terça-feira, 18 de janeiro de 2011

" As repúblicas sempre foram e sempre serão de Coimbra e dos estudantes que por cá passam." - Entrevista a Patrícia Azevedo


Patrícia Azevedo, 28 anos, é natural de Matosinhos e estuda Comunicação Social, na Escola Superior de Educação de Coimbra. Morou na República Rosa Luxemburgo durante cerca de quatro anos e meio.  

Ana Veiga [A.V.] - Quando chegou a Coimbra, onde ficou a habitar?

Patrícia Azevedo [P.A.] -Fui morar juntamente com uma amiga, para um apartamento independente.

A.V. - O que a levou a integrar a República Rosa Luxemburgo [R.R.L]?

P.A. -Eu fui parar à república de pára-quedas. Andava à procura de casa e nem sequer sabia que aquele espaço era uma república. Vi daqueles autocolantes que, habitualmente, dizem que é para alugar quarto e fui lá bater à porta. Mostraram-me a casa, explicaram-me o que é que era e eu fiquei bastante interessada. Disseram que me enviavam uma mensagem para me informarem da decisão, o que ocorreu passado dois dias. Fiquei à experiência. 

A.V. - Como foi essa integração?

P.A. - Correu muito bem, porque foi o único sítio, e já morei em muitas casas em Coimbra, onde eu me senti em casa. Por isso, foi o único sítio onde me integrei logo.

A.V. -  Como funciona a República no dia-a-dia?

P.A. - Não há dias normais numa república. A maior parte das repúblicas funcionam da mesma maneira, têm as suas regras, havendo regras em comum. Qualquer pessoa pode ir para uma república, mas tem de ter a condição de ser estudante, pelo menos na minha. Geralmente as pessoas são primeiro comensais, pessoas que vão lá fazer as refeições. São consideradas pessoas da casa, só que não têm lá um quarto. A melhor forma de conhecer o funcionamento da casa é ser comensal, tendo tarefas como nós, e é uma forma de integrar as pessoas, para que entendam como a casa funciona. Quando existem vagas, e se os comensais estiverem interessados, damos-lhes prioridade. Mudam-se para lá e ficam à experiência, por tempo indeterminado. Vamos ver como é que a pessoa se integra e como é que nós nos integramos a ela, como é que ela interage dentro da casa. Quando achamos que as condições estão reunidas, passa a elemento de casa. Temos um livro, onde estão nomes, desde a fundadora até ao membro mais recente, e quando uma pessoa passa a elemento de casa, o seu nome passa a constar no mesmo. É um momento muito solene! Não é que antes nos sintamos estranhos, porque isso não acontece, mas quando passamos a elemento de casa é quando sentimos que, independentemente de irmos embora de Coimbra, aquela será sempre a nossa casa. No dia-a-dia temos várias tarefas. Temos uma cozinheira, a Luísa, e todas as semanas cabe a uma de nós organizar a ementa. Temos apoio nos serviços sociais e um dia por semana uma de nós vai lá abastecer-nos de alimentos. Esse apoio tem vindo a diminuir drasticamente, não na percentagem mas em diversidade de géneros. À sexta-feira, como a Luísa não fica para a noite, a semanal faz a limpeza da cozinha, em conjunto com um comensal. Faz também o jantar de domingo. Temos que lavar a roupa da casa, ou seja, tudo o que é da casa é feito em comunidade, através da rotatividade da semanal. Existem ainda as reuniões de casa, para discutir todos os problemas existentes. Quanto às contas, uma pessoa fica responsável, por mês, pela contabilidade. A mensal recebe o dinheiro de toda a gente e tem de o saber gerir: paga as contas e paga a empregada. Os comensais vão buscar o pão, aos serviços sociais, e ajudam a semanal, sendo também uma escala rotativa.

A.V. -  Como descreve a sua experiência nesta República?

P.A. -It was the best of times, it was the worst of times”! A minha experiência na república foi assim. Eu lá vivi os melhores tempos de Coimbra, mas tive muitas dificuldades. Mesmo não vivendo numa república é impossível uma pessoa dizer que nunca teve problemas. Isso seria hipocrisia. Numa república isso é mais exacerbado porque não deves nem podes pensar só em ti. Tens de pensar que tens o teu espaço, o teu individualismo, mas tens de pensar no resto das pessoas. Por vezes, há pessoas que não estão dispostas a isso e não ficam lá muito tempo. Há alturas em que uma pessoa não está disposta a isso e pode causar problemas. Uma pessoa atravessa tempos complicados, mas não trocaria a experiencia por nada.

