segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

“Os jornais regionais fazem muita falta e têm um papel importante”

Entrevista a José Gaio

José Gaio, de 48 anos, é director do jornal regional “O Templário”. José entrou no mundo do jornalismo aos 21 anos e foi o primeiro jornalista a tempo inteiro de Tomar, ainda no tempo das “rádios piratas”. Após vários anos como correspondente de rádios e jornais regionais e como assessor de imprensa da Câmara Municipal de Tomar, “surgiu a oportunidade de concretizar um sonho antigo”, ter um jornal seu. Aproximadamente há oito anos, comprou o título do jornal “O Templário”, que se encontrava inactivo. Mudou a sua linha editorial e relançou “O Templário” com conteúdos mais frescos e jovens. Hoje, pretende alargar a área de influência deste jornal regional. José Gaio mostra-nos a sua perspectiva sobre jornalismo regional…

Sandra Portinha (SP) - Como é ser director de um jornal regional?
José Gaio (JG) - É um papel difícil porque estamos a falar de um jornalismo de proximidade. Há uma relação muito estreita com os leitores e às vezes existem alguns constrangimentos no tratamento das notícias. Não é fácil gerir estas situações. Portanto, tem de se ter alguma sensibilidade e, digamos, alguma inteligência para fazer jornalismo e publicar notícias quando existem esses laços com a comunidade local. Sobretudo quando os sistemas são sensíveis. Tirando isso, é gratificante porque também há o reconhecimento dos leitores e eu noto que as pessoas gostam, anseiam semanalmente pelo jornal e acompanham diariamente na internet e, portanto, há um carinho por parte do público que é gratificante.


SP - Qual é a mais-valia que o jornal traz para a cidade?

JG - Primeiro, é representativo da comunidade onde se insere. Nós temos como preocupação noticiar aquilo que é a vida real, do dia-a-dia não só da cidade de Tomar, como dos concelhos à volta. As pessoas identificam-se com o jornal porque sentem que retratamos a sua vida, os dramas, o desemprego, a fome, as carências de toda a ordem que andam por aí. Não privilegiamos a política porque, pelo que concluímos, é mundo um pouco à parte e preferimos o noticiário social, o que mexe com as pessoas.


SP - Que cursos de formação promove o jornal para os seus jornalistas?

JG - Hoje em dia, os jornalistas que chegam são todos licenciados. Temos um ou outro colaborador não licenciado mas os jornalistas que cá estão são todos licenciados. Não quer dizer que a tarimba não tenha o seu valor mas a formação académica é muito importante.


SP - O jornal valoriza mais a formação académica ou a experiência que é adquirida em actividades extracurriculares na selecção dos jornalistas?

JG - No jornalismo regional há uma particularidade: Quem vem trabalhar para um jornal regional, deve conhecer a realidade local. Devem conhecer as instituições, a região a nível geográfico, social, político… Deve ter o conhecimento mínimo do terreno porque é a área onde vai trabalhar, o que é diferente do jornalismo nacional. Nós privilegiamos a formação académica mas também privilegiamos esse conhecimento da realidade. Quase todos os jornalistas que passaram por cá são da região e isso é uma mais-valia. Não é um curso que faz um jornalista, é um processo de aprendizagem. Quando eu comecei no jornalismo, não tinha formação académica. Licenciei-me em comunicação ao mesmo tempo que trabalhava, fui aliando a prática com a teoria.


SP - Como é que sobrevive um jornal regional? Tem algum apoio camarário?

JG - Não. Este jornal tem de ser auto-sustentável. Sobrevive apenas da publicidade e das vendas. A publicidade é a principal fonte de financiamento, cerca de 70 por cento, depois estão as vendas em banca e por assinatura. São a duas fontes de financiamento que nós temos. Não temos subsídios, nem porte pago e, portanto, temos de sobreviver pelos nossos próprios meios.

 SP - E acha que as vendas correspondem às expectativas que tinha inicialmente para o jornal?

JG - Ao longo destes oito anos, de ano para ano, temos vindo a crescer mas estamos num processo de ruptura total que é a passagem do papel para a internet. Não é fácil estarmos a viver esta transformação profunda de hábitos em que as pessoas começam a ler mais na internet. Não podemos obrigar as pessoas a ler em papel mas temos de rentabilizar os projectos. Este processo de mudanças traz-nos novos desafios e ainda ninguém descobriu a maneira de rentabilizar o site na internet. Por enquanto, como o jornal continua a crescer não nos queixamos.


SP - O facto de estarmos numa zona rural, em que as pessoas mais velhas não têm tanto acesso à internet, influencia esse crescimento?

JG - Sim, claro. Às vezes pensamos que toda a gente tem acesso à internet. Não. Há, ainda, muita gente, mais de 50% da população, que não tem acesso diário à internet e nós temos de pensar nesse público. É o público do jornal em papel. Quando nós vendemos milhares de jornais por semana, é sinal de que esses milhares de pessoas procuram ler as notícias em papel. Claro que poderão ser pessoas do mundo rural, tecnologicamente menos avançados ou com menos posses, mas o que é facto é que o jornal vende.

