segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Gaveta da Inocência

Nunca somos exatamente o que parecemos ser. Pelo contrário, por vezes somos bem menos do que mostramos, mais pequenos do que os outros pensam e mais frágeis do que acham os nossos amigos. Porquê? Porque o medo de nos tornarmos demasiado vulneráveis em relação aos outros nos torna pequenos e por vezes insignificantemente infelizes.
Os portugueses têm sido constantemente rotulados como um povo que atualmente sai de casa sem levar o sorriso. Motivos não lhes faltam, desde as regulares medidas de austeridade, aos vários cortes e novas reformas impostas pelos governantes. Juntando tudo ao custo do nível de vida, ao desemprego e à falta de oportunidades que há no país, os portugueses realmente estão pouco entusiasmados com a vida.
“Vai-se andando”, “é assim a vida” e “vamos como podemos” são três expressões que o povo diz vezes e vezes sem conta. Umas vezes para evitar prováveis interrogatórios dos mais intrometidos em relação ao que pudesse sentir e se expressa-se, outras vezes para evitar constrangimentos, fazer favores indesejados e para se sentir como os outros, nem bem nem mal, mais ou menos.
Fomos em tempos grandes impulsionadores e navegadores, foram descobertas terras e povos, foi semeada a cultura portuguesa mas nem todos os frutos colhidos conseguiram manter o seu impacto até aos dias de hoje. Um povo tão inovador coloca frequentemente obstáculos ao desenvolvimento e ao empreendedorismo nacional, com impacto na produtividade e por sua vez no modo de vida e nas oportunidades que cria para os seus.
As pessoas vivem frustradas, tristes, criam sentimentos de culpa e de raiva muito facilmente e ficam “indignadas de braços cruzados”, com situações que desde logo afirmam ser injustas. O problema é que a pobreza deixou de ser exclusivamente material. Hoje em dia há muita pobreza de espírito, perdem-se os valores, não se luta pelos objetivos e não se valoriza o que há de melhor, o que é realmente bom. Há quem enumere por exemplo as mulheres portuguesas, a comida, as praias, as paisagens e alguns lugares de lazer, como os cafés, existindo um leque muito maior para aproveitar.
Necessário é que a garra e a valentia de outrora voltem a pairar no ar. A inocência só deve servir para situações apropriadas a tal sentimento pois está na hora de
se dizer o que se pensa, mostrar o que sente e contribuir com o que se tem. É tempo de o povo português “se deixar de cerimónias” e ter confiança nas suas capacidades.
Se cada um assumir aquilo que é, definir a sua personalidade e demonstrar o que quer, sem tentar passar despercebido neste mundo exibicionista a gaveta da inocência fica mais pequena e a vida melhor. Sim, tudo o que se passa na nossa vida, está ou vai para uma certa “gaveta”. Algumas vão-se fechando outras permanecem abertas ao longo do tempo, mudando de lugar consoante a importância que lhe é concedida em cada fase, e mudando de tamanho consoante o que guarda.
Quando os portugueses deixarem de tentar passar uma imagem de pura inocência em tudo o que fazem ou dizem, como se fossem muito ingénuos, inofensivos, de certo modo ignorantes em algumas circunstâncias, quando isso acontecer e acabar este fingimento, a gaveta de inocência conterá apenas o que deve conter: o enigma do desconhecido.
 
por: Joana Pestana
*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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