terça-feira, 24 de novembro de 2015

“Conseguir «falar» com as mãos e «ouvir» com os olhos (…)”


Tânia Santos, jovem de 23 anos, concluiu este ano a licenciatura de Língua Gestual Portuguesa na ESEC. Iniciou esta etapa com ansiedades e dúvidas, mas tudo passou assim que teve o primeiro contacto com esta língua. Hoje conta-nos como a sua experiência foi essencial e como a sensibilizou para a forma de ver a Língua Gestual e a comunidade surda.





Quando se candidatou à Universidade, o curso de Língua Gestual Portuguesa foi a sua primeira opção. O que é que despertou o seu interesse?

Antes de entrar no Curso de Língua Gestual Portuguesa, entrei na licenciatura de Comunicação Social em Viseu. Matriculei-me, um pouco por insistência de alguns familiares, mas não era de facto aquilo que eu queria. Então passadas duas semanas, desisti. Fiquei esse ano lectivo em casa, a reflectir sobre o que realmente queria para a minha vida. Durante esse período de tempo, falei com algumas pessoas, fiz algumas pesquisas na internet ao mesmo tempo que ia fazendo uma lista com possíveis cursos, aqueles que me despertavam maior interesse e aqueles em que eu me imaginava a trabalhar no futuro. E foi sem dúvida a Língua Gestual que me despertou maior curiosidade. O facto de aprender uma língua nova, de conseguir comunicar com pessoas surdas, aquela sensação de estar a falar com alguém e mais ninguém à minha volta perceber. Conseguir “falar” com as mãos e “ouvir” com os olhos foi, de facto, algo que despertou muito o meu interesse. Deu-me vontade de querer aprender mais sobre esta língua e esta comunidade.


O curso atingiu as expectativas que tinha em mente?
Quando comecei as expectativas eram realmente muito elevadas, os receios eram alguns também porque tudo era novidade, as pessoas, a escola, a cidade, a forma de comunicar. Mas sim, de uma forma geral o curso superou as minhas expectativas. Apesar de que ao longo dos anos fui-me apercebendo de algumas coisas que poderiam ser alteradas para que o curso melhorasse. Ao longo dos meus três anos de licenciatura, o momento alto foi mesmo quando comecei a conviver com a comunidade surda, quando comecei a fazer amigos surdos, quando ia tomar café com eles. Foi aí que tudo começou a fazer muito mais sentido dentro de mim.


Qual era a ideia que tinha da Língua Gestual antes do primeiro contacto?
Bem…a ideia inicial era que tudo era demasiado complicado e complexo. E é. Inicialmente achava que era algo impossível de se aprender e paralelamente a isto achava e ainda acho que é uma língua fascinante, talvez a mais fascinante de todas. Acho mágico poder comunicar com as mãos. Expressar qualquer tipo de sentimento através dos gestos. A ideia que eu tinha antes de saber o que quer que fosse sobre esta língua já era uma ideia positiva, claro que quando comecei a adquirir conhecimento esta ideia reforçou ainda mais.


O aluno é quem escolhe o local onde pretende estagiar, e por vezes não corre como esperado. A sua experiência de estágio foi positiva?
O estágio foi uma experiência fantástica. Foi poder pôr em prática todos os conhecimentos adquiridos ao longo de todo o curso. O experimentar “ser professora”, foi uma experiência bastante positiva.


Pretende trabalhar na área?
Sim, trabalhar na área é um dos meus objectivos, se assim o conseguir.


A Língua Gestual Portuguesa não é de aprendizagem obrigatória. Na sua visão, esta língua deveria ser ensinada desde a entrada na escola, não só à comunidade surda mas também aos ouvintes? E pelo seu contacto com a comunidade surda, consegue dizer qual a visão deles em relação a esta situação?
Sim, era muito importante que a Língua Gestual fosse leccionada como é outra língua qualquer. Seria uma grande forma de inclusão, por exemplo, um menino surdo ir para a escola e todos os colegas conseguirem comunicar com ele. Acho que era importante também para uma abertura de mentalidades, da própria sociedade. Claro que este passo para a comunidade surda seria muito importante. É algo para que todos lutam.


Suponho que ao longo destes anos tenha convivido com pessoas surdas. Como é que elas lidam com o obstáculo da surdez? Sentem-se, de alguma forma, excluídas?
Sim. E é normal que isso aconteça. Especialmente nos serviços públicos, a própria televisão onde muitos canais não têm interpretação, apesar de já ser algo que está a mudar. Aos poucos, mas está a mudar.


No dia 15 de Novembro foi celebrado o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa. Acha que hoje em dia a população ouvinte dá a devida importância e o devido valor à Língua Gestual e à comunidade surda?
Os ouvintes ainda têm alguma dificuldade em aceitar as minorias e é por isso que estas sentem dificuldade em integrar-se na sociedade. Porque tudo é feito e pensado para as maiorias e assim como é natural, acaba por não se conseguir integrar todas as pessoas.


Inês Santos
Grupo 9 

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