 A.V. - O que acha que a R.R.L tem de único, face às outras repúblicas femininas, que a torne peculiar?

P.A. - Única porque foi a minha, peculiar por ter sido a primeira república feminina, o que lhe confere um estatuto especial. Cada pessoa de cada república irá sempre dizer que a sua é melhor e especial, mas uma república não pode ser vista como única, mas como um todo. 

A.V. -  Qual acha que é a importância desta república para a cultura da cidade de Coimbra?

P.A. - As repúblicas sempre tiveram um papel importante na cultura de Coimbra. Esse papel tem vindo a perder força, porque cada vez mais as pessoas estão menos interessadas, não é só nas repúblicas. Porque esse pessoal, devido a Bolonha, tem pouco tempo para se dedicar à cultura. Por exemplo, na minha altura não havia prescrições nem Bolonha e as pessoas podiam estar cá mais tempo e dar mais tempo à casa. E dar mais tempo à casa era agir mais, culturalmente. As repúblicas têm muita história de activismo político, por isso é que muitos activistas políticos de 69 e de mais tarde, eram repúblicos. Há um certo preconceito, infelizmente, pois somos encarados como reaccionários ou festeiros, por mais calma que a casa seja. Naquelas casa também se estuda e se formos ver as histórias das casas saíram grandes nomes de todas as casas. As repúblicas sempre fizeram parte da história de Coimbra e sempre vão fazer. Só que as pessoas pensam que estas casas são de quem lá mora! Não é! As repúblicas sempre foram e sempre serão de Coimbra e dos estudantes que por cá passam. As pessoas se quiserem entrar, batem à porta e dizem: "quero conhecer a tua casa” e a porta abre-se. É o mundo que melhor representa a heterogeneidade que existe nesta cidade.

 A.V. - Parte da tradição académica coimbrã passa pelo traje académico e pela praxe. Qual a posição da R.R.L face a esta questão? Porquê?

P.A. - A minha república é anti-praxe, como a maior parte delas, e penso que isso não vai mudar. Contudo, com o tempo tem vindo a ter uma atitude mais branda. Na minha opinião, as repúblicas têm de se adequar ao tempo e isso foi acontecendo com a minha casa. Antes na R.R.L. nem um trajado entrava, agora a casa continua anti-praxe mas não anti-traje. São coisas que diferenciamos muito bem e que a maior parte das pessoas não diferencia. Uma pessoa que entre para a R.R.L, se quer ser praxada isso é com ela, mas não pode exercer praxe sobre ninguém. Nesse caso é convidada a sair porque vai contra os valores da casa. O traje representa os estudantes, não representa a praxe, e nós compreendemos que é um momento da vida estudantil de cada um, por isso não impedimos ninguém de o fazer. Mas quando entram praxistas lá em casa, que não deixam de ser bem-vindos, mas tentamos doutriná-los. Comparativamente com algumas repúblicas, temos uma postura muito aberta, visto que um dos nossos comensais, além de praxista é monárquico, numa casa com raízes comunistasPortanto, somos anti-praxe, não somos femininistas e não temos objecção ao traje.

A.V. -  Muitos jovens estudantes, de outros locais do país, procuram visitar a cidade, de forma a conhecerem a vida universitária. Até que ponto podem pernoitar, por dois ou três dias, na R.R.L?

      P.A. - Qualquer pessoa tem liberdade para bater à porta da R.R.L., sejam estudantes de fora ou não-estudantes. E é sempre bem-vindo em qualquer casa, não é só na nossa. Cada indivíduo pode querer bater mais à porta de uma do que de outra, pois temos características que nos diferenciam. Para a casa não parar no tempo, para evoluir, tem de ser um espaço aberto. Temos de mostrar como vivemos e não há melhor forma de o fazer se não abrir as portas da república. Acho que é muito melhor do que ficar num hotel frio, sem conhecer nada.
          
         

       Por Ana Veiga Grupo 4

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