segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Soldado da paz

Francisco José Costa Ferreira, 81 anos, natural de Sintra prestou serviço militar primeiro, seguindo-se depois a guarda nacional republicana de onde saiu mobilizado para o ultramar, mais concretamente para a Guiné. Conta-nos a sua aventura, que diz ter sido “uma experiência que nunca se esquece”. 


Que ideia é que tinha da guerra muito antes de fazer parte dela?
Não sabia do ambiente que lá se vivia. Guerras são guerras e pelas descrições que nós recebíamos aquelas eram extremamente violentas.

Qual foi a sua reação quando recebeu a notícia de que iria para a Guerra, como é que encarou a situação? E os seus familiares?
Eu já tinha indícios porque a mobilização era feita dos mais modernos para os mais antigos e à medida que se ia aproximando de mim eu sabia que estava já próxima a minha mobilização. Com preocupação, sempre.

Com que objetivo/missão iam os portugueses naquela altura para a guerra?
Era a missão de combater apenas os chamados terroristas, a questão das colónias portuguesas.

Para além da função de combater propriamente dita, que outras funções são desempenhadas em ambientes de guerra?
Havia outras missões, de apoio às populações com o objetivo de as cativar para a causa portuguesa, para as afastar dos objetivos da libertação. Ajuda humanitária não havia, apenas apoio de guerra.


Sentiu na pele consequências da guerra?
Sim, sim. Frequentemente tínhamos ações de combate, tínhamos uma área de patrulhamento. A zona da Guiné era bastante florestada, nós tínhamos de caminhar pela floresta, tínhamos de ter a preocupação de evitar rotinas, ou seja, de variar frequentemente os trilhos de marcha, não seria conveniente caminharmos sempre pelos mesmos percursos, quanto mais variássemos mais probabilidades tínhamos de sobreviver. As emboscadas eram frequentes e foi exatamente numa dessas emboscadas que fomos apanhados, saímos da mata para uma zona descampada que se chamavam bolanhas que era uma zona que não tinha nada, no inverno chovia e ficava encharcada de água e quando secava podia-se caminhar, quando havia chuva nem pensar. Quando estávamos já fora da mata fomos surpreendidos, como quem diz, porque ali não havia surpresa. Houve um forte tiroteio e eu fui atingido numa das pernas, com alguma gravidade (fratura múltipla do fémur) mas consegui recuperar. O socorro foi demorado, fui ferido às 06:00 da manhã e fui evacuado às 10:00, foi quando foi possível lá chegar o helicóptero mas para o helicóptero poder aterrar para me transportar tiveram que utilizar dois aviões de combate.

Que cargo é que ocupou dentro da hierarquia de guerra?
Era capitão. Já tinha oito anos de serviço, tinha sido alferes, tenente e na altura em que fui para o ultramar fui promovido a capitão embora já tivesse o tempo suficiente para essa função. Um capitão comanda uma companhia de cerca de 150 homens, evidente que divididos em 4 pelotões cada um com um alferes como comandante.

Durante o período em que esteve na guerra pensava na família, ou seja, sentia que lhe faltava parte de si?
O que nós pensávamos naquela altura era que aquilo passasse depressa para regressar.


Muitas vezes a guerra deixa nos intervenientes marcas para o resto da vida, no seu caso sente que isso aconteceu?
Sim deixou marcas. Há muita gente que tem medo quando houve os tiros, esconde-se debaixo da cama, entra em pânico, mas nesse aspeto isso não acontece comigo, mas fiquei bastante marcado, é uma experiência que nunca se esquece.

Se fosse hoje, sabendo o que sabe, podendo escolher voltava a ir para a guerra?
Não.

Que balanço faz entre o antes e o depois da guerra?
Em primeiro lugar interrompeu a minha carreira onde eu teria futuro na guarda nacional republicana e depois em consequência dos ferimentos já não pude voltar, portanto aí a minha carreira ficou cortada. Não me posso arrepender de ter ido porque na altura era obrigado a ir.


João Sobral

Grupo 4

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