sábado, 14 de novembro de 2015

Emigração, uma opção de vida


Vítor Gomes, 31 anos, é um antigo estudante do Instituto Superior de Engenharia de Coimbra. Devido à situação económica do país, viu-se obrigado a emigrar em 2010. Como país de destino escolheu a Líbia, no Norte de África. Mais tarde emigrou para Trinidad & Tobago, que fica no Caribe. Refere que, no futuro, voltar a emigrar é uma possibilidade, mas por enquanto prefere ficar por Portugal.


Porque tiveste necessidade de emigrar? Quanto tempo trabalhaste fora do teu país de origem e onde trabalhaste?
Emigrei porque não tinha mais trabalho em Portugal. Estive a trabalhar fora desde Janeiro de 2010 a Abril de 2015.Estive na Líbia um ano e três meses e em Trinidad & Tobago três anos e meio, sensivelmente.

Como foi a adaptação a duas culturas diferente? E como isso te enriqueceu culturalmente?
Totalmente diferente. Uma é o oposto da outra e as duas são diferentes da de Portugal. Não tinha a ideia de como era o Mundo fora do nosso país. Deu para perceber a nível de quantas culturas, pessoas e maneiras de pensar existem no mundo inteiro.

Podes contar-nos um momento marcante da tua estadia no estrangeiro?

Ui, isso agora! Posso. Uma vez ia a conduzir e fui preso, porque ia a levantar pó. E então os populares acharam que eu ia em excesso de velocidade porque ia a levantar pó. Chamaram a polícia e eu fui preso. Isto aconteceu na Líbia.


Vítor vestido com roupas típicas da Líbia

Estiveste na Líbia aquando a Primavera Árabe. Como conseguiste escapar aos atentados?
Bem, eu não consegui bem escapar. Eu estava lá no meio. Foi um pouco esquisito. Estar lá no meio a ouvir as metralhadoras, os tanques, ver os populares a exibirem armas e ver as viaturas de guerra. Nós saímos das casas, reuniram toda a gente num hotel em Benghazi. Estivemos lá uma semana, uma semana e meia e depois acabámos por sair de barco para a Grécia.

Mas, durante a estadia no hotel, vocês conseguiam ouvir tudo o que se estava a passar do lado de fora?
Claro. Nós conseguíamos sair, mas não o fizemos. Tínhamos a parte de cima do hotel, onde íamos para lá e ouvíamos os tiros e espreitávamos para ver o que se passava à nossa volta. Não era nada famoso.

Como foi deixar os teus amigos e alguns pertences para trás?
Ora bem. Alguns eram expatriados e estavam comigo no hotel. Os outros eram de lá. Eles, basicamente, estavam em casa deles. Tive oferta de casa, de estadia se quisesse lá ficar ou se me sentisse mais seguro ao pé deles e essas coisas. Claro que não fui e nem fiquei em casa de ninguém. Mas foi difícil ver as coisas a desabar, a desmoronar. E nós estávamos lá no meio. Mas tivemos o apoio dos locais que viviam próximos de nós que nos ajudaram. Traziam comida nos tempos em que estivemos em casa, protegiam a casa dos assaltantes e essas coisas assim. Ainda contacto com alguns amigos de lá.

Depois da Líbia estiveste em Trinidad & Tobago. Como te conseguiste ambientar ao clima de lá?
Foi simples à primeira vista, porque eu saí daqui no Inverno e quando cheguei lá estava no verão. Foi simples, foi bom. A questão é aguentar o verão o ano inteiro. Torna-se um bocadinho complicado. Houve dias em que saímos de casa às sete da manhã e já estavam 29°C ou 30°C. Mas na maioria, estavam 25°C, 27°C. O uniforme de trabalho era uma camisa com manga comprida. Era bastante complicado, nos dias em que estava muito sol.

Tiveste mais facilidade em entender logo de início a linguagem de Trinidad & Tobago, visto que eles falavam em inglês?
Nos dois países eles falavam inglês. Apesar de que na Líbia era um inglês muito mau, mas era uma vantagem porque eu também não falava muito bem essa língua. Então aprendi o inglês e aprendi o árabe e ensinei o português, claro. Em Trinidad o inglês era melhor, como é a língua mãe. Falava-se melhor e mais. Mas também havia o inglês com sotaque e o inglês local que é um inglês do Caribe e isso resulta em algumas diferenças no vocabulário.

