quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tema Livre: Entrevista a Apolino Teixeira



Terminara mais um treino de minibasquetebol e, entre aquele grupo de jovens traquinas e bem-dispostos sobressaía um veterano treinador, com os seus cabelos muito brancos, denotando um pouco de cansaço mas tendo nos lábios um sorriso de satisfação por, mais uma vez, ter procurado dar algo da sua experiência para um basquetebol melhor.

Apolino Teixeira já completou setenta e nove anos de idade, cerca de sessenta de treinador, ostentando um “curriculum” que engloba mais de uma dezena de títulos distritais nas categorias de formação da Académica, quatro títulos nacionais de juvenis e um de seniores, conquistado em 1959, que, por acaso, corresponde ao último ganho pelos escolares, além de duas presenças em finais.

Aos vinte anos inicia a sua carreira profissional no Banco Totta & Açores, passando a ser jogador/treinador. Foi dirigente da AAC e integrou o seu Núcleo de Formação. Foi, também, um dos fundadores da Associação de Basquetebol de Coimbra e presidente e vice-presidente do conselho técnico, durante cinco e quatro anos, respectivamente. Colaborou com a RDP, fazendo comentários de jogos de basquetebol e colaborou no Diário de Coimbra, sobre basquetebol, durante quarenta e seis anos, chegando a chefiar a secção desportiva. Como treinador conquistou dezassete títulos regionais, disputou seis meias-finais nacionais. Foi seleccionador distrital. Foi árbitro durante três épocas. Faz parte do actual Conselho Consultivo da Secção de Basquetebol e colabora activamente no Minibasquete da Académica.
Amavelmente, Apolino Teixeira, quando contactado, acedeu a falar-nos da sua vivência no basquetebol e do momento actual da modalidade a nível nacional.


Pedro (P) - Quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira?

Apolino Teixeira (AT) - Sempre que tive conhecimento que os meus atletas, ou antigos atletas, estavam a ser úteis à sociedade na vida adulta, foram momentos de grande alegria. Formar jovens só para meterem mais “cestos” que os adversários, corresponde apenas a parte da função de um treinador, especialmente se trabalha com equipas de formação, que foi, quase sempre, o meu caso. Naturalmente, que os títulos conquistados também corresponderam a momentos de felicidade até porque essas alegrias correspondiam ao meu “salário”, pois nunca recebi um centavo da Académica.


(P) - Como vê a situação do basquetebol em Portugal?

(AT) - O basquetebol está mal como o País. Cada clube da Liga tem três americanos, alguns demasiadamente medíocres, e os melhores jogadores nacionais estão concentrados em poucos clubes. A liga Profissional de Basquetebol faliu e a Federação, de forma inteligente, aproveitou tudo o que ela tinha de negativo.

No capítulo de formação as provas arrastam-se sem quaisquer alterações, há largas dezenas de anos. Não se vislumbra sequer um pouco de imaginação. Como os clubes não têm dinheiro para pagar a treinadores credenciados, que são uma minoria no País, os jovens terminam a fase da formação sem capacidade para entrar num basquetebol mais evoluído e, regra geral, desistem.

O Director Técnico da FPB teve a ideia luminosa de arranjar centros de estágio, um sorvedouro de dinheiro, para ostentar nas selecções, infelizmente sem resultados aparentes, mas não se preocupou em auxiliar convenientemente as associações ou os clubes.

Em Coimbra, as infra-estruturas desportivas são tão diminutas que não dão quaisquer hipóteses de aparecerem novos clubes, sendo paupérrimo o panorama competitivo.

Repare-se, por exemplo, na Académica que tem cerca de 250 atletas em actividade, sendo 120 dos minis, não tem um pavilhão, nem um local certo de reunião. Embora longe do ideal a Académica procura, com entusiasmo, apresentar uma escola de basquetebol que lhe garanta o futuro, mas, para isso, as equipas estão divididas pelos pavilhões das várias escolas, o que além de oneroso, não propicia um produtivo contacto entre atletas e treinadores.

Refiro o que se passa na Académica, pois é o centro que melhor conheço, acreditando que se possam estar a fazer coisas muito interessantes noutros clubes.


(P) - Como está a ver a formação da Académica?

(AT) - Perante esta situação, tenho de concluir que a formação se encontra num plano muito aceitável. Actualmente temos muitos atletas em actividade, o que trás responsabilidades acrescidas a quem dirige, pois, perante tanto material humano, existe a obrigação de ter um bom comportamento no escalão etário de iniciados (masculinos e femininos), nas próximas épocas. Felizmente, a Secção possuiu um bom lote de técnicos e outros a despontar, a quem deverá ser proporcionada uma formação contínua.


(P) - Quais as principais dificuldades para um trabalho com maiores resultados?

(AT) - É impossível obter resultados valiosos a nível nacional, escalões de formação, enquanto não tivermos um recinto próprio. Pelo que tem feito (pelo basquetebol), ao longo das últimas cinquenta décadas, a Académica merecia muito mais apoio e melhores condições de trabalho.
Por outro lado, a competição distrital é deficitária no capítulo técnico, pelo pequeno número de equipas a praticar basquetebol, e esse facto reflecte-se no confronto com Lisboa, Porto e Aveiro.


(P) - Que mensagem quer deixar (aos nossos leitores)?

(AT) - Uma Secção que trabalha com tantas limitações, que tem quase todas as equipas (masculinas e femininas), em plena actividade, merece um carinho especial de todos os que, em Coimbra, gostam de desporto. Ficaria radiante se o pavilhão tivesse uma grande moldura humana nos jogos que faltam disputar. Para mim, seria um feliz regresso ao passado.




Pedro Silva


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