terça-feira, 28 de outubro de 2014

“Ser voluntária foi uma experiência enriquecedora”




A UNESCO financiou, em 2014, 86 projetos de solidariedade social, pertencentes à organização “Criança Esperança”, que ajudaram as cerca de 48 mil crianças envolvidas nos diversos projetos. Estas acções visam, através da cultura ou do desporto, aliar-se à educação, e ajudar crianças e adolescentes residentes em favelas, no Brasil, a integrar-se na sociedade.
Estas ações contaram com o apoio indispensável de voluntários e Filipa Vieira, aluna de mestrado em Lisboa, passou dois meses em Florianópolis, inserida no projecto que colaborava com a favela Boa Vista.

Porque é que decidiu envolver-se neste projecto de solidariedade no Brasil?
Já há muito tempo que fazia voluntariado em pequenas associações em Lisboa, mas sempre tive vontade de envolver-me em acções que envolvessem mais pessoas, especialmente crianças. A oportunidade de ir para o Florianópolis surgiu quando me mostraram a parceria que existia entre a associação para que colaborava e a “Criança Esperança”.

De todos os projetos, dentro da “Criança Esperança” porque é que escolheu o “Esporte Cidadania”? 
Desde pequena que pratico desporto e sou apologista que o desporto, qualquer que seja, é uma forma de integração. Tive a oportunidade de praticar desporto e ajudar a passar às crianças valores de ética desportiva que devem ser aplicados no dia a dia. 

Que trabalho desenvolveu com as crianças?
Trabalhei com crianças que viviam na favela na Boa Vista, e estas crianças, por viverem nestes bairros, carregam uma imagem pejorativa para a sociedade. O que nós tentamos fazer foi, mudar mentalidades, mas através dos comportamentos destas crianças e adolescentes.

Como foi realizado esse trabalho?
Através de desportos de equipa, sobretudo com o futebol. Aqueles miúdos são uns verdadeiros apaixonados. Todos têm o sonho de poder a vir a ser o novo Pelé ou o próximo Ronaldinho, mas o que nós tentávamos fazer primeiramente, era passar os valores do desporto e como eles podiam utilizá-lo nas suas vidas.
Aquelas crianças convivem todos os dias com drogas, armas e violência. Tentámos que elas criassem uma mentalidade forte, associada ao desporto e à vontade de vencer, e que procurem fintar os obstáculos que lhes hão-de aparecer na vida.

Para além do desporto, desenvolviam outras actividades?
  
Sim. Aliávamos as actividades desportivas com pequenas formações de prevenção de drogas, álcool e tentávamos ainda promover comportamentos éticos e as relações com outras pessoas.

Quais é que são as maiores benesses do programa “Esporte Cidadania”?

Creio que este, como outros projetos de integração social, levam o seu tempo a mudar mentalidades, mas muitas das crianças que lá estavam sabem diferenciar o certo do errado, que para serem bons profissionais no futuro, terão de pôr em prática aquilo que aprenderam connosco e que a educação é muito importante. Foi muito difícil para eles aprender, e ainda hoje é, o que é o trabalho de equipa, porque muitos dos jovens que lá estão, já se habituaram a contarem apenas com eles próprios e não conseguem confiar noutras pessoas.

Que papel teve a mentalidade desportiva na educação?

Quando estive no Brasil, o projecto já decorria e muitas das crianças já estavam de férias da escola. Mas pelo que pude perceber, a maior parte delas, teve um rendimento melhor desde que estão no “Esporte Cidadania”. Elas conseguiam colocar a mentalidade desportiva na sua vida quotidiana.

E como foi para si, o contacto com esta nova realidade?

É uma cultura de facto diferente da nossa mas ao mesmo tempo com muitas semelhanças. Nunca tinha tido a oportunidade de estar perto das favelas e da sua realidade. Apesar de não ter vivido na Boa Vista no período que estive no Brasil, já que os voluntários tinham sítio para ficar fora da favela, o contacto era de certa forma permanente. O campo onde fazíamos as atividades desportivas era perto, mas em momento algum me senti em perigo. 

Para si, o leva desta experiência?

Como referi, já tinha trabalhado antes como voluntária, mas esta foi de facto uma experiência muito enriquecedora porque tive a oportunidade de trabalhar com crianças que vivem numa realidade que é distante da nossa.
Posso dizer que as crianças também me ajudaram. É muito comum ouvir-se que favela é só tráfico e violência, mas não é apenas isso. Há pessoas que são diferentes e que lutam todos os dias para dar algo melhor à família e que tentam que os filhos saiam daquele panorama de violência. Ser voluntária no Brasil foi uma experiência enriquecedora.


Por: Cláudia Teixeira 

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