Então e quais foram as maiores diferenças que sentiste entre a Líbia e Trinidad & Tobago?
Os restaurantes. O clima na Líbia é mediterrânico, basicamente igual a Portugal. Em Trinidad é o clima típico das Caraíbas, é verão o ano inteiro. A nível de cultura, na Líbia eles são muçulmanos, 90% ou 95 %. Temos o domingo à sexta-feira, que é a sexta-feira santa. Em Trinidad & Tobago, há mais uma mistura de religiões, apesar de também haver muçulmanos, também há indianos. Também existem católicos, mas é uma minoria. Apesar de estar perto dos Estados Unidos da América, foi uma colónia inglesa, portanto conduz-se pela direita. Têm hábito de beber chá e têm o fim-de-semana como o usual. Existem restaurantes onde se pode ir almoçar ou jantar, como por exemplo, a McDonald’s, o Burger King, o Fridays e o Subway. Basicamente o fast food ou comida americana. Na Líbia, existia apenas um restaurante que ficava a 80 km de onde eu morava. Nesse restaurante, o preço de um bife era 20 euros enquanto que aqui pagamos 5 euros.

Onde é que foste melhor recebido pela comunidade local?
Nos dois países não tive muitos problemas. Tive uma situação inédita na Líbia. Passadas duas semanas de eu ter chegado, queriam-me fora da obra. Mas ao fim de seis meses exigiram a minha presença. Isto aconteceu porque eles não me entendiam.

Qual é a melhor parte da vida de emigrante?
São as férias! Porque trabalhas muito e depois tens o tempo de descanso. Podes aproveitar esse tempo para viajar. Em qualquer das situações em que estive, trabalhava durante três meses, arduamente, muitas vezes um mês inteiro sem dia de folga. Mas, ao fim de três meses, tinha oito a dez dias de férias. Onde viajei muito. Quando estava na Líbia não. Na altura vinha a casa e não tinha por hábito viajar. Quando fui para Trinidad & Tobago, vinha a casa algumas vezes, mas comecei a viajar e a conhecer outros países, outras culturas. E a vida de emigrante facilita-nos muito essas viagens. Temos mais tempo por ano para viajar. Acaba por ser interessante.


Vítor de férias em Los Angeles


E qual é a pior parte?
Estar longe do nosso país, da nossa família e dos nossos amigos. Deixar tudo isso para trás. E dedicares-te a uma vida que é casa-trabalho, trabalho-casa. Era basicamente trabalho árduo. É muito stress.

Agora que voltaste a Portugal, tens saudades do tempo que viveste no estrangeiro?
É assim, saudades quer seja de momentos bons ou maus, deixa sempre saudades. Porque não é só dos momentos bons que temos saudades. Muitas vezes, também temos saudades dos momentos maus. E esses momentos servem para dar valor quando estamos nos momentos bons. Tenho saudades do tempo em que trabalhava na Líbia. Tenho saudades do tempo em que trabalhava em Trinidad & Tobago. Se pudesse escolher, muito provavelmente, iria para a Líbia. Não pelo país em si, mas pelo modo de trabalhar. Pelo país, voltaria para Trinidad. Mas em tudo temos o bom e o mau. Na Líbia tínhamos um país onde não tínhamos onde sair, divertir e explorar. Mas tínhamos uma qualidade de trabalho boa. Em Trinidad tínhamos uma vida lá fora e um clima incrível. Onde existiam restaurantes, discotecas e bares para onde podias sair, divertir e desanuviar o stress do trabalho. Mas a nível de trabalho, era muito stressante e desgastante.

Podes dar algum conselho para quem pretenda emigrar?
Que não tenham medo, vão. Basicamente é isso. Se soubesse o que sei hoje, teria emigrado mais cedo.

E estás a pensar em emigrar no futuro?
O futuro é um livro em aberto, uma página em branco. Nós nunca sabemos o dia de amanhã. É uma possibilidade emigrar, mas gostaria de ficar em Portugal. Mas não digo que não emigraria novamente.



Liliana Costa 20140734 (Grupo 1)

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