terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Crónica: Mal humorados?




A política, a sociedade, o quotidiano e o desporto. Um momento menos feliz ou uma absurda frase de um “senhor fulano tal”. As ideias estereotipadas das mais diversas pessoas e estranhos comportamentos humanos.
Para isto e muito mais, deve valer uma reflexão, ou uma denúncia. Daí que o gozo, a boa disposição, no fundo, o bom humor desempenhe uma importante função para que possamos ver as coisas de um prisma positivo, para que a vida não seja uma depressão, para que além dos problemas e de um Portugal não tão bom – como de todos é desejo – possamos ter esperança num Futuro risonho.
Na primeira década do Século XXI assistimos ao sucesso de humoristas como Bruno Nogueira, Nilton, Eduardo Madeira, Marco Horácio, Miguel Góis, Ricardo de Araújo Pereira e Tiago Dores – estes quatro últimos que formam os “Gato Fedorento”. E foram muitos os programas que chegaram aos ecrãs de nossa casa.
Com o “Levanta-te e Ri”- estreado em Janeiro de 2004 na SIC, o stand-up comedy pareceu instalar-se de vez para entretenimento dos portugueses - pelo menos em dois anos e meio de duração do programa. Em período semelhante – embora num canal por “cabo”- os “gatos” foram ganhando popularidade com os seus sketches das séries: Fonseca, Meireles, Barbosa. Já na RTP e após a série Lopes da Silva – os “Gato Fedorento” estreavam o seu talk-show e passariam a criticar com sarcasmo e humor a actualidade, a par de Herman com o “Herman SIC”. Desde então Portugal pareceu caminhar no sentido do humor inteligente, consciente e moderno.
O projecto humorístico dos últimos tempos que talvez maior qualidade e notoriedade teve para o público luso foi “Os Contemporâneos”, reunindo Bruno Nogueira, Maria Rueff, Nuno Lopes, Carla Vasconcelos, Dinarte Branco, Gonçalo Waddington, Manuel Marques, Eduardo Madeira e Nuno Markl, num luxuoso elenco de actores e guionistas.
Até ao ano passado, tínhamos a oportunidade de ao fim-de-semana à noite ligar a televisão e sintonizá-la ou nos “Gato-Fedorento” ou nos “Contemporâneos”, e passadas as gargalhadas lacrimejantes, pôr a “cabecinha” a pensar sobre reais e importantes - e algumas vezes já cómicos- problemas do país.
Agora, “Gato Fedorento” só em spots publicitários e “ Os Contemporâneos” foi extinto. Aliás, dos “quatro canais”, apenas a RTP conta com programas humorísticos, de certo modo, interventivos – “Lado B”; e “Herman 2010” - pouco vistos.
Há uns dias atrás foi a machadada final. O “Contra-Informação” ao fim de quase 15 anos consecutivos a ser emitido, acabou e com ele a sátira política. Portanto, ficamos limitados, a dois programas de humor, transmitidos num canal do Estado e que se debruçam uma vez por semana a diversos temas – que não só a política – com um tempo de emissão limitado e num horário tardio.
Tendo em conta a conjuntura actual, penso que não falta matéria-prima para sketches, “stand-ups”, gozo e sarcasmo. O que não falta é momentos para os “reis da comédia” serem postos de novo no trono.
Ao saber que a depressão afecta cada vez mais portugueses, que “isto está cada vez mais difícil, que “temos que apertar o cinto”, cresce-me um saudosismo pelo humor perspicaz, pelos “gatos” com piada, pela “geração de ouro” , pelo bom e velho Herman que encantava aos Domingos à noite e, principalmente, por um povo que ainda ria e reflectia em simultâneo, vendo programas “à séria”.
Mas atenção, não estou a dizer que ver reality-shows e os talent-shows é má substituição. Ao menos durante três ou quatro horitas, esquecemo-nos do que se passa à nossa volta e ficamos aliviados, porque o António Oliveira tem um filho, surpresos e fãs de um pastor que já teve uma casa de alterne, tristes porque o casal apaixonado da casa foi separado por votações telefónicas ou indignados, porque “aquele até cantava bem e o júri não percebe nada daquilo e expulsou-o”. Assim, de repente, isto talvez não sejam más ideias para escapar àquela palavra que nos persegue e martiriza – austeridade - ou ao novo número da “Besta”: vinte e três. Mas, e rir até doer a barriga? Parece que falta qualquer coisa. Não se sente um vazio? Sim aí, mesmo aí.
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Renato Sapateiro

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