sábado, 22 de janeiro de 2011

"Ter a consciência que se é dependente [do Facebook] é importante" - Entrevista a Sara Meireles Graça

Sara Meireles Graça é professora do curso de Comunicação Social, na Escola Superior de Educação de Coimbra e Doutoranda em Ciências Sociais, na variante de Sociologia, no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL).

Ana Veiga [A.V.] -  O que leva as pessoas a aderirem ao Facebook?

Sara Graça [S.G.] - Aquilo que nos pode fazer ligar às redes sociais é o fascínio de termos uma nova possibilidade, uma coisa nova que existe na internet e que nos possibilita falar com os outros à distância. E estarmos permanentemente ligados a amigos, conhecidos ou menos conhecidos. Estamos constantemente interessados em falar com eles, do ponto de vista da mera comunicação. A primeira intenção de alguém que adere a uma rede social é encontrar ou reencontrar amigos que estão lá. É uma necessidade de comunicação com as pessoas mais próximas, temos um novo meio para chegar até elas.

A.V. -  Qual o impacto que causa na vida social dos utilizadores?

S.G. - Acho que varia. Dependendo do tipo de utilizador e dos usos que lhes dão. Há muita gente interessada em fazer estudos teóricos sobre esta rede, mas eu conheço-a mais na óptica do utilizador. Eu própria sinto que cria novos hábitos, por exemplo alguém que está ligado ao mundo noticioso, deixa de ir directamente à página do jornal e vai directamente ao Facebook. Antes acordava-se e ligava-se a rádio, agora é o computador e o primeiro link é o Facebook. Ainda temos de descobrir o porquê dessa mudança, mas é obvio que é um hábito pelo facto de o Facebook agregar toda a informação numa só página, havendo informações vinculadas, que servem a nossa necessidade de informação e permite-nos também saber o que os outros acham dessas mesmas coisas. Isso talvez tenha criado esta nova rotina. É importante saber como em 5 anos esta nova tecnologia passou a estar 24horas por dia presente na vida dessas pessoas.

A.V. -  Porque é que o Facebook se destaca das outras redes sociais?

S.G. - As redes sociais são mais que um mero chat online, é uma rede de trocas: notícias, vídeos, coisas que temos em comum uns com os outros. Veiculamos os nossos próprios gostos, podemos ir ao Youtube buscar uma música e colocarmos online para partilhar com quem nos está a ver. Daí partimos para uma comunidade virtual, em que as pessoas não estão em presença mas estão em comunicação. Acabamos por ter naquela plataforma uma série de serviços disponíveis. Enquanto o HI5 está ligado ao chat, com a comunicação online entre as pessoas, o Facebook além de servir para isso, serve para trocas de conteúdos diversos.
Ele surge num determinado objectivo que é comunicar com o outro, depois ganha outras vidas e outros interesses que as pessoas vão descobrindo, à medida que as vão utilizando. Quando essa nova hipótese foi inventada, quem a inventou não estava a pensar em todas as variantes desta rede social. Estas variantes vão sendo construídas.

A.V. -  Cada vez mais cedo, as crianças têm acesso livre à internet. Acha que esta rede social pode provocar alterações no desenvolvimento pessoal e comportamental desta faixa etária?

S.G. - Acho desde logo perigoso colocar livremente crianças e adolescentes nas redes sociais. Porque ao contrário dos adultos, que têm alguma consciência do que é revelado, da sua intimidade, porque partilhar a tal música de manhã, é partilhar um pouco da minha identidade. Essa pode não ser muito problemática mas pelo simples facto de eu estar online, permitindo a alguém mostrar que eu estou online é partilhar a nossa privacidade. Mas retomando a questão das crianças, sabendo que ela está ali, se é permitido a alguém que ela pôs como amigo, que ela nem sequer conhece, que comece a ter diálogos com essa mesma criança, apresentando-se como alguém da sua idade e que, na realidade, não o é. Nós quando aceitamos alguém na internet, aquela pessoa que estamos a pensar podemos não ser exactamente aquela pessoa que ela é. São então criadas relações de confiança entre pessoas que são desconhecidas. No caso das crianças é problemático pois existem redes de pedofilia dentro do Facebook, e elas dão informações suficientes para alguém chegar até elas. Acho importante que haja um acompanhamento por parte dos pais, quer na televisão, quer na internet. Eles têm de ser um filtro. A existir essa possibilidade de as crianças irem à internet, e eu não sou da opinião de que elas devem ser proibidas de aceder a essas redes, deve ser feito com muita vigilância.
Quanto ao desenvolvimento da criança, eu acho que modifica pois uma pessoa que seja sua amiga e ache que ela tem um desenvolvimento mental avançado, não a estamos a identificar como uma criança, e temos um diálogo com ela muito desenvolvido. Ou então ela está na nossa rede de amigos e eu comento no meu mural algo de carácter político e ela vai receber tal informação que não é adequada àquela criança.

A.V. - Acha que existe uma dependência por parte dos utilizadores para com o Facebook?

S.G. - Já há clubes, tipo alcoólicos anónimos, para o Facebook, para pessoas que estão viciadas à rede, porque, de facto, cria dependência. A partir do momento em que passa a ser uma rotina, em que sentimos necessidade de ir à rede diariamente e, quando lá vamos, não temos noção do tempo a passar,é considerado um vício. Até já há planos de descarregamento tecnológico que nos dizem: “ok, estás naquela rede mas só estarás meia hora.” Passado esse tempo surge um alerta que avisa: “já estás aí há meia hora!” e as pessoas nem se dão conta. Mas para ter vícios é preciso ter tempo porque, por exemplo: nós queremos partilhar uma música, que nos veio à cabeça quando acordámos. Vamos a outra rede, o Youtube, procuramos a música e passamo-la para o nosso mural do Facebook. Temos de ter tempo para ir ao Youtube. Depois achamos que aquele vídeo, apesar de ser aquela música, não tem um videoclip que caracteriza bem aquela música. Como existem milhentos para aquela música vamos pesquisar qual é aquele que tem melhor imagem. E assim nem damos pelo tempo a passar. Depois há a questão de que existem pessoas de partilhar a tal música todas as manhãs. Isso é uma dependência. Mas ter a consciência que se é dependente é importante.


Ana veiga  - Grupo 4 

1 comentário:

  1. ... não me lembro nada do contexto em que aconteceu esta nossa conversa, Ana. Hoje encontrei este 'post de pescada' e pensei: terá sido após uma aula, assim sem mais? ;-)

    ResponderEliminar