quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Uma esperança para o amanhã!

Portugal já tem vindo a sofrer bastante com medidas de austeridade e que continuarão a fazer parte da proposta do Orçamento de Estado do próximo ano. Esta situação coloca muitos entraves na vida dos portugueses e empresas a nível socioeconómico. Numa perspectiva económica, Teresa Costa, gerente bancária, esclarece algumas das perguntas mais frequentes em relação a esta temática.

Posts de Pescada: Qual o impacto destas medidas na vida dos portugueses?
Teresa Costa: No tal cenário é a diminuição da classe média para uma classe mais pobre, uma vez que há um grande risco e diminuição de capacidade de pagar dívidas/créditos bem como adquirir novos bens. Mas para as gerações vindouras, que serão as gerações dos jovens e, se calhar para o país em si daqui a meia dúzia de anos estará numa situação melhor do que a que está atualmente.
Apesar de ser uma situação atual, rápida de empobrecimento, no futuro, penso que o país terá condições mais elevadas de capacidade de se financiar.

P.P.: Quais são os investimentos que as pessoas podem fazer a nível de poupanças?
T.C.: Os investimentos não podem ser medidos só a nível da atividade bancária, porque as pessoas podem fazer poupanças sem ser a nível desta. Quando digo poupanças é tudo aquilo que as pessoas podem deixar de gastar superfluamente, pois, efetivamente, todos nós gastamos dinheiro em coisas que não necessitamos. Isso é uma forma de poupança, independentemente de quererem fazer planos pontuais ou mensais.
Com o dinheiro que vão amealhando e com a redução de alguns prazeres podem fazer poupanças graduais quer em casa quer nos bancos quer através dos certificados de aforro. Há ainda várias opções que as pessoas podem fazer de poupanças, como os fundos de investimento. Digamos que a banca não se resume só a aplicações de depósitos a prazo ou de fundos ou de obrigações. Há muitos investimentos, inclusive quem tem capacidade consegue fazer compras de dívida pública de Estados-Membros.

P.P.: Neste momento quais são as condições de acesso ao crédito?
T.C.: A banca como o próprio Estado, além do capital social e dos seus lucros, financia-se através do Banco Central Europeu (BCE) e é através desse sistema que os bancos depois produzem financiamentos ao público em geral. Não é o estado que põe lá dinheiro. Os bancos têm autonomia financeira total e própria. Financiam-se e vão ao mercado externo e ao BCE para depois emprestarem ao mercado interno.
No mercado interno, hoje, o acesso ao crédito é mais difícil, pelo facto de o país estar num efeito de resgate e os bancos não se conseguem financiar no BCE, onde as taxas estão mais baratas. E, portanto, muitos bancos estão-se a financiar através dos depósitos a prazo dos clientes. Isso traduz que realmente haja uma menor capacidade de financiarem internamente,
visto que os depósitos a prazo são a curto prazo e, normalmente, os financiamentos são a médio prazo.
Mas há dinheiro, há capacidade. Os bancos continuam a ter grande capacidade de financiar. No entanto, um dos factores que está a influenciar o acesso ao credito é o facto de as pessoas não demostrarem terem receitas suficientes para pagar os seus créditos.

P.P.: Como vê a tendência do crédito mal parado?
T.C.: O crédito mal parado ainda vai continuar a subir nos próximos tempos, porque não há estagnação do desemprego. O desemprego vai aumentar por força da redução de custos de receitas dos portugueses no próximo ano e pelo fator desemprego, previsto no próximo Orçamento de Estado. Portanto, o crédito mal parado em 2013 ainda terá uma certa tendência de aumentar a todos os níveis, quer a empresas quer a particulares.

P.P.: Acha que há propensão de as pessoas guardarem o dinheiro em casa com o receio de os bancos falirem?
T.C.: Guardar dinheiro em casa é imprudente. Primeiro, há um risco de serem assaltos; segundo, há o risco de haver um incêndio na casa e terceiro os bancos em Portugal, todos sem exceção, estão com capacidade de cumprir com os seus compromissos. São as únicas entidades internacionais que se regem com rigor e que dependem do Banco Central Europeu.
Os bancos centrais de cada país, em Portugal é o Banco de Portugal, em Espanha será o Banco de Espanha, etc, as normas instituídas pelo Acordo de Basileia e o BCE garantem que as instituições em Portugal tenham menos risco de falência.

P.P.: Há tendências para fechar mais agências?
T.C.: Fechar agências bancárias resulta de uma situação normal em redução de custos. Antigamente, nas grandes cidades, cada instituição tinha um balcão de 500 em 500 m. Hoje, não se justifica, porque as pessoas fazem a maior parte das operações online e não há dúvida nenhuma que as novas tecnologias vieram introduzir um fator de peso. Portanto, a redução de balcões não tem tanto a ver com a possibilidade de falências, mas sim com a redução de custos e também porque as pessoas vão menos ao banco.

P.P.: Qual é o ambiente que se vive nos bancos?
T.C.: Muito bom. Tranquilo. Na instituição onde eu trabalho, os gestores de topo e o próprio presidente reúnem-se regularmente com as equipas. Temos reuniões mensais com o diretor da nossa hierarquia e os próprios administradores são os primeiros a tranquilizar os colaboradores.
Eu não conheço casos de despedimento no meu banco. Porém, há um banco que veio para Portugal e, como tal, não tem a filosofia portuguesa, e propôs rescisões amigáveis; não mandou ninguém para o desemprego, mas deu indemnizações para quem quis aceitá-las.
O banco estava disposto a pagar determinadas indemnizações e houve pessoas que as aproveitaram e foram gerar outros negócios.
Penso que na banca não há efetivamente o perigo de desemprego a curto prazo. Há uma redução do pessoal até porque as pessoas mais velhas vão sendo convidadas para passarem à reforma. Isso é um ciclo natural da vida. É uma redução de custos e não de despedimentos.

P.P.: Qual é a sua posição face ao tema da privatização da Caixa Geral de Depósitos?
T.C.: Eu acho que o Estado tem que ter um banco nacional que lhes dê apoio nos seus investimentos e na sua forma de financiamento e, que neste caso, é a Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Acho que a existência da CGD ligada ao estado deveria continuar. Não quer dizer que haja serviços, como por exemplo, a área de seguros, que é uma área que o estado não tem perfil ou sentido de acompanhar sejam privatizados. E, portanto, nesse contexto faz mais sentido a parte da saúde passar para área privada, cuja gestão é muito melhor do que a um banco de estado.
Relativamente à forma como é gerida a Caixa Geral de Depósitos não me pronuncio, visto não ter conhecimento da sua forma interna de gestão. Mas que não faz sentido privatizar não faz.
 
por: Patrícia Gomes
 
*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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