sábado, 8 de janeiro de 2011

Nós, até à última.


 Nós e aquela mania de deixar tudo para a última da hora, até à última do ano. Não me posso queixar pois sou o pior deles todos. Na última tarde da década os planos da passagem desta modificaram-se e o caminho das compras avistava-se.

Pandemónio. As portas do supermercado apenas anunciavam 0, 0, 0, 0, 0% da subida do IVA. Ridículo aos olhos do meu pai, mas para alguns era bastante satisfatório, a ter em conta o sorriso brancamente fabricado do anunciante desta medida “anti-crise”.
Podiam esperar a passagem das 12 badaladas para vir às compras e aproveitar o não pagamento do imposto a 23%. Mas a meia-noite estava à porta, já meio cá dentro aliás. Não havia nada a fazer. Somos portugueses.

A lotação parecia esgotada. As filas para levantar as encomendas antecipadas dos frangos assados, verdadeiros bacalhaus de réveillon, confundiam-se com a loucura dos saldos anuais dos vestidos de noiva. Loucura portanto, só as noivas aos guinchos ali faziam falta. Todas as registadoras maquinadas pelos estudantes secundários e afins trabalhavam ao máximo, tornando os “bip-bip” cantados pelos códigos de barras irritantemente perturbadores. Tal como o eram as comadres que se amontoavam nos corredores sem razão alguma para o fazer a não ser falar do que a comadre que cada uma viu há cinco minutos lhe disse sobre a outra comadre passada.

A consufão inslatava-se à medida que os stocks se estogavam e os licenciados os reponham com a alegria de que a culpa do seu estado profissional fosse daqueles pobres patoques de acuçar, que há bem pouco tempo nem eles tinham destino algum. Era difícil escolher, raciocinar ou ebalorar um penmasento que fosse.

Os corredores tornaram-se estreitos para os carros movidos a força de braços que pouco mais andavam que a 0.03km por hora. Não devido aos sinais de trânsito, radares ou ao peso carregado ter excedido o suportado (pois a crise não ajuda a grandes barrigadas) mas aos sucessivos rabos que se punham no caminho a tentar desviar-se dos da frente e dos que estavam agachados a levantar garrafões de água de 5 litros a 30 e poucos cêntimos cada. Era um luxo. “Devia ser era de tinto”, (isso sim, era luxuoso) disse um bigodes que devia ter vindo há pouco da faina e devia já estar a pensar na próxima remessa para levar para alto mar.

Não devia de ser de tinto mas sim de moscatel, pois esta encomenda que me pediram escasseava. Duas garrafas na prateleira, as mesmas que me exigiram! Um “bacano” à minha frente estava fisgado nelas, e eu com olho nele… passou-as, aliviei-me. Virou-se novamente para elas e baixou-se. Outro traseiro com vontade de pontapear. Não era aquela marca que ele desejava, mas era a que me incumbiram.

Será possível que ninguém abra outra caixa deste produto e preencha novamente a prateleira? Foi possível, e abriram. Mas depois de eu ter pegado nas duas que restavam, ter andado à pendura da minha mãe à procura do melhor chocolate para fazer mousse pá engorda.

Precisaram que a última garrafa saísse da prateleira para se lembrarem dela. Ou da falta delas. Tal como todos estes clientes se lembraram que lhes faltava alguma coisa quando pegaram nos sacos para alguma festa e não possuíam a bebida desejada, ou se colocaram à frente das bancadas para preparar o jantar e lhes faltava o frango ou o ingrediente para a sobremesa, também estes repositores de stocks se lembraram do moscatel quando este já estava para lá das portas do supermercado desIVAdo dentro dos sacos de plástico. Afinal, eles também são portugueses.

Marcelo Chagas

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