domingo, 23 de janeiro de 2011

Artes/Tradições Portuguesas


Reportagem

Arte Xávega – vida e amor vieirenses

Vieira de Leiria, uma vila fixada sobre dunas de areia fina e branca. Lugar, onde o mar, o rio e a floresta se encontram. Onde a sua gente, a cultura e a tradição piscatória são exaltadas pela Arte Xávega.
Praticado, desde o início do século XIX, este tipo de pesca com “artes” de arrastar para terra, é ainda hoje a forma rendimento para muitas famílias vieirenses. Embora, tenha sofrido algumas alterações, a arte xávega mantém a mística que há largos anos atrai turistas a uma localidade “à beira mar plantada”.
Na sua génese este tipo de pesca implica o trabalho conjunto de homens audazes e corajosos, no mar, e de outros habilidosos e fortes que, em terra, com a ajuda de bois conseguem trazer os muitos metros corda até à borda d’àgua.
Apesar de ser comum em lugares como a Nazaré, é em Vieira de Leiria e na faixa litoral que se estende até Espinho, que a Arte Xávega adquire uma característica peculiar: os barcos em “meia-lua”. Facto que se deve ao desabrigo das praias, onde o mar é violento como em nenhum outro sítio. Onde só mesmo a embarcação luniforme, aliada à valentia dos pescadores permite vencer a força da Natureza.
 A dimensão dos barcos e a sua tripulação têm sofrido alterações. Até aos anos sessenta usaram-se grandes barcos, com mais de quinze metros de comprimento e que exigiam cerca de quarenta tripulantes. Presentemente, existem apenas barcos de média e pequena dimensão. O “Viking” e o “Deus te Salve” de 8.90m de comprimento. E, os de tamanho reduzido (5.30m): “Sónia Maria”; “Senhora da Luz”; e o “Maroto”.
Mas as grandes alterações registaram-se ao nível das tripulações. Hoje bastam 5 homens para ir lançar redes. A força humana foi substituída pela máquina, pela força motriz. E os remos são agora um mero apoio ou solução de emergência na navegação.
Os bois deixaram de puxar redes. São agora os tractores que trazem o peixe, dos grandes barcos para terra. Ou o dorso dos homens que puxam as pequenas redes do “Senhora da Luz”.
 As “modernices” não tiram, contudo, o mérito, a coragem, o risco de aventura e a adrenalina, de quem pratica a arte xávega. Quem o garante é Fernando Sequeira, pescador do “Deus te Salve”. Aos 51 anos e habituado à faina desde a adolescência, afirma “ainda hoje quando embarco para a pescaria sinto uma grande ansiedade pois as condições marítimas adversas e os imprevistos com o motor são sempre uma preocupação”.
Enquanto fala Fernando Sequeira, já os “vikings” apetrecham o seu barco. Esta é uma das formas de apelidar os grupos de pescadores (ou companhas): com o nome do barco. Já, o senhor Fernando prefere chamar-lhes “talibãs”, tal é a rivalidade com que se disputa a apanha do peixe: “eles tentam sempre chegar primeiro que nós ao peixe e imitam-nos em tudo, se vamos ao mar, eles também vão, se compramos redes novas eles também compram, se ficamos em casa a dormir eles também ficam(…) são uns invejosos”.
Facto é, que o mar em Vieira de Leiria é incerto, tal como o aparecimento do “bom peixe”. Um lanço (termo utilizado para cada pescaria) é para os vieirenses, rentável quando na rede vem sardinha ou carapau. Esta última, é a espécie que mais qualidade e valor monetário por quilo (entre 1,50 e 2 euros). Se dele a rede vem cheia, é a alegria do povo. Correm pescadores desvairadamente pelo areal apregoando para os veraneantes que por ali se detiveram a apreciar xávega: “é carapau, é carapau fresquinho”. E logo ao lado, a olhar de esguelha estão os rivais das outras companhas, a desejar ter a mesma sorte, a mesma oportunidade de negócio, a ansiar um lanço “vitorioso”.

Desastre do “Salsinha”

A 15 de Novembro de 1915, registou-se a mais negra tragédia ocorrida na Praia de Vieira de Leiria. A embarcação “Salsinha”, onde íam dezenas de homens virou, com condições marítimas adversas. Sem que houvesse capacidade ou alguma forma de socorrer os pescadores, morreriam nesse dia 13 pescadores. Tempos de luto se sucederam a esta tragédia.
Ainda hoje são recordados num memorial de pedra à beira-mar, os nomes dos falecidos heróis .

É uma rivalidade com tão longa tradição como a xávega, esta que tantos ódios origina entre os homens do mar e que por vezes faz da desta pesca, uma louca e perigosa competição, onde em tempos se perderam vidas, se ganharam viúvas e nasceram outros mares, de lágrimas.
Lá em cima, na lota, as peixeiras preparam as bancadas para receber os cabazes de peixe dos homens do mar. São mulheres envelhecidas pelo trabalho e pela preocupação de ver os seus maridos à mercê da “vontade” do oceano. São algumas como Anabela Lobo, uma peixeira de 65 anos, que confessa serem “pau para toda a obra”. “Nós cavamos e plantamos terras, vendemos peixe porta-a-porta e na praia, e ainda arranjamos tempo para criar e educar os filhos”.
Com efeito, é o sexo feminino que tem o papel mais importante. E nestes contornos, a organização de uma família estritamente ligada à arte xávega é algo curiosa. Além de serem, elas as intermediárias que na praia escolhem e vendem o peixe. No lar ganham o cargo de gestoras das economias, de “mulheres da casa” que permitem a qualidade de vida, que nas primeiras décadas do século XX não existia na Vieira.
Foram tempos de dificuldade, de luta e de fome. Tempos de uma sociedade pobre ,de um povo que dependia, ao contrário de hoje, apenas do que a oceano oferecia. Foi a era em que se registou a maior migração vieirense de que há memória, conhecida como a dos “avieiros”. Em que os Invernos gelados e com más colheitas, obrigaram à substituição da arte xávega à beira mar pela pesca do sável nas margens do Tejo.
Henrique Canastreiro, de 86 anos, recorda ainda a época: “eu e a minha família partíamos sempre com uma grande tristeza da Vieira, mas sabíamos que era a única forma de sobreviver, sem o peixe do rio Tejo, só conseguíamos matar a fome durante 4 meses”.
  Ao contrário deste ex-pescador, que agora olha o pôr-do-sol no “infinito” do mar vieirense, muitos foram os que não voltaram da deslocação sazonal: “ainda tenho lá família e casa, mas aquela não é minha terra, nem aquelas são as minhas águas, nem aqueles são os meios peixes”. E diz com ironia: “a ser enterrado quando morrer, que seja à beira mar”.
A arte xávega é hoje, uma forma de manter vivas tradições, um passado, uma gente. É uma arte sazonal, uma atracção para milhares de turistas que todos os verões frequentam a praia de Vieira de Leira. É a vida de alguns, mas o amor de todos os que a conhecem de perto.


Autoria: 
 Renato Neves Sapateiro

Fontes:

Nunes, Francisco Oneto, Vieira de Leiria - A História, o trabalho, a cultura. 1993. Edição Junta de Freguesia de Vieira de Leiria
 Entrevistados - Anabela Lobo; Henrique Canastreiro; Fernando Sequeira

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