domingo, 16 de dezembro de 2012

Um café e uma farpa: “Imprensa de Pombal: morreu ou mataram-na?”



O tema do debate do ciclo Um Café e uma Farpa, promovido pelo blogue Farpas Pombalinas, centrou-se no fim da imprensa na cidade de Pombal. O encontro realizou-se na noite da passada sexta-feira, dia 7 de Dezembro, no Hotel do Cardal, em Pombal. Este debate, como todos os outros que já ocorreram do mesmo ciclo, era aberto ao público. A iniciativa, que já dura desde Setembro do presente ano, assume-se como “um espaço de discussão, com duração de uma hora e meia, sobre um tema actual lançado por duas personalidades, com visões contrárias do mesmo.”

O propósito deste último debate surgiu após o encerramento do único semanário do concelho – O Correio de Pombal – na sequência de um processo de insolvência. Esta questão foi sendo bastante abordada no blogue, que lamentou o fim da imprensa local. Os intervenientes foram Paula Sofia Luz, antiga jornalista na Rádio Clube de Pombal e n'O Correio de Pombal, dirigiu o jornal O Eco, em Pombal; foi jornalista e editora no jornal Região de Leiria; colaborou com os jornais "i" e Diário de Notícias e é actualmente jornalista freelancer, que se centrou na posição “Imprensa de pombal: mataram-na”; com um ponto de vista contrário, Alfredo Faustino que foi jornalista assíduo da região e agora reformado, defende que a imprensa pombalense morreu.

Paula Luz começou por questionar-se se aquando do encerramento de O Correio de Pombal, este ainda estaria vivo. Lamentou a falta de reportagens e entrevistas, traços de um jornal local, notícias do quotidiano do concelho. Contrariamente, o semanário continha excessivos anúncios/publicidade, aspectos que nada tinha que ver com a linha editorial de um jornal. A jornalista revela ainda que “o sector político da cidade lida mal com críticas, o tecido económico desvaloriza a importância dos media, os serviços raramente pagam assinaturas e os leitores, numa larga escala, optam por ler o jornal à mesa do café, sem o comprarem”. Paula terminou a sua intervenção visando o panorama nacional: “num país em que para abrir uma farmácia, o responsável tem de ser farmacêutico, para abrir um infantário tem de ser educador de infância, mas para abrir um jornal qualquer um pode fazê-lo, não seria de esperar que o resultado fosse outro. Por tudo isto, quando me perguntam o que aconteceu afinal à imprensa de Pombal, só me ocorre dizer que obviamente mataram-na!”

Com uma perspectiva contrária neste debate, Alfredo Faustino, que defendia “a imprensa morreu”, realçou que a imprensa local é apenas o resultado de várias circunstâncias pouco positivos que se passam no concelho, ou seja, o facto de não possuir “massa crítica capaz de gerar a mudança, de sustentar projectos ambiciosos” e também pouca longevidade das associações. O antigo jornalista criticou, ainda, o retracto da imprensa local no nosso país onde é fácil criar um jornal – “Um fulano regista uma “empresa na hora”, regista um título, contacta uma gráfica e põe um jornal na rua. As notícias vai busca-las à net, aos comunicados das empresas, das câmaras municipais ou dos partidos; pede a um ou outro amigo que lhe escreva uns textos a que chama pomposamente de crónicas (às vezes  num português sofrível), junta uma fotos e os primeiros números estão garantidos.” – acrescentou.

Segundo o orador, o Correio de Pombal também morreu por culpas próprias, pois foi alvo de algumas crises estruturais, acabou por ser rotulado como título de poder e chegou mesmo ao ponto de deixar de ser feito por jornalistas. A sua intervenção acabou com um apelo aos “possíveis interessados em ressuscitar um jornal em Pombal”, tendo em conta que o mais importante é deixar os idealismos de parte e apostar numa nova reformulação do jornal.

Após estas duas intervenções deu-se início ao debate entre todos os presentes, cujas opiniões foram consensuais: “a falta de profissionalismo na imprensa local; a pouca disponibilidade das empresas para apoiar financeiramente um projecto jornalístico; uma classe política com sérios problemas em lidar com a crítica; um crescente desinteresse dos cidadãos, especialmente dos mais novos, pelos jornais locais, privilegiando novas formas de acesso à informação. Tudo isto num cenário de um país em forte crise económica e num concelho com pouca massa crítica” - foram as principais causas apontadas para a morte da imprensa pombalense, como publicou o Farpas Pombalinas. Carlos Camponez, professor de jornalismo da Universidade de Coimbra, destacou o papel preponderante da imprensa local: “O nosso sentimento de pertença à comunidade necessita de um espaço que dê eco às pequenas notícias, às festas populares, aos resultados desportivos, para já não falar nas secções de necrologia, dos aniversários, do cartaz do cinema e das farmácias de serviço.”

por: Ana Sofia Ferreira

*Este artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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