terça-feira, 8 de dezembro de 2015

De estagiária a colaboradora - Entrevista a Crisália Azevedo

Crisália Azevedo, uma recém-licenciada da Escola Superior de Educação de Coimbra, é agora colaboradora do Jornal de Notícias, mas tudo começou com um estágio, empenho, trabalho e muita dedicação.


      Sempre soubeste que o teu futuro ia ser o jornalismo ou tinhas algo diferente em mente no início do teu percurso universitário?
O caminho para chegar até aqui foi um pouco atribulado. Não posso dizer que quero ser jornalista desde pequena nem tão pouco que sempre soube a área que queria seguir. O meu ingresso no ensino superior também não foi em Jornalismo: primeiro estive um ano no curso de Português na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi um percurso de “tentativas-erro” até chegar a Comunicação Social. A minha escolha no secundário também já não teria sido a mais acertada, mas só mais tarde é que me apercebi que as minhas aptidões em tudo se coadunavam mais com área científico-humanística do que com o curso que frequentava, de Ciências e Tecnologias. Mas mesmo já a estudar Comunicação Social, cheguei a equacionar a possibilidade de seguir o segundo ramo, de Criação de Conteúdos para os Novos Media, por aparentemente ter mais saída e um leque mais vasto de possibilidades para ingressar no mercado de trabalho. Mas o Jornalismo é um caminho que se constrói. Cada jornalista que se forma fá-lo de maneira diferente e com percursos diferentes. 

   Com tantas áreas dentro do jornalismo, porque imprensa?
Primeiro, porque sempre gostei de escrever e o facto de poder contar histórias é algo que me fascina no mundo do Jornalismo. Depois porque acho nobre assumir a tarefa de informar o outro, não fosse o Jornalismo o mediador da democracia.

         O que te levou a escolher o Jornal de Notícias como local de estágio?
O Jornal de Notícias era uma das publicações com as quais estava mais familiarizada e com a qual me identificava, no conteúdo e na forma. E depois porque são mais de 100 anos de “jornais” e “notícias”, com toda a história e prestígio que isso traz.

     Enquanto estagiária quais eram as tuas responsabilidades e quais foram os teus maiores desafios?

O meu estágio no Jornal de Notícias levou-me abandonar a ideia romântica que a maior parte dos estudantes alimenta, acerca do Jornalismo, antes de ter a primeira experiência na área. Ali, eu era claramente uma estagiária, mas fazia exatamente as mesmas tarefas de um jornalista. A nível de aproximação do mercado de trabalho não poderia ter tido melhor experiência. Tinha que atingir os mesmo objetivos que qualquer um dos jornalistas. Com o mesmo rigor, a mesma clareza, a mesma humanização das reportagens. Aliás, a clareza e o rigor são um dos princípios básicos do Jornalismo e é logo o artigo 1º do Código Deontológico do Jornalista: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”. A única diferença é que os serviços que fazia não eram tão exigentes quanto os deles, nem se transformavam em página e meia de jornal. Ainda assim publiquei algumas peças de destaque e todas elas assinadas, algo que não estava à espera que acontecesse antes de iniciar o estágio. Os editores davam-me total liberdade para recolher informação e redigir as notícias. Apenas faziam uma revisão e procediam às alterações necessárias antes das páginas serem fechadas no Millenium – o software utilizado para fazer o jornal. Muitos dos trabalhos revelaram-se um desafio para mim mas quanto maiores os desafios, maiores as aprendizagens e conquistas. Dou-vos um exemplo prático: em março, tive que fazer o balanço do projeto “Paraíso Solidário”, em Vilar do Paraíso, que presta apoio a 220 famílias e distribui 32 toneladas de alimentos por ano. A verba provém de empresas da freguesia que decidiram aliar-se à causa e pagar uma espécie de “imposto social” que ronda os 100/200€ por mês para o programa conseguir dar respostas às necessidades de cada família. O JN noticiou o lançamento do programa e, três anos mais tarde, decidiu recuperar a história. No entanto, entrevistar algumas das pessoas beneficiadas pelo programa não foi fácil pela carga emocional que acarreta dar o testemunho de uma situação tão delicada quanto esta. Uma das entrevistadas vivia com sérias dificuldades económicas e partilhava casa com seis familiares. Pagava uma renda de 360 euros, um valor demasiado alto para os 511 euros com os quais a família se governava. As lágrimas e soluços entre palavas eram uma constante. Toda aquela exposição deixou-me desarmada. A senhora estava a por a sua alma a nú, diante de mim e eu tinha que continuar a fazer-lhe perguntas para obter a informação que precisava, por muito que me custasse fazê-lo. Entrevistei-a mas de uma forma particular: como se tivéssemos a ter uma conversa informal. E a verdade é que a posição que se assume perante uma fonte – formal ou informal – muda bastante a postura e disponibilidade do entrevistado para com o jornalista. Se conseguirmos criar empatia com a pessoa, mais e mais importantes informações ela estará disposta a dar-nos. Este aspeto da comunicação é fundamental para que ela desenvolva as suas respostas e não responda apenas com “sim” e “não”.

