terça-feira, 23 de novembro de 2010

Entrevista: "Contando Contos"


Contando contos

As pessoas ainda gostam de ouvir histórias de um contador porque é algo que «vai fazendo falta».”


Luís Carmelo, licenciado em Estudos Teatrais e Mestre em Estudos Portugueses,  descobre a sua paixão pela narração oral numa feira e decide tornar-se contador de histórias. Em Évora, no bibliocafé Intensidez, onde costuma narrar os seus contos, conta o que é “contar histórias” e fala de alguns projectos como a Trimagisto e os “Contos de Lua Cheia”.



Ana Serrano (A.S.) - Quem é um contador de histórias?
Luís Carmelo (L.C.) - A palavra contador de histórias encerra muitas coisas. O cineasta conta histórias com o cinema, um canta-autor conta histórias com  suas canções, suas músicas, um pintor conta histórias com  suas pinturas, um escritor com seus livros. Agora, nós que contamos histórias oralmente,  hoje em dia,  apelidados de  narradores, contamos histórias através da narraçao oral, ou seja, ao vivo, em frente ás pessoas e com palavras.

A.S. - Qual a preparação que exige o “contar histórias”?  A preparação  de cada história? 
L.C. - Cada contador, ou cada narrador terá  formas distintas de se preparar, de se relacionar com o texto, depois de se relacionar com o contar, com o próprio
momento em que se conta, porque também há muita gente que conta histórias de formas muito diferentes. Há contadores que são mais efusivos, mais apelativos, mais teatrais, outros são menos e cada forma de contar exige formas distintas de preparação. 

A.S – Certamente existe muito trabalho por detrás de cada trabalho, de cada peça. Como é que se costuma preparar?
L.C - A pesquisa para procurar histórias passa por  ler muito, mas é também andar e ir ver outros contadores, principalmente porque grande parte das histórias que se contam, são histórias que se ouviram a outros contar.

A.S. - O que é que o levou, após uma licenciatura e um mestrado, a enveredar por esse caminho, a narração oral?
L.C. - O mestrado vem depois. A licenciatura é em teatro. Portanto eu fazia teatro,  por  um acaso fui a um festival em que haviam contadores de histórias  e apaixonei-me pela “coisa”  e começei a contar histórias. E depois quis estudar mais e fiz o mestrado já na área em que trabalho.

A.S. - E a Trimagisto como surge?
L.C. - A trimagisto surge em 2001, oficialmente.  Mas surge em 1997 quando eu venho para Évora, com o encontro de alguns alunos, um grupo de colegas do primeiro ano do curso de Estudos Teatrais e queríamos fazer coisas juntos. Começámos informalmente a trabalhar nisso, depois foi evoluíndo e em 2001 oficializámos um crescimento, como cooperativa.

 A.S. - E os “Contos de Lua Cheia”? Como é que surge a parceria com a Biblioteca Municipal de Évora e depois com o Bibliocafé Intensidez?
L.C. - Os “Contos de Lua Cheia” começam porque tivemos um exemplo, que eram “A Quinta dos Contos” , feitas no Ateneu de Coimbra. Nós fomos convidados várias vezes para ir lá e quisemos fazer uma coisa dessas em Évora.
Aqui, já passou por muitos lugares já esteve na Sociedade Harmonia Eborense, na Casa do Boneco, já esteve no Monte Alentejano, porque isto são coisas feitas com muito pouco dinheiro, com muito poucos apoios e portanto é preciso aguentar parceiros e “vai-se andando”. Agora parece que estabilizou aqui no Intensidez e na biblioteca parece que vai ficar também.

A.S. - Tem sido portanto, uma aposta ganha? Um projecto recompensador?
L.C. - Sim, sim.

A.S. - Com toda esta nova geração de meios em que estamos a ser bombardeados com notícias, novidades, histórias todos os dias, o público ainda se interessa por histórias, ainda ouve histórias?
L.C. - As pessoas gostam de histórias porque sempre ouviram e vão ouvir sempre . Podem não ser contadas assim, oralmente, frente a frente com uma pessoa, mas nós sempre gostámos de histórias e tivemos sempre histórias, no teatro, no cinema, na música na dança, nas novelas, nas séries. O que é mais interessante nas histórias que são contadas assim pessoalmente é que elas aproximam, criam momentos de comunhão, momentos de partilha que são coisas que hoje vão havendo cada vez menos e das quais nós ainda gostamos. As pessoas ainda gostam de ouvir histórias de um contador porque é algo que “vai fazendo falta”.

A.S. - É quase um gosto “infantil” e que vem desde sempre na nossa formação…
L.C. - Infantil eu não diria. As histórias não são coisas para a infância só, são coisas para todas as idades. É um gosto, nós gostamos de estar em grupo e se houver um bom pretexto  e se esse pretexto forem as histórias ainda melhor. 

Ana Serrano
Grupo 1

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