domingo, 2 de dezembro de 2012

O jornalismo e o silêncio de Aníbal Cavaco Silva

Lisboa. Salão Nobre da Caixa Geral de Depósitos. Dia 22 de Novembro de 2012. O motivo? Cerimónia de entrega dos Prémios Gazeta de Jornalismo 2011.
À partida, o que ocorre na cabeça de qualquer um de nós é a imagem de uma qualquer comemoração, se é que assim deve ou pode ser tratada. E foi, de facto. Ou deveria sê-lo.
O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, participou neste jantar anual do Clube de Jornalistas, no qual foram entregues os Prémios Gazeta de Jornalismo 2011; prémios estes que visam homenagear as pessoas e as entidades do meio que mais se destacaram ao longo do último ano.
Um Presidente, no sentido lato da expressão, é alguém que preside, que chefia, governa, “manda”. Está acima de todos os outros numa hierarquia política. A última palavra cabe-lhe sempre a si. Mas um Presidente, não deve só guiar a sua conduta e as suas funções por estas bases tão fracas e mal alicerçadas; deve, sim, reger-se por um sentido de protecção, preocupação com o seu povo e a sua nação e, mais ainda, colocar os interesses do país acima de quaisquer outros.
Numa cerimónia tão digna quanto esta, o que os jornalistas presentes (e os portugueses) esperavam era um Chefe de Governo neutro e disponível para louvar os supra referidos.
Talvez não tenha sido bem assim. Talvez não tenhamos um senhor assim tão bem-disposto, compatriota e sorridente à frente do nosso (pequeno) Portugal.
Talvez. E talvez a culpa não seja única e exclusivamente dele. Talvez seja nossa. Ou talvez não.
Durante a mediática cerimónia, o Sr. Cavaco Silva foi invadido pela titubeante ideia de fazer uma intervenção; intervenção esta que podia ter sido feliz. Mas não foi, na maioria das opiniões e para espanto de alguns que ainda permanecem crentes neste pedacinho de terra lusitano.
No seu discurso vamo-nos apercebendo de quão austero e desconfortável está o nosso país. Diria, aliás, insuportável.
Os jornalistas encontravam-se na sala, esperando ansiosamente ouvir os seus nomes pronunciados e verem reconhecido o trabalho de um ano. Esperavam ouvir elogios enormíssimos do Presidente do seu país. Mas não foi bem deste modo que as coisas se desenrolaram.
Ficamos petrificados com um discurso que se desdobrou em torno do seu silêncio, da sua altivez exacerbada, do seu tom irónico e incomodativo de voz – nada típico de um indivíduo que pauta pela sobriedade e pertinência entre o que vai dizer, onde vai dizer e a quem vai dizer.
A verdade, lá no fundo, é que já nenhum de nós espera muito deste Senhor. Nem dele nem de nenhum dos seus companheiros. Dissuadiram-nos de tal! O país vai caminhando a um ritmo que nem é lento nem rápido… Não é nada. Ou melhor, talvez seja vagaroso e relutante. Incomodativo. Destruidor, provavelmente.
E o que ouviram então os presentes na nobre cerimónia? “Só o meu amigo Mário Zambujal me convencia a estar aqui, que eu não queria vir” … “Sabia que teria que subir a este pódio e quebrar o meu silêncio.” Mas teria este senhor alguma amarra invisível? Estaria algemado e ninguém viu?!
Afinal, e segundo as palavras do próprio, o Senhor Aníbal Cavaco Silva estava a “reflectir sobre a forma de evitar a sua presença na cerimónia de atribuição dos Prémios Gazeta (…)”.
Como qualificamos isto? Não sei. Acho simplesmente que ignoramos, como fazemos com quase tudo o que vai sucedendo, dia após dia. Ou então manifestamo-nos, nesta democracia cada vez mais encapotada. Esta cerimónia e este discurso são a prova de que o jornalismo, tal como o (ainda) nosso Portugal estão em crise e decadência profundas.
E, como diria William Shakespeare, “Os homens deviam ser o que parecem ou, pelo menos, não parecerem o que não são.”.
 
Cerimónia de entrega dos Prémos Gazeta
(http://www.presidencia.pt/?action=12&id1=70197&id2=&id3=70215)
 
por: Sofia Rocha
*Este artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
 

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