domingo, 13 de dezembro de 2015

Licenciaturas, será que uma chega?

Num país onde a empregabilidade e a crise económica são temas constantes na língua das pessoas surge uma questão importante quanto à formação das mesmas. Portugal tem 17,6% de população com ensino superior mas 8% desta população está desempregada… será que ao obter mais do que um curso de formação ajuda? Valdemar Ramalho, de sessenta e cinco anos, professor de ensino secundário na escola Dr. Joaquim de Carvalho na Figueira da Foz depara-se com o seu último ano como docente e respondeu-nos às seguintes perguntas:

 img.1 Valdemar Ramalho

Quais foram os cursos em que o professor se licenciou?
- Sociologia no ISCTE-IUL, Design no IADE-U em ensino privado e também tirei Fotografia e Cinema enquanto fazia parte do exército, pelos serviços cartográficos do mesmo.

Quantos anos diria que viveu como “estudante” de ensino superior?
- Como estudante gosto de pensar que ainda hoje o sou, mas a estudar no ensino superior passei um pouco menos. O curso de Fotografia e Cinema foi o mais curto que foi de apenas um ano, demorei quatro anos a licenciar-me em Design e finalmente cinco anos em Sociologia, três anos para a licenciatura e dois anos para a especialização em Sociologia da Arte.

Ao licenciar-se em três áreas diferentes certamente pensou nas vantagens que lhe trariam. Quais foram?
- Pode parecer inacreditável mas os cursos que tirei, individualmente, não me trouxeram vantagens quase nenhumas. Trabalhei como operador de câmara na RTP em mil novecentos e setenta durante um ano e meio com o curso de foto-cine. Fui fazendo vários biscates e trabalhos pagos ao longo da minha vida com grande fundamento em Design e Fotografia mas nunca um emprego a sério. Só em mil novecentos e oitenta e quatro é que consegui ingressar numa escola de ensino secundário como professor de história e cultura das artes graças à minha especialização em Sociologia das Artes e da licenciatura em Design. Mas posso aplicar apenas um pouco do meu conhecimento  em sociologia e em design enquanto dou aulas, a outra grande parte apenas me satisfaz intelectual e culturalmente, mas não me ajuda propriamente a exercer o meu cargo.

O professor Valdemar acabou de dizer que entrou no mundo do ensino com os seus trinta e quatro anos. Nunca pensou em ingressar noutro mundo com a vantagem de ter várias áreas de formação superior?
- Pensei em trabalhar em relações públicas com a ajuda do curso de Sociologia ou mesmo em Design de Interiores com o curso de design, mas a triste verdade é que apesar de ter tirado vários cursos era muito difícil arranjar um emprego em que pudesse aplicar todos os meus conhecimentos. Professor de história das artes foi talvez o único emprego que tive até à data em que pude com mais facilidade difundir o conhecimento das minhas áreas de especialização e foi também o emprego que me deu mais prazer em termos intelectuais e académicos.

Com toda a sua experiência de vida, que conselhos pode dar a estudantes que têm interesse em tirar mais do que uma licenciatura?
- O maior conselho que lhes posso dar é para seguirem o que gostam e não perderem demasiado tempo a estudar como eu fiz. Tive sorte em ter uma família que vivia bem assalariada e pode cobrir todos os meus estudos mas poderia ter começado muito mais cedo a exercer algo. Escolham um curso que gostem e se depois concluírem que afinal é tiro no escuro, então aí, e só aí, podem ou devem tentar formar-se noutra área.


Aconselha a outros alunos do ensino superior a percorrerem o caminho que o professor tomou?
- Muito concisamente, não. Arrependi-me a longo termo pois o país não recompensa alunos com mais áreas de formação porque cada área é muito limitada em termos académicos. Nunca encontrei um emprego onde pudesse aplicar conhecimentos de mais do que um curso portanto hoje posso dizer que só tirei proveito de um deles enquanto professor de História das Artes. A decisão do curso acertado deve ser prévia à resolução do mesmo portanto se não gostarem do curso em que estão, sugiro que mudem o mais rápido possível em vez de o completarem por uma questão de orgulho ou de medo de não conseguirem tirar outro curso. Basta um curso para se ser bem sucedido, o resto cabe a cada um de nós averiguar.

img.2 auto retrato de Valdemar Ramalho


Leonardo Ramalho, Grupo 3

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