sexta-feira, 19 de maio de 2017

Uma residência (IN) comum


A chegada em horário inconveniente foi recebida com alegria. Carlos, morador há dois anos apressou o convite a provarmos o peixe ainda ao lume, feito por si.
É feriado, e a residência autónoma da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Coimbra - APPDA na Cruz dos Morouços, em Coimbra - está mais vazia que é costume. Dos quatro atuais residentes, encontramos a mesa posta apenas para três. O Hugo e o Pablo foram passar o fim-de-semana prolongado à casa dos pais. O “cozinheiro” Carlos, o colega Alexandre e a “vigilante” Graça Lopes, compõem a mesa preparada por eles: “Tanto a disposição como a comida, eu simplesmente dei indicações”, afirma Graça.

A hora da refeição









Carlos tem 30 anos, é licenciado em Engenharia Biomédica e não costuma almoçar em casa. Hoje é dia 25 de Abril, está por cá, mas geralmente almoça nas cantinas. A demora do autocarro 32 não permite a deslocação diária na pausa, mas não se importa, já conhece quase todos os funcionários das cantinas sociais “de nome não, não sou bom a fixar, mas sei todos quem são”.
Trabalha no ICNAS (Instituto de Ciências Nucleares Aplicadas à Saúde) e desempenha várias funções. “Automatizo os programas de meteorologia, ando pelas matemáticas e acabo por concluir trabalhos de colegas”. E confessa “nunca trabalhei na Robótica, mas gostava.” Para além do trabalho, o Carlos pratica natação, todas as terças e quintas-feiras, no Pavilhão Municipal Multidesportos. “Apanho sozinho o autocarro no trabalho, vou até lá e faço a minha aula. Depois tomo banho e venho para casa. Tenho de apanhar dois autocarros até aqui”. Admite que detesta transportes públicos cheios, pois não pode alimentar o único vício que tem, jogar telemóvel.

Carlos, a preparar o almoço
                                                                           
Na casa, atualmente está proibido de fomentar a sua obsessão. Compreende e acha que foi o melhor: “estava a roubar bué tempo, era só jogar e trabalhar, tava cansado, não falava com ninguém”.
Vive com o Hugo, o Alexandre e as vezes com o Pablo “ele, só vem nos dias da natação. Tenho algumas saudades que ele esteja aqui sempre. Falamos bastante. Eu gosto de estar aqui, mas não gosto das regras acho que não é preciso ninguém mandar em ninguém.”
Carlos já viveu com um grupo de estudantes nos tempos de faculdade, contudo dessa experiencia não guarda boas recordações. “Fui chamado à atenção, não lavava nada e os outros precisavam de utilizar, mas podia ir vestido como queria, ninguém se importava”, e reformula: “eu gosto de estar aqui.”


Na residência o dia-a-dia funciona de forma diferente. Todos participam havendo tarefas individuais e de grupo, que se encontram afixadas no quadro da sala de estar.
Questionada posteriormente sobre a forma de gestão, a responsável da Residência Tânia Novais explica: “ a gestão da casa é feita por mim e pelas colaboradoras, ambas ajudantes de ação direta. São elas quem supervisionam e prestam auxílio às tarefas que os jovens desenvolvem, contudo também realizam um conjunto de outras atividades normais de uma casa, em que os jovens (ainda) não colaboram. Curiosamente, o Carlos, que tem inúmeras aptidões ao nível da programação informática, concebeu um programa que de forma aleatória distribui os jovens pelas várias tarefas diárias. É ele, quem no fim de cada mês, entrega a tabela com esta distribuição. Para Tânia, a maior desafio deste projeto recai exatamente na imposição destas tarefas. “ Numa fase inicial foi a gestão das regras residenciais. Os jovens traziam hábitos de suas casas, das instituições onde se encontravam integrados ou os seus próprios hábitos. Foi necessário uniformizar procedimentos.”

Tânia Morais é psicóloga, colaboradora na APPDA e uma das responsáveis pela Residência Autónoma. Para si a principal barreira entre os residentes e a sociedade ainda está na forma como o autismo é visto: “a perturbação do Espetro do Autismo ainda é vista como doença e não é uma doença! Como o nome indica, é uma perturbação.”
Questionada se essa é a justificação para este projeto acrescenta “sim, também, mas este projeto surgiu perante a necessidade sentida por um grupo de pais, de verem assegurado o futuro residencial dos seus filhos. Foi um sonho, tornado realidade, à custa de muito esforço e dedicação da direção”
             Tabela de tarefas






O almoço está na mesa e Carlos começa a dividir em doses minuciosamente. Alexandre, o seu colega de casa revela que todas as refeições têm de ser assim “o Carlos gosta que os pratos estejam todos iguais. É assim, tem de ser”.

