terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Reportagem - Jardim Quinta das Lágrimas

Lugar de Pormenores

          Situada na margem esquerda do rio Mondego, perto de património emblemático como o Portugal dos Pequenitos e o Mosteiro de Santa Clara - a - Velha, a Quinta das Lágrimas vê-se no horizonte seja pela massa florestal, pelo amarelo – claro do hotel palaciano ou pelo campo de golfe que integra parte do local.

         Transformada num cenário invernal, a cidade de Coimbra fornece o cenário ideal para sentir espaços carregados de romance e pormenor como é o jardim da Quinta das Lágrimas.

         O inicio da recuperação dos espaços verdes da quinta, em 2006, ocorreu após o jardim ter sido doado à Fundação Inês de Castro, criada um ano antes para divulgar a história, a cultura e a arte relacionadas com a temática Inesiana. Apesar do processo de requalificação do palácio e da quinta ter decorrido nas décadas de 80 e 90, foi através do programa da fundação, ao determinar o progresso e a evolução do local, que o jardim sofreu alterações e pôde ser aberto ao público.

          A modificação das partes que constituem o jardim foi idealizada pela arquitecta paisagista Cristina Castel-Branco, que primou por dar um olhar contemporâneo ao espaço preservando todo o seu carácter histórico. O jardim romântico, recuperado tal como estava estipulado no desenho inicial datado de 1850, evidenciou-se como o primeiro passo da reforma da área, seguido da criação de um jardim medieval e da recuperação do canal construído sob a ordem da Rainha Santa Isabel.

         A entrada principal da quinta pertencente à família Júdice há mais de 300 anos, ostenta um portão cuidadosamente trabalhado tanto na pedra como no ferro, seguido de um caminho aconchegado por um imenso arco de árvores. Na paisagem em frente mostra-se o hotel, como um imponente edifício, com dupla escadaria que mantém hasteada ao cimo, a bandeira da cadeia hoteleira Relais & Châteaux Hotels. Á direita inicia-se o passeio por trilhos e passagens que escondem cenários essenciais para a apreciação do lugar.

        O trajecto a ser feito de mente concentrada na atmosfera envolvente evidencia a presença natural graças à vegetação originária de várias zonas do mundo. O espectáculo dá-se não só no chão mas também no ar quando o romance emerge entre ramos e folhas.

         Uma cama envolvida em material que remete para as nuvens e os sonhos, está suspensa por fios mesmo por cima das nossas cabeças, tendo sido mantida no jardim após uma exposição de arte contemporânea. Esta peça é uma das muitas que esteve exposta no interior da propriedade devido a iniciativas da fundação, a concentração de esforços de promotores ou às próprias características do espaço. A Galeria SETE, dedicada à divulgação e comércio de arte contemporânea juntamente com o Hotel Quinta das Lágrimas, constituíram um espírito de inovação ao criar em parceria o espaço de arte SETE-Lágrimas. A galeria exerce funções nas instalações da Quinta das Lágrimas, com vista a permitir a difusão e exposição de projectos artísticos. Na intervenção ocorrida em 2009 intitulada “Laboratório de Afectos” cada artista materializou os afectos em pintura, fotografia e instalação tal como a cama suspensa.

        Segundo a secretária – geral da fundação, Teresa Costa Neves, os visitantes podem experienciar o jardim “da melhor maneira, aliando a visita de carácter histórico, à beleza dos jardins e das suas árvores centenárias”, numa visita guiada que pode durar entre 45 minutos e uma hora. O jardim que ainda mantém o carácter romântico após o restauro é “sem dúvida” um lugar indiscutível de visitar.

       Pequenos insectos voadores fazem questão de escoltar os visitantes até às deslumbrantes sequóias plantadas a mando do Duque Wellington que apresentam a Fonte dos Amores. A fonte que tem como pano de fundo um portal e janela neo-gótico datada do séc. XIV é um dos marcos da história de D. Pedro e Inês de Castro. Ao trespassar o portal começam a ver-se pequenos laços vermelhos pendurados nos galhos, também símbolos de arte contemporânea, que quase camuflados contribuem para a beleza do pormenor num local aparentemente decifrado ao início.

        A fonte das Lágrimas completa a lista de marcos históricos. No fundo do lençol de água pode contemplar-se a rocha tingida de vermelho, devido a algas encarnadas que “sempre existiram naturalmente” e simbolizam o sangue derramado por D. Inês após o seu violento homicídio.

        Todo o espaço natural pertencente à quinta foi alvo de um grande investimento que se reflectiu não só na recuperação do jardim mas também na dos muros da mata, de acordo com a sua planta inicial e na construção de um anfiteatro ao ar livre com capacidade para suportar cerca de 1000 pessoas. Garantido por Teresa Neves como um “investimento indiscutivelmente proveitoso” em termos culturais, sociais e de cidadania, foi o berço de uma das maiores estruturas concebidas ao longo do restauro, a Colina de Camões.

         A Colina de Camões vem equilibrar o jardim ao jogar tanto com as vertentes naturais como com o seu propósito enquanto anfiteatro sendo palco do Festival das Artes, um evento elaborado com vista a divulgar as artes num espaço de beleza. O projecto criado por Cristina Castel-Branco, pretende conjugar um espaço ao ar livre que contrasta o sol, a sombra e a relva com bancadas dispostas de forma pouco tradicional.

         O evento “reveste-se de uma enorme importância, especialmente a nível cultural” ao ter atingindo 600 espectadores na segunda edição. Os objectivos do festival “foram plenamente atingidos” segundo a fundação, que afirma já estar a ser elaborada a preparação para a terceira edição que irá decorrer de 1 a 15 de Julho de 2011.

        No interior da ala romântica do hotel, os corredores cobertos de arte e tapeçaria centenárias conduzem até um lugar francamente distinto de todo o jardim exterior. O primeiro jardim Japonês do país resulta da necessidade de “criar um espaço de estar e lazer” capaz de ser usado como homenagem às relações seculares entre Portugal e o Japão. Ao surgir no fundo de um dos corredores, rodeado por paredes ocre, este espaço criado em 2008 com vista para o céu, transporta quem nele entrar para as montanhas japonesas. Ao entrar neste templo natural verifica-se um oásis repleto de bambu, chão submerso de pedras de xisto e algumas plantas características do oriente.

         O jardim exterior está ainda em processo de melhoramento ao manter obras na entrada norte, no entanto a manutenção do tom romântico e da qualidade histórica continuam presentes. Ao enriquecer a mente dos visitantes, este é um lugar de pormenores que só neste espaço podem ser descobertos.


Soraia Santos
Grupo 2

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