segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Entrevista em atraso - grupo 5

“Enumera procura para tão pouca oferta”

Célia de Oliveira é psicóloga do centro João Paulo II em Fátima e conta um pouco daquilo que é um dos únicos lares, em Portugal, que acolhe tantos utentes com necessidades especiais de cuidado, tanto a nível físico como psicológico.

Por Sara Ferreira



Sara Ferreira (S.F): João Paulo II é uma instituição que acolhe que tipo de pessoas?

Célia de Oliveira (C.L): O centro João Paulo II é um centro de apoio a deficientes mentais e motores profundos. Os deficientes são portadores de multideficiências em que têm de ter uma deficiência profunda a nível motor e mental para poderem entrar no centro. São aceites pessoas com idades compreendidas entre os 8 e os 45 anos.

S.F: Quando foi inaugurada?

C.O: A primeira pedra foi colocada em 1982. A construção do centro demorou 7 anos, sendo inaugurado em 1989.

S.F: De quem surgiu a ideia de fazer esta instituição?

C.O: A ideia surgiu de um padre. O padre Virgílio Lopes. O senhor tinha um ideal de vida de ajudar os mais necessitados, assim, pensou em construir uma residência que pudesse auxiliar pessoas com mais carências do que é comum.

S.F: Quais os objectivos do centro?

C.O: Nós somos um lar residencial e portanto o grande objectivo é acolher pessoas que não têm outro tipo de estrutura, nem apoio familiar, de modo a proporcionar a melhor qualidade de vida possível. Outro objectivo é tentar dar uma noção de vida normal tanto quanto possível vida a estas pessoas que não têm a felicidade de ter nascido tão perfeitas como eventualmente gostariam.

S.F: Sabendo que é uma das poucas que acolhe pessoas com deficiências profundas como fazem quando não podem acolher mais pessoas?

C.O: Nós não fazemos nada, temos uma lista de espera e à medida que vão surgindo vagas vamos à lista de espera buscar as pessoas para preencher as vagas. Não podemos fazer muito mais, existem determinadas vagas e quando se esgotam colocamo-las imediatamente na nossa lista.

S.F: Existem pessoas de toda a parte do país?

C.O: Sim existem pessoas de toda a parte do país a procurar o centro, temos inúmeros utentes e todos eles são de diferentes zonas de Portugal.

S.F: Que capacidade tem a instituição?

C.O: O centro consegue acolher 192 pessoas.

S.F: E neste momento quantas pessoas vivem aqui?

C.O: Neste momento e praticamente em qualquer momento o centro está cheio, existem 192 pessoas a viver aqui. Houve dois falecimentos esta semana e as vagas foram logo preenchidas devido à enorme lista de espera.

S.F: Então é frequente o aparecimento de pessoas a todo o momento para entrar no centro?

C.O: Sim é. Por isso é que a lista de espera é tão grande e as vagas que surgem são logo ocupadas. Existe uma enumera procura para tão pouca oferta. Não temos noção da quantidade de pessoas que necessitam deste tipo de lar e que por não haver muitas mais instituições deste género vivem em condições que nem sempre são as melhores.

S.F: De quantos profissionais dispõe o centro?

C.O: Cerca de duzentos, mais ou menos.

S.F: Que tipos de profissionais são precisos para as determinadas necessidades?

C.O: Temos uma vasta equipa de profissionais a trabalhar no centro. Temos os economatos, que abrange a área da cozinha, compras e tudo mais dentro desse ramo, temos também motoristas, empregadas de limpeza, depois temos a área da reabilitação. Dentro dessa área há os técnicos de educação especial e reabilitação, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, terapeutas da fala. Dentro do âmbito da animação dispomos de educadores especiais e animadores sociais. Dentro da área da saúde existem psicólogos, enfermeiros, médicos, nutricionistas. Na medicina há especialistas em neurologia, fisiatras, médicos de clínica geral. Também há empregados na área do serviço social. Há um pouquinho de tudo.

S.F: Que tipo de actividades fazem os utentes que aqui moram?

C.O: O centro proporciona actividades muito diversas. Além das salas ocupacionais que temos, por exemplo a ludoteca e a sala dos projectos educativos, são desenvolvidas várias actividades como a música, a jardinagem, estimulação sensorial, espaço ligado à cozinha, snoezelen, desporto, hipismo, temos um jornal, dança, acho que são estas as principais actividades desenvolvidas no centro. Algumas crianças também têm a oportunidade de frequentar a escola que o centro dispõe. Essa escola está destinada àquelas crianças que têm uma capacidade de aprendizagem maior em relação a outros utentes.

S.F: Existem muitos voluntários a oferecer ajuda?

C.O: Existem, sim. Neste momento temos aqui um grupo de espanhóis. Estão cá à duas semanas a prestar auxilio em tudo o que precisemos no dia a dia.

S.F: De um modo geral, os deficientes têm visitas regulares dos familiares?

C.O: Depende. Há famílias que “despejam” aqui estas pessoas e nunca mais voltam para vê-los. Não se preocupam, no entanto, existem outras famílias que vêm cá regularmente. Estão com eles, desenvolvem actividades, prestam auxílio, entre outras coisas. Nota-se um interesse pelo seu familiar, o que não acontece na maioria dos utentes a habitar no centro.

S.F: Têm a possibilidade de sair da instituição para passar férias a casa?

C.O: Sim têm.

S.F: O centro é uma instituição pública ou privada?

C.O: O centro é uma instituição de solidariedade social que pertence à santa casa das misericórdias.

S.F: Recebem algum tipo de donativo sem ser do estado?

C.O: Sim, para além do estado, o centro recebe apoio de instituições particulares mas maioritariamente é o estado quem mais apoia o centro.



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