terça-feira, 15 de dezembro de 2015

“O mercado que era em tempos, jamais voltará a ser o mesmo”


“Olha a pesquinha é a mais barata…a sardinha!”. Foi assim o mote da conversa com o senhor Amândio. Entre bancas de peixe fresco e congelado é logo o que encontramos na porta de entrada lateral do Mercado D. Pedro V, há disposição de quem quer comprar produtos. Há 30 anos a trabalhar neste espaço, revela-nos que “a vida de vendedor de peixe é de escravo”. Afirma que têm “que trabalhar de noite e de dia…é para arrumar, é pôr, é trabalhar, é ir à lota, olhe é… vida de escravo”. O dia começa cedo, por volta das sete da manhã, para todos aqueles que na sua vida profissional optaram por incluir o mercado como o seu ganha pão.
Noutra banca perto, encontra-se de aparência frágil e ao mesmo tempo dócil, Júlia Trincão que nos conta como é que é a sua vida no mercado já há 58 anos e o motivo que a trouxe até lá. A vida deu-lhe a infelicidade de lhe adoecer o marido, e tendo o visto impossibilitado de continuar com as lides da venda de peixe, para o qual o seu pai já trabalhava há anos, colocou mãos à obra. Embora considere não ter nascido para isto, nas suas palavras.
Em contrapartida, apelidada de Laurinha, a senhora de 78 anos engrandece a paixão que detém por aquilo que faz desde os seus 22 anos “ é um vício que se cria no corpo. É um vício que se eu não venho parece que é uma paixão”. E acrescenta que o gosto de lá trabalhar diariamente também se desvanece em parte pelas vendas agora estarem mais fracas “não era como antigamente, que a praça era cheínha”.

Já na banca da fruta, na passagem da porta que divide duas secções de vendedores, os de peixe e os da fruta, legumes, carne, pão, roupa e flores, estavam a D. Maria do Céu e a D. Olívia Jesus com a sua boa disposição para a venda dos produtos que defendem acerrimamente que os produtos por ali vendidos “ são melhores, são coisas de casa, melhor que aquelas coisas que compram, cheias de produtos” e experiência não lhes falta. Desde há 69 anos que têm notado as transformações que o tempo tem refletido no mercado. A perda de clientes é evidente para a D. Maria céu, que se lamentou do facto de agora se vender menos “O nosso dia a dia agora é mau, não querem coisas naturais e fresquinhas. Tenho cinco filhos criei-os daqui ,se fosse hoje já não os criava”.

Quem por lá passa logo pela manhã ou escolhe o mercado para as suas compras com alguma pressa ou aproveitam apenas este espaço de boa disposição para beber o seu café matinal. As senhoras mais idosas fazem-se acompanhar pelos seus trolls, que lhe facilitam o transporte do que compram. De passo lento, lá vão dizendo bom dia aqui, bom dia além e chegam-se às bancas e dão uma espreitadela nos produtos expostos. Há quem seja gentil e leve até à paragem um senhor que pouca capacidade têm para carregar os sacos das suas compras. Num tom tipicamente popular, a D. Maria do Céu diz-nos que relativamente às clientes “têm um bom contacto, elas é que querem tudo de graça. Querem tudo de graça, mas não vou comprar aos continentes coisas importantes como estas!”.

O mercado repercute-se nas marcas do tempo que passou. Quem corre aqueles longos corredores ladeados de bancas e de vendedores atraiçoados pelos já longos anos por eles carregados, as marcas da vida e principalmente da sabedoria que lhes permite afirmar, que o mercado que era em tempos, jamais voltará a ser o mesmo. A simpática vendedora de peixe, Júlia Trincão é mais drástica e afirma “quem é que quer vir para aqui? Quem é quer ter as mãos engadanhadas de peixe como eu?”. O tempo traduziu-se nos que deixaram de ir, “fizeram-se velhos como eu, não podem vir e mudaram de vida, os filhos deixaram de estudar e regressaram às suas terras, outros reformaram-se, a vida modificou-se. Os jovens têm outros rumos, têm outros conhecimentos”. A vida modificou-se de facto, a mudança tem-se sentido em grande escala. “Antigamente, há uns bons anos atrás, vinha muita juventude ao mercado. Desde que começaram, há 20 anos, a abrir os shoppings cá em Coimbra, deixaram de vir ao mercado porque vão aos shoppings, aos grandes centros. Agora só temos pessoas de meia idade a comprar aqui connosco”, desabafo o senhor Rui Ferreira, vendedor de roupa. E quem lá vai, apercebe-se exatamente disso, poucos são os jovens que tomam como opção ter um contacto mais próximo na compra dos bens que necessitam, preferem antes passar pelo supermercado mais perto. Já as pessoas mais velhas, continuam a preferir deslocar-se até lá e tudo porque aos seus olhos o mercado continua-lhes a oferecer o contacto direto com os produtores dos alimentos, trocar dois dedos de conversa, partilhar momentos de boa disposição e gargalhadas no meio de um mercado repleto de cores vivas, argumento que o torna convidativo para quem o quer visitar. Privilegia-se não só a venda, mas sobretudo a estabilidade dos clientes, já muitos conhecidos por quem já lá vende há anos.

E é este o mar de histórias e de vivências que estão por de trás daquelas que gentilmente lutam por a sobrevivência do seu negócio e pela vivacidade do mercado D. Pedro V. Um mercado de século e meio ou praça como é conhecida entre os Conimbricenses, é o principal mercado da cidade de Coimbra e que resulta da convergência num mesmo local de três mercados que na primeira metade do século XIX se realizavam em Coimbra.
A proximidade. O contacto direto. A simpatia. A atenção que é dada aos compradores é notória. O ambiente familiar que por se lá sente também. Mas a população envelhecida também é que mais vagueia seja durante a semana, ou ao fim de semana, o que nos leva a questionar que futuro será o do mercado? Como é que será daqui a 20 anos? Será que a lotação daqueles corredores será a mesma? Ou será que a opção passará por transformar o mercado também em mais um shopping? Segundo a vendedora de peixe, Júlia Trincão “Isto é uma grande superfície, só que não tem o movimento de uma grande superfície”.


Grupo 5

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