domingo, 23 de outubro de 2011

Entrevista a Tânia Godinho, ex-praticante de Karaté Shukokai

“Penso que "corpo são, mente sã" se pode aplicar integralmente no karaté.”

        Tânia Godinho é uma estudante de 20 anos do 3º ano de solicitadoria na  Escola superior de Tecnologia e Gestão de Leiria, praticou Karaté durante 6 anos, onde participou em todo o tipo de competições a nível nacional da modalidade.
             Entrevistada pelo Posts de Pescada, dá aqui a sua visão da prática desta arte marcial em Portugal e salienta a importância que esta pode ter no crescimento de um jovem contemporâneo.  

Posts de Pescada - Em primeiro lugar, como foi que ingressaste no Karaté e quantos anos praticaste esta modalidade?
Tânia - Ingressei no karaté por incentivo de uma das minhas professoras de educação física da escola básica. Esta achava que eu tinha demasiada energia acumulada no corpo, como tal aconselhou-me a praticar um desporto fora de tempo de aulas. Desde pequena que tenho uma paixão por artes marciais e aquele foi o momento certo para aceitar o desafio. Pratiquei seis anos consecutivos de karaté shukokai.

PP - Consideras que o Karaté e as restantes artes marciais estão bem divulgadas em Portugal?
T - Cada vez mais há o interesse e a procura pelo Karaté, isto porque já temos alguns grandes atletas portugueses lançados a nível de campeonatos mundiais que dão um grande prestígio à nossa modalidade. Relativamente às outras modalidades, penso que o Judo é das modalidades mais divulgadas, mas todas elas são importantes para as pessoas que as praticam. 

PP - Que mudanças, tanto a nível físico como psicológico, provocou a prática desta modalidade na tua vida diária?
T - A nível físico posso afirmar que a minha destreza, velocidade e reflexos desenvolveram-se a um ponto que, sem o karaté, não me era possível alcançar. É importante frisar que no meu 12º treinava seis dias por semana, por opção pessoal, como tal as aulas de educação física que frequentava na escola secundária eram praticamente um aquecimento ao meu corpo. Mas as mudanças notáveis foram mesmo a nível psicológico. Com o stress das aulas, dos testes, de querer ser sempre a melhor ou pelo menos fazer por ser melhor, os treinos ao fim da tarde eram um alívio para o corpo e para a mente. Penso que "corpo são, mente sã" se pode aplicar integralmente no karaté.

PP - Sentes diferenças nos alunos que hoje se iniciam no mundo das artes marciais, especificamente no Karaté, com os alunos que se iniciaram há 8 anos como tu?
T - Sinto, claramente, é de notar que a nossa sociedade em dez anos mudou drasticamente, como tal a mentalidade das pessoas foi-se formando segundo aquilo que as rodeia. Um dos pilares do karaté é a disciplina e cada vez mais se torna difícil de aplicar essa vertente às crianças e adolescentes que integram o karaté. Os mestres até podem ser bem sucedidos no dojo (espaço onde treinamos), mas se não for um trabalho continuado pelos pais em casa e pelos professores na escola, existe uma quebra e, desta forma, não há o tal desenvolvimento de atributos como a disciplina nos praticantes, evolução essa que deve ser sempre a mais trabalhada.

PP - Qual foi a razão que te levou a querer participar em competições de Karaté?
T - Quando ingressei no karaté não queria, de todo, participar em competições e só de ponderar nessa hipótese, ficava nervosa e tentava contornar sempre a situação de forma a sair favorecida (risos). Com o passar do tempo o karaté deu-me algo que eu não tinha, auto-estima e confiança. Com esses dois parâmetros minimamente consolidados, decidi arriscar e devo dizer que é uma experiência única. As competições ajudam a aumentar a fasquia e o desejo de querer ser um melhor karateca, de aperfeiçoar sempre um pouco mais. Mas nós, praticantes, devemos ter sempre uma coisa em conta: não podemos subestimar o adversário ou deixar que o ego nos suba à cabeça. Por várias vezes grandes karatecas se perderam e sairam desta modalidade porque não souberam ser suficientemente humildes para admitir a derrota. É tudo uma questão de peso e medida.

