terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Hipocrisia (in) visível

O nosso mundo e a nossa sociedade estão indecentemente corrompidos.
Poderia, claramente, debruçar-me sobre uma série de questões de índole política ou algo do género; poderia também revoltar-me acerca do estado actual do meu país e desencadear uma onda frenética de acusações e maldizeres contra tudo e todos (o que não deixava de ser a minha vontade!); … mas não. Preferi focar-me apenas num assunto – aquele que mais me tem incomodado e invadido os pensamentos nos últimos dias.
Era uma sexta-feira tal como todas as outras. Estava frio, o trânsito era o mesmo de sempre, o rio mantinha-se sereno e as ruas da cidade universitária estavam repletas de gente.
Enquanto na minha cabeça pairavam pensamentos privados e muito pouco interessantes, cruzo-me, de repente, com um mundo paralelo. Ou melhor, um mundo que NÓS tornámos paralelo, porque pura e simplesmente quisemos afastar aquelas pessoas do nosso quotidiano como se fossemos superiores ou diferentes deles. Em parte sim, diferenciamo-nos: uma grande maioria de nós ainda tem uma casa onde pode dormir tranquilamente todas as noites, tem comida na despensa, algum dinheiro no bolso, roupa quente sob o corpo, … Mas falta-nos algo tão ou mais importante que tudo isso: coração (!), humanidade.
Refiro-me aos mendigos. Sim, esses seres humanos que teimam em esconder-se pelas ruas e recantos da cidade, cabisbaixos, como se tivessem medo de algo ou de alguém, como se tivessem vergonha de si próprios e da sua condição tão dura e impiedosa.
Somos cruéis e frios. Atrozes. Julgo, inclusive, que muitas das pessoas com quem me cruzo diariamente têm no peito um cubo de gelo, de tão infrutíferas que são.
Olhei para a Baixa de Coimbra. Estava deslumbrante, anunciando já o Natal. Mas esta visão feliz foi imediatamente irrompida pela visão de um mendigo, sentado na calçada fria, com roupas gastas e nada confortáveis, descalço. O pobre homem tinha a mão estendida, convicto de que alguém se dignaria a dar-lhe nem que fosse uma pequena moeda. Mas nada.
Parei uns segundos, encostada a uma parede. A minha cabeça foi invadida por uma vaga turbulenta de coisas; sim, coisas, porque senti pena, raiva, desconforto, tristeza, … Talvez nem consiga explicar a quantidade de pensamentos titubeantes que insurgiram na minha cabeça naqueles breves instantes.
Aquele senhor era invisível. Durante dez minutos, ninguém olhou para ele. Uns deveriam sentir vergonha, outros compaixão, e alguns certamente não se quiseram incomodar e preferiram pensar que não viam absolutamente nada, ignorando assim um ser humano tão carenciado. Estava relutante, mas desencostei-me e fui ao encontro dele. De imediato fui olhada por algumas criaturas, no seu estilo de vida frenético e formatado.
Falei com o senhor. Tinha um nome tipicamente português. Tinha um olhar triste, um ar cansado. As suas mãos estavam gastas, tal como a sua energia para seguir em frente. Fiquei sem saber o que dizer por momentos, apenas consegui articular umas frases súbitas. Dei-lhe umas moedas que tinha na carteira e perguntei se tinha fome. Ele acenou. Senti um aperto no peito. O senhor, com o olhar mais ternurento que já atentei, agradeceu-me. Segui em frente e desejei-lhe sorte. Mas, de repente, fiquei petrificada. O que eu fiz iria ajudá-lo em algo? Não. Fui comprar-lhe um pequeno lanche e quando me baixei para lho entregar, tirei o lenço que tinha envolto no pescoço e dei-lho. O senhor não me respondeu. Os seus olhos ficaram vidrados, lacrimejantes. Eu tentei, num acto cínico, sorrir-lhe como se estivesse tudo bem, e lá me vim embora.
Nada do que disse até aqui foi para me auto elogiar ou para alimentar o meu ego. Não, erro e falho como toda a gente, mas acho que tenho coração.
Construímos uma sociedade de ócio que invoca incansavelmente nesta altura do ano pela “paz”, pelo “amor”, pela “solidariedade”. Somos falsos e hipócritas! Desviámos o olhar na rua quando vemos um mendigo, como se sentíssemos nojo dele, como se ele nos repugnasse.
Mas qual é afinal a ideia de proclamar aos sete ventos que “temos que ajudar o próximo” quando, no fundo, não passamos de uns cobardes que vêm no seu umbigo o centro do mundo!
Somos egoístas e fúteis. É isto que queremos para o nosso futuro? São estes os princípios que vamos inculcar aos nossos filhos um dia mais tarde?!
A vida não é como nos contos de fadas. Nem sempre os finais são felizes e ditosos. Há pessoas a passarem fome e frio. E nós, todos nós, poderíamos mudar a vida deles; porque um só homem não consegue, mas muitos (unidos) conseguem fazer a diferença!
Mais do que nunca, em tempos de tanta dificuldade, é imprescindível ter um sentido de responsabilidade e de cooperação, de ajuda; deixar o materialismo e a imoralidade de parte. Entristece-me e envergonha-me ver o que se passa em meu redor. Temos olhos na cara e fingimos não ver, para ser mais fácil! Quantos de nos não poderiam ter morto já a fome a tantos pobres! Mas não… Vamo-nos acomodando na nossa vida, como se tudo fosse normal e aceitável.
Sinto raiva por saber que aquelas pessoas se sujeitam a uma humilhação tão grande e a uma situação completamente deplorável em troca de nada – porque NINGUÉM repara neles!
Se Natal é paz e amor para todos, então façamos mais!, e que seja mesmo para todos. Olhemo-nos ao espelho e paremos para pensar que um dia poderá ser um de nós e estar numa situação ruinosa como aquela.
Magoa-me profundamente o desprezo que lhes é dado. É desumano. Abramos os nossos olhos e a nossa consciência (?) para estes visíveis invisíveis que tratamos como lixo da nossa sociedade.
E como diria Barão de Montesquieu, “ A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos.”
A miséria nos dias de hoje (http://peixinhodetroia.files.wordpress.com/2009/05/mendigo-maos-pb.jpg?w=450&h=327)
 
Por: Sofia Rocha
*Este artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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