O Alexandre tem 21 anos e conheceu-o há um ano e meio, quando veio para a residência viver.
Ao contrário do seu colega, não anda na faculdade nem faz parte dos seus planos, contudo também ocupa o seu tempo. “Vou de autocarro todos os dias para Santo António dos Olivais. Estou a tirar um curso para ser responsável de armazém.” É o mais jovem e não gosta de falar das suas experiências, admite contudo que as palavras da vigilante sobre o seu talento para o desenho são verdadeiras. Com um sorriso envergonhado, expressa “Nunca mais desenhei, não tenho nada para desenhar. Agora ocupo os meus tempos livres a ver filmes, já vi quase todos”.
Tal como Carlos a sua tarefa preferida é colocar a mesa. Gosta de viver na residência, mas adianta “quero ser independente, ter um trabalho, uma casa e até uma namorada. Mas primeiro quero um trabalho, depois logo vejo”. Hoje está entusiasmado com a saída, embora preferia outros eventos, o Alexandre vai com o Carlos ao Estádio Universitário assistir ao Festival de Robótica de 2017.












Alexandre - mostra os desenhos da sua autoria

A nítida diferença de personalidades, não afeta a relação dos residentes. Segundo Tânia Novais “são capazes de estar sentados no sofá a ver TV sem falarem entre eles, mas também são capazes de estar a fazer legos ou a realizarem exercícios matemáticos em conjunto e a parabenezirem-se pelos sucessos uns dos outros.” Interpelada sobre os requisitos para viver na residência responde “é necessário ter 18 anos, ter capacidade mediante apoio de viver autonomamente, ser portador(a) de uma PNEA (Perturbação do Neuro desenvolvimento e do Espetro do Autismo) e oriundo da zona centro.”
Quanto aos quatro residentes atuais, afirma que há “os progressos claramente notório. Desde os cuidados com a higiene pessoal, em que cada vez menos necessitam de alertas, à autonomia residencial”, acrescentando, “a primeira vez, em que senti que o objetivo estava a ser cumprido, foi um dos dias em que fui à sala e vi um dos jovens, de pijama e pantufas, esticado no sofá”.
Para a Psicóloga, lidar diariamente com “seres humanos genuínos que apresentam défices ao nível da comunicação e da interação social, bem como ao nível do comportamento e interesses” faz com que “o sorriso sincero dos residentes é a melhor obrigada que posso receber.”


Sofia Tavares é estudante e vigilante aos fins-de-semana, da Residência Autónoma. Para a Sofia esta realidade não é novidade, contudo conheceu-a de forma diferente. “O meu irmão tem Síndrome X Frágil. Não é a mesma coisa, mas tem características. Ele frequenta a APPDA e as atividades como teatro, música, piscina, etc. Muitas vezes ia deixa-lo e acabei por interagir. Surgiu o convite, eu decidi aceitar.” Quanto às suas funções, enquanto trabalhadora, relata “basicamente eu tenho de orientá-los e certificar-me que as rotinas estão a ser respeitadas. Para além das refeições, por exemplo, vejo se levantaram-se a hora, se a arrumação do quarto foi feita, ou até se a barba foi ou é para fazer (risos).”


A refeição acabou, e a cozinha já está arrumada. A timidez inicial desapareceu e fomos convidados a conhecer o jardim. No jardim há flores e algumas árvores. Os antigos recantos compostos por relva foram substituídos por pedras da calçada. Entre sorrisos os residentes confessaram “antes havia muita relva, tínhamos de regar, cortar, etc. Era muito trabalho e não gostávamos muito, não temos tempo.”


A conversa foi longa, e a hora do lanche lembrou que era tempo de despedidas. O “já?” de ambos os habitantes, fez-nos concluir, os bons hábitos sociais que estão a ser desenvolvido pela APPDA. Um bem-haja.









 Unidade Curricular: Atelier de Cibercultura
Trabalho Realizado;
Joana Jana
Catarina Gomes
Sofia Tavares
Sofia Freitas
Marco Gomes
José Lopes

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