5        Alguma vez durante o estágio pensaste que te iam convidar a permanecer enquanto colaboradora?
Não, nunca pensei nessa possibilidade. Fui para o estágio com o objetivo de dar o meu melhor e, acima de tudo, de terminar com sucesso a última etapa da minha formação académica. Nunca pensei que ali se abririam as primeiras portas para o mercado de trabalho porque estava ciente das dificuldades de um recém-licenciado em arranjar emprego. O setor da informação é um mercado extremamente saturado, onde para além de ser difícil entrar, é difícil permanecer. Por ano formam-se em Jornalismo, muitas mais pessoas que aquelas que os media têm capacidade para acolher. E os despedimentos coletivos são cada vez mais frequentes e em maior número. Vejamos o “Sol” e o “i”. Ainda assim, existem sempre alternativas e novos projetos a acontecer.

     Quais são as maiores diferenças entre estagiária e colaboradora?
São cargos completamente distintos. Um estagiário – não desvirtuando as suas responsabilidades e o seu empenho – cumpre funções dentro da instituição, no âmbito curricular. O estágio é a etapa final da formação académica de um estudante e para a grande maioria é o primeiro contato com o mercado de trabalho e com o Jornalismo. Um estagiário está numa publicação para aprender e para melhorar dia após dia. Para fazer cada vez mais em menos tempo e para dizer muito sem serem precisas muitas palavras. Por outro lado, um colaborador faz parte do “pessoal” da instituição embora não seja dos “quadros”. Um colaborador presta serviços à instituição mediática e dá o seu nome a uma equipa que trabalha em prol do mesmo objetivo. É uma questão administrativa e acima de tudo orçamental, porque quanto ao resto, um colaborador e um jornalista são o mesmo.
      
Quais as funções que exerces no JN neste momento?  
Neste momento estou a fazer serviço de Agenda. Um jornalista de agenda não executa trabalho editorial nem redige notícias mas tem nas suas mãos o poder de decidir sobre que temas se irá escrever. Para além de ter conhecimento dos trabalhos que todas as secções estão a desenvolver (e por quem), é na agenda que a informação é filtrada. E a agenda é essencialmente isso - filtragem de informação - por telefone, e-mail ou qualquer outra via – e planeamento. A agenda é uma secção onde são necessárias fontes e, acima de tudo, ter bem consolidado o conceito de valor-notícia. Fazer serviço de agenda não traz visibilidade nem reconhecimento a um jornalista. Ele não produz notícias nem vê o seu nome assinado em nenhuma peça. Na realidade, fazer a agenda não é um trabalho muito exigente mas reconheço que é de grande responsabilidade. A agenda é o "esqueleto" de um jornal. É na agenda onde estão marcados os serviços para os dias seguintes, os horários, os locais, os fotógrafos. Uma pequena falha no horário ou na data, implica que ninguém cubra o serviço, isto é, que o jornal não esteja presente no acontecimento. A agenda, enquanto documento, conserva informações relevantes, durante o seu tempo de vida útil e todas as secções, de todo o jornal, dependem da agenda. É um elemento fundamental mas, devido aos cortes orçamentais, cada vez mais “dispensável” para a organização de um diário. Estou satisfeita com esta oportunidade mas não realizada porque não estou a escrever, que é aquilo que gosto verdadeiramente de fazer embora tenha liberdade para propor temas e escrever sobre eles, como tem acontecido ultimamente, sempre que tenho oportunidade para o fazer.

8      Acreditas que o tipo de jornalismo produzido no nosso país é de qualidade?
Essa pergunta não tem uma resposta fácil. No meu ponto de vista, acho que existe sim Jornalismo de qualidade no nosso país, assim como muito bons jornalistas. Nomeadamente Jornalismo que não é de massas. Mas, como é de senso comum, a informação é muitas vezes defraudada pelo número de vendas e o Jornalismo transforma-se em propaganda e sensacionalismo ao invés de cumprir funções de serviço público. As publicações de massas vivem com a pressão de cumprirem metas e liderarem o mercado e isso é muitas vezes incompatível com informar de forma isenta e rigorosa.
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           Quais são os teus maiores objetivos enquanto jornalista?
Poder escrever sobre todo e qualquer assunto, sem que o tema me possa “melindrar” e criar uma boa rede de contactos. Mas mais importante que isso quero melhorar, dia após dia, para ser uma profissional completa, competente e versátil, o que inclui ser 100% autónoma na produção de conteúdos jornalísticos, desde a fase de recolha de informação até à redação de uma notícia.  

      Pensas completar a tua formação académica de alguma outra forma?
De momento não, mas não excluo a possibilidade de num futuro próximo, conciliar o trabalho com mestrado ou averiguar outras possibilidades compatíveis com as minhas funções no Jornal de Notícias. A verdade é que sinto que ainda tenho muito que aprender e três anos de Licenciatura não são suficientes para adquirirmos muitos conhecimentos. Mas a melhor escola para um jornalista é, sem dúvida, uma redação. 

Grupo 7 no âmbito do tema "Jornalismo e Profissão"
Sara Pestana
Frederica Wilbraham
Roberto Quintas  

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