, quer sociais, políticas ou até económicas, constitui o grande ponto de equilíbrio. Por alguma razão, o jornalismo procura afirmar-se como o “Quarto-Poder”. 

Miguel Azinheira (grupo 3)

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