quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Mesmo Debaixo Do Teu Nariz


Portucel

Local de passagem do Rio Vouga, Cacia  é uma freguesia que pertence ao concelho de Aveiro. Ronda, aproximadamente os sete mil habitantes. Conhecida como “ A Avozinha de Aveiro”, adquiriu importância a nível nacional pela sua industrialização. Contudo, a sua verdadeira “fama” advém do seu “cheirinho”!
Ninguém lhe fica indiferente!


A sirene tocou é sinal de mau presságio. É assim há muitos anos na Vila de Cacia. Soa como um toque de aviso, algo de mal está acontecer. A sonoridade transmitida pela fábrica Portucel, não deixa margem para dúvidas, e consciencializa a população caciense para o ocorrido. A distinção é simples, e faz-se consoante o número de toques, um toque implica ocorrência de uma acidente, dois  é presença de fogo, e por último, três significa que algo aconteceu fora da área da empresa, explicou António Pinto, ex- trabalhador da Portucel, fábrica de papel.
  
 Oriundo do Norte do país, este homem, partiu da sua terra natal com 34 anos.  Casado e com três filhos, não hesitou na mudança. Trazia apenas a esperança de uma vida melhor. Não era o único. Muitos foram os Homens que abandonaram a terra que os vira nascer. Não por gosto, mas por pura necessidade.“ Não conseguia viver apenas da agricultura. Quando soube, pelo meu cunhado, que a Celulose, agora Portucel, estava a precisar de trabalhadores,vim.”

A primeira sensação é indescritível, a terra que os acolherá nada tinha haver com a beleza e genuidade da sua. Já não havia o cheirinho do campo, o verde da floresta nem a tranquilidade da sua aldeia. Essa essência fora trocada. Por outro lado, viviam agora, numa zona que começava a tornar-se industrial.

Vivia-se o ano de 1967, e o característico cheiro de Cacia, que continua a perdurar no tempo, foi o que mais fez confusão á família Pinto. Intenso e, simultaneamente nauseante, este odor é considerado repugnante. Exercia a função de analista, ou seja, controlava a quantidade de lixívia, verificando se a pasta estava crua ou demasiado cozida, fazendo posteriormente o ajuste. Lavorou na Portucel até à reforma. Por isso, conhece as entranhas da fábrica. Uma das imagens que melhor retém  da empresa são os inúmeros carregamentos de lenha.Continuam a chegar diariamente. É uma das portas introdutórias, para quem entra em Cacia pela primeira vez! Quando questionado pelo odor desagradável que a “Celulose” emite responde: “ O mau cheiro vêm do cozer do eucalipto ou do pinho que misturado com químicos que lhe são colocados, formam a pasta, depois de passarem pelas prensas”.
Matéria prima

Todavia, a Portucel fornecia algumas regalias aos funcionários, como o pagamento da época balnear, na Figueira da Foz, aos filhos dos trabalhadores. Outro tipo de ajuda, era a utilização dos bombeiros nos momentos de aflição.” Antigamente, os bombeiros  ajudavam as pessoas em situações complicadas e nos fogos que ocorriam dentro da vila, hoje isso já não acontece!”, explica António.

Por mais questionável que pareça, o “famoso” odor, reconhecido a nível nacional, não é sentido por toda a Vila. É intenso junto á fábrica. Poucos são aqueles que acreditam! Ou então, os habitantes já habituados pelo fedor, não conseguem fazer a perfeita diferenciação.  Infelizmente, não são só ares poluidores que abundam em Cacia. Há muito que perderam o monopólio.

“Em criança brincava no rio”, conta Cândida Rodrigues. Nasceu em Baião, mas mudou-se com três meses para Cacia. Reconhece que a sua verdadeira terra, é aquela que a viu crescer. Brincava como muitas crianças, perto do rio, admitindo que a água em tempos já foi mais limpa. O rio, chamado Vouga, segue o seu ritmo natural. Passa por Cacia. E talvez, seja nessa pequena porção de território português , que se inunde. A água outra hora,  momento de lazer e descontracção, onde Cândida e suas amigas se divertiam, passou a ser um local morto. Sim, porque Pai nenhum deixa uma criança brincar na sujidade. O Rio Vouga, que abraçava as crianças pela cintura, com alguma transparência, já não o faz. “A água do rio naquela época ainda não estava tão suja, ainda se conseguia ver alguma transparência. Nada comparado como hoje.”, afirma a ensaiadora da empresa Vulcano.

Corpo Privativo de Bombeiros - Portucel
Paralelamente, outro “buraco” de odor duvidoso foi instalado em Cacia, mas precisamente em Taboeira. Tudo que é expressamente asqueroso vai parar aos narizes cacienses. O aterro sanitário de Taboeira é mais um exemplo da poluição grotesca existente. Mas desengane-se, quem pensa que a poluição fica por aqui! A introdução das portagens na A25, nas imediações das freguesias de Cacia e Esgueira (IC1/IP5), bem como, na Zona Industrial  de Aveiro e Angeja provocaram para além do caos nas estradas o agravamento da qualidade do ar.

No âmbito de todas estas problemáticas, nasceu a ADACE. Associação de Defesa do Ambiente de Cacia e Esgueira em 18/11/2001. Têm a função crucial de proteger a natureza e de evitar os efeitos nefastos da poluição já enraizada. Baseado no conceito : “ Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado”. É um pequeno grande passo para a mudança. É a esperança, e simultaneamente a luta para a sobrevivência!

Como é possível viver em tamanha poluição? A resposta é difícil. Bastante complexa. Talvez como cidadã e habitante de Cacia, local onde sempre vivi, posso constatar que o que me une à minha origem são os laços afectivos criados. Apesar da poluição, Cacia foi a terra que me viu nascer, crescer, que me deu formação. É  lá que reside as pessoas que mais amo. É lá que sou feliz. Talvez, seja esse conjunto místico que una as pessoas à terra. Viver em comunidade é respeitar-nos mutuamente, estando em constante ligação com a mãe natureza!

 por: Márcia Alves

 *Este artigo não foi redigido ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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