PP - Como te sentiste na tua primeira competição? A pressão competitiva afectou-te?
T - A minha primeira competição foi incrível, eu estava super nervosa até porque tinha iniciado no karaté há pouco tempo e, a meu ver, não tinha quaisquer oportunidades de ganhar alguma coisa. De facto perdi logo no primeiro combate da competição, mas tendo em conta que era cinto branco (1ª graduação) e a minha adversária era três ou qatro graduações acima da minha, foi uma vitória para mim. O resultado final foi a pontuação de 6-4, quando o combate acabou eu só pensei "só perdi por dois pontos". Senti-me muito bem comigo própria, todos os meus colegas me aplaudiram no fim do combate.

PP - A competição é algo se torna viciante quando se pratica uma modalidade como o Karaté?
T - Como já referi anteriormente, o mais importante é não deixarmos que o ego nos suba à cabeça. Para quem pratica karaté e participa nas competições, existe sempre o "bichinho" de querer combater, mas deve ser feito de uma forma saudável, isto é, não participar apenas para mostrarmos o que valemos, mas sim participar para aprendermos sempre um pouco mais com a pessoa que está do outro lado do ringue. Acima de tudo penso que deve haver respeito mútuo entre os adversários, participante deve sempre querer mais e melhor, para crescimento pessoal e não para exibicionismo.

PP – Consideras o sentimento de integração num grupo, como o que já mencionaste e que se adquire praticando esta modalidade, importante na educação dos jovens da sociedade actual?
T - Penso que um dos problemas pertinentes na educação dos jovens da sociedade actual é exactamente a falta de capacidade de integração. Nota-se, com mais regularidade, que, por vários motivos financeiros, de cor, de orientação sexual, os jovens se excluem uns aos outros e vão criando pequenos "monstros" que podem, mais tarde, ter um impacto negativo na sua vida e na sociedade. No karaté é espontâneo o sentimento de integração, no dojo somos todos iguais, somos karatecas de quimono e cinto à cintura e devemos mostrar respeito e dedicação ao nosso mestre e companheiros de treino. Caso contrário, somos convidados a sair da escola onde treinamos.

PP - Alguma vez pensaste em seguir carreira no Karaté? Consideras viável tal carreira em Portugal?
T - Para que se possa seguir uma carreira viável no karaté em Portugal é preciso ser o melhor entre os melhores. Cada vez mais o karaté lança atletas muito novos para as competições internacionais, onde têm de provar o seu valor e conquistar um lugar seguro dentro da própria selecção portuguesa. Para mim esse sempre foi um objectivo máximo a atingir, mas, tendo em conta que deixei de treinar por ter entrado na faculdade, esse sonho é agora isso, um sonho. Talvez daqui a um ano ou dois me volte a dedicar inteiramente ao karaté e tente a minha sorte na selecção. Desde que haja muita força de vontade, dedicação, empenho, tudo se consegue. 

PP - Tu participaste em diversas competições a nível nacional e estiveste inclusive incluída na selecção nacional de Karaté, que opinião tens dos apoios que são dados em Portugal a esta modalidade?
T - A partir do momento em que se começa a ganhar prestígio no karaté, os apoios surgem inevitavelmente, desde apoios financeiros do café da terrinha às grandes marcas e empresas com notoriedade no mercado. É tudo uma questão de marketing, de imagem, e, claro, do prestígio do próprio karateca. Quando se começam a ganhar prémios nas competições internacionais, a ajuda aparece sempre, desde que o trabalho do atleta seja continuado e se vejam resultados. 

PP - Com os bons resultados já obtidos por diversos portugueses em competições internacionais, como provam os vários títulos alcançados nos últimos anos, pensas que deveria haver maior investimento no desenvolvimento desta modalidade a nível competitivo em Portugal?  
T - Um maior investimento nesta modalidade é sempre um grande incentivo para os atletas portugueses que querem sempre chegar mais longe. O karaté está a trabalhar na possibilidade de conseguir um lugar fixo nos Jogos Olímpicos. Seria uma grande rampa de lançamento, onde grandes atletas portugueses como o Nuno Dias, Pedro Seguro, Ema Lopes, podiam ser reconhecidos e compensados por toda a dedicação em que se entregam ao karaté. Vamos continuar a tentar, mas o karaté nunca deixará de ter o seu devido valor para aqueles que o praticam.
por João Rosado
Redacção 2

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