SP - Quer dizer que não tem sentido a crise?

JG - Não tanto. Há uma ligeira quebra na publicidade mas nós também ajustamos a nossa estrutura às receitas. Mas posso dizer-lhe que já tivemos mais jornalistas do que os que temos hoje. Estamos em tempo de contenção e tivemos e reduzir nos jornalistas.


SP - Que dificuldades sente um jornalista local?

JG - Às vezes é mais difícil obter informações. O acesso às fontes de informação é dificultado. Talvez os jornalistas nacionais tenham mais facilidades em obter informações dos partidos, das autoridades, do exército, etc. Nós aqui sentimos isso. Algumas instituições fecham-se muito. Não aceitam uma visita, uma entrevista, uma reportagem. Vêem o jornalismo como alguma ameaça, o que é pena porque nós não fazemos só notícias negativas. Por exemplo, gostávamos de fazer uma reportagem sobre o Serviço de Cirurgia do Hospital de Tomar. Fizemos um pedido por escrito ao Presidente do Conselho de administração para passarmos algumas horas a acompanhar algumas cirurgias no bloco operatório, como fazem na televisão, e nem resposta nos deram. Vedam o acesso à informação com medo, não sei…
Como nos dificultam o acesso à informação, às vezes temos de ir por outros circuitos, como recorrer às fontes anónimas.


SP - Acha que o jornalismo regional pode entrar em decadência e perder a sua importância ou acha que continuará a ter um papel importante para a população?

JG - Não, os jornais regionais fazem muita falta e têm um papel importante. Para já, a nível de informação, para a formação da opinião pública. Eu sou um pouco crítico em relação à imprensa regional porque tirando três ou quatro exemplos do distrito de Santarém, os jornais são muito servis. Ficam muito na base dos press releases que chegam das instituições, das organizações. É um jornalismo que é uma simples caixa de ressonância da informação institucional, o que é mau. Esses jornais vão decaindo e vão fechando. Um jornal que é apenas um mero repositório de press releases não é um jornal e, infelizmente, ainda existem muitos jornais assim e que têm tendência a desaparecer. Em 2010, desapareceram meia dúzia e com o corte do porte pago, em Março deste ano, vão desaparecer mais alguns.
Eu tenho como lema e digo isso a todos os jornalistas: Os Press Releases não são notícias. A notícia é o que está por trás disso. Temos que arranjar outro ângulo de abordagem daquele acontecimento. No “O Templário” não publicamos Press Releases. Tentamos procurar sempre fazer notícias da nossa própria perspectiva, de maneira interessante e diferente. As notícias em que isso não é possível, ficam na gaveta até uma próxima oportunidade.


SP - Acha que é isso que pode diferenciar o jornal “O Templário” dos restantes?

JG - Acho que sim. Apostamos muito na imagem. O nosso jornal é todo impresso a cores e, no distrito de Santarém, só três é que o fazem. Apostamos, também, muito na fotografia. As pessoas gostam de fotografias. Depois, temos os conteúdos. Os títulos são apelativos, despertam a curiosidade das pessoas. Isso faz toda a diferença.


SP - Sentiu a necessidade de abrir as portas para o jornalismo digital?

JG - Concluímos que a internet não é necessariamente um concorrente, pode até potenciar o jornal em papel. Há exemplos de sites que potenciam a venda dos jornais em papel. É isso que nós acreditamos e, por isso, decidimos apostar, primeiro, num blog e depois num site, que já teve três versões. Eu defendo e aposto na internet e acredito que mais cedo ou mais tarde a internet venha a ser auto-sustentável, que o site se pague a si próprio.


SP - Acha que a internet pode desvalorizar o papel dos jornalistas devido aos “pseudo-jornalistas” que por lá circulam?

JG - Eu tenho a sensação de que as pessoas sabem distinguir a informação veiculada por um site jornalístico, que é mais credível, da informação veiculada por um blog. Por isso, eu acho que as pessoas não se vão importar de pagar por uma boa informação e mais credível.


SP - Como será o futuro do jornal em papel?

JG - Os especialistas dizem que daqui a 50 anos, o jornal em papel será um artigo de luxo. Eu acredito que sim mas não deixará de existir. Tem é de se ajustar à realidade e se calhar vamos ter de aumentar o preço do jornal. Mas deixar de existir, não!


SP - Um bom jornalista constrói-se?

Sim, também se constrói com trabalho, com uma boa orientação, com bons desafios. Vai-se moldando, também, dependendo da linha editorial do órgão onde está. Um jornalista faz-se ao longo da vida e nunca atinge o auge porque está sempre a aprender. Tem de tentar fazer sempre mais e melhor.


Por Sandra Portinha
Grupo 4
Fonte: Nenhuma












1 comentário:

  1. Muito bem Sandra. Bom esforço. Marcar entrevista e conseguir um há vontade para tais questões, serve de exemplo :)

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