quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Anorexia: Quando o espelho é o pior inimigo



Em 2004 surgiu na Alemanha um restaurante, no mínimo diferente, que foi vítima de polémica devido a uma característica muito especial: é dedicado a pessoas anorécticas. A fundadora deste restaurante sofreu também desta doença e aponta a incapacidade para apreciar a comida como um dos problemas que atingem as vítimas de anorexia. De facto, os anorécticos transformam uma simples refeição familiar numa enorme carga de tensão, uma vez que tentam disfarçar a “falta de apetite” - que eles próprios provocam - de modo a que ninguém perceba o seu problema. É neste contexto que Katja Eichbaum vê o seu restaurante, como uma forma de os anorécticos se divertirem a comer sem receios, pelo que denominou os pratos com nomes que não se relacionam com os seus ingredientes de modo a que, para pedir um prato não seja necessário falar em comida. Por exemplo, se desejar uma deliciosa receita à base de lagosta basta dizer “Hallo” (“olá” em alemão). O ideal do restaurante “Sehnsucht” (“saudade” em alemão), é precisamente ajudar as pessoas que sofrem de distúrbios alimentares, devolvendo-lhes a sensação de distracção que uma refeição pode proporcionar, já que a tendência destas pessoas é refugiarem-se de refeições em público.

Os media têm sido fortemente atacados por se acreditar que veiculam um modelo sociocultural de beleza baseado na magreza extrema. É certo que se dedicam programas e revistas inteiras aos cânones de beleza em vigência, mas é na moda que reside o principal impulsionador da anorexia. Joana (nome fictício) tem 20 anos,  1,70m e uns escassos 43kg e afirma “o meu sonho sempre foi ser modelo mas quando me olho ao espelho acho que ainda não estou suficientemente magra”. O mundo da moda preenche o imaginário de muitas adolescentes mas cada vez mais é preciso alertar para o perigo da anorexia de modo a evitar testemunhos como o anterior. Um corpo magro é associado a beleza, sucesso e felicidade que conduzem a dietas extremas e perigosas. Mas o que poucas adolescentes sabem, é que a anorexia pode provocar sérios danos no sistema reprodutor feminino, pode detectar-se através da descalcificação dos dentes, do crescimento retardado ou até paragem do mesmo com a resultante má formação do esqueleto, de depressões profundas ou até através de tendências suicidas.

Eis alguns números que vale a pena saber: 1 em 5 mulheres sofrem de distúrbios alimentares, 70 milhões de pessoas no mundo têm distúrbios alimentares, 15% dos anorécticos são homens, em cada mil adolescentes dois a cinco sofrem de anorexia,  a cada 5 pessoas anorécticas 1 morre. Uma delas foi Ana Carolina Reston que faleceu em Novembro de 2006, aos 21 anos, vítima de uma infecção generalizada provocada pelo estado de extrema fraqueza. A modelo brasileira tinha 1,74m de altura e pesava 40kg.

A publicidade é também um sector muito associado à anorexia. Neste sentido, o fotógrafo italiano, Oliviero Toscani, lançou em 2007 uma campanha contra a anorexia em plena semana da moda em Milão. Esta campanha, financiada pela marca de roupa Nolita, recorre à imagem chocante da modelo francesa Isabelle Caro com somente 32kg para o 1,65m de altura cujo objectivo era precisamente chocar para sensibilizar para os perigos da anorexia. E foram mesmo esses perigos que vitimaram a modelo a 17 de Novembro de 2010, uma vez que o grave distúrbio alimentar que possuía desde os 12 anos lhe arruinou irreversivelmente a saúde. Assim, aos 28 anos, Isabelle Caro não resistiu aos efeitos de uma pneumonia.
Apesar de todas as sensibilizações e apelos como o da marca de roupa Nolita, o aumento da incidência sobre a população é progressivo e não tende a parar. Qualquer tentativa de fechar os olhos a este problema será em vão, visto que se torna cada vez mais vulgar convivermos com pessoas afectadas por esta doença. Deste modo, a nossa consciência e sentido racional obriga-nos a reflectir sobre este assunto para que as mortes de Isabelle Caro, Ana Carolina Reston e todos os restantes anónimos espalhados por esse mundo fora não tenham sido em vão.

Eduarda Barata R2


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