sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Mente sã em corpo são _ Reportagem

O espelho está ali. Imóvel, trocista e desdenhoso como um todo-poderoso. A passadeira, a corda, o tapete acolchoado, os halteres e a cadeira de abdominais preenchem a sala espelhada e a luz vai entrando, a medo, característica das seis da manhã de uma madrugada de meados de Outono. A música ouve-se à distância, baixinha para quem está de fora, mas no limite máximo dos tímpanos de Patrícia. Há um objectivo e, as duas horas mais cedo fora da cama, têm de ser aproveitadas ao máximo.
Entretanto, umas ruas mais abaixo, uma porta fecha-se, na sombra do rasto de um rapaz. Chama-se João e leva ao ombro a mochila que lhe guarda o guia da sua vida.
               
Quando mudar é bom

Duas formas de estar diferentes na vida, dois objectivos distintos mas uma elo que os une mais do que podem imaginar. A arte de usar aquilo que a natureza nos deu e com que nascemos. O que a nossa existência nos deu, simplesmente, porque de outra forma tudo era completamente impossível. Os ossos, os tendões, os músculos…. o corpo. O corpo e a mente. A capacidade de auto-controlo, de autodisciplina, de empenho e dedicação.
A Patrícia tem vinte e seis anos. Mede um metro e cinquenta e um e pesava oitenta quilos com dezoito anos. “Para mim era perfeitamente normal. Cresci no meio de um ambiente familiar onde gordura era formosura e nunca me foram impostos limites nem regras. Nem se pensava nisso (…) Descobri o que queria dizer exercício físico com a entrada na escola e não definitivamente uma paixão à primeira vista!”. Ri-se. Um sorriso mais para fora do que para dentro, num jeito estranho… de como quem não se arrepende mas preferisse que tivesse sido diferente. “ Acabei a escola a odiar as aulas de educação física. Eram um suplício! Odiava aqueles jogos parvos e correr… e inventava doenças e coisinhas ali e acolá para me baldar (…) Odiava as raparigas que corriam e se sentiam superiores por causa disso! Eu corria pouco e cansava-me rápido. Nunca ganhava nada! O que é que eu ia para lá fazer? ”
Nunca fez qualquer tipo de desporto, nenhum exercício físico que fosse. Nunca se preocupou com isso. Uma vida sedentária, onde o elevador era definitivamente mais confortável e não se via qualquer problema em optar pelo que dava menos trabalho. Mas os anos foram passando e a maneira como passou a encarar a vida mudou. “As coisas foram andando e crescendo comigo. O meu corpo, que nunca foi magro… a maneira como me sentia comigo própria, a forma de estar na vida (…). Comecei a aperceber-me que o corpo não é só um suporte para a mente… É um prolongamento dela mesma! E nem um nem outro podem viver separados! Por muito que eu não goste da ideia”.


Uma filosofia de vida

O João também acredita que corpo e mente são um só. Tem dezassete anos e desde os três que nada. A alta competição faz parte da sua vida desde os catorze e é considerável o número de medalhas que lhe ocupam as estantes (que poucas coisas típicas de vida de estudante adolescente parecem ter tido e têm, à excepção de um livro ou outro e umas poucas de fotografias) do quarto. “Começo os treinos às seis e meia para conseguir nadar uma hora antes da primeira aula da manhã. (…) Levo tudo direitinho para o clube e depois vou directo para a escola. (…) Antes só tinha treinos duplos alguns dias por semana. Agora só não tenho ao domingo.” O João está no décimo segundo ano de Ciências e Tecnologias. Quer continuar estudos mas não sabe como e que vai fazer. “ Tenho estatuto de desportista de alta competição, o que para mim vai ser fundamental… Mas o curso que quero não existe cá em Aveiro e não faço a menor ideia de como é que vou conciliar as aulas com os treinos. ”
O João passa, actualmente, dezoito horas por semana dentro de água. As horas de ginásio não contam. O tempo gasto nas competições também não. Vive para a natação mas ainda não consegue viver do desporto. Como qualquer atleta de alta competição sonha com os jogos olímpicos mas diz que não pode deixar a sua formação académica para trás. “Quero viver disto mas sei que é muito complicado. Todos os sacrifícios que fiz chegaram para me trazer até aqui mas sei que depois desta etapa vai ser tudo ainda mais difícil. Tenho de pensar no futuro e ver bem como é que vou fazer as coisas daqui para frente.”
O estudante de Ciências e Tecnologias diz que de uma coisa tem a certeza. “A seguir à minha família, o primeiro amor da minha vida é a natação. Não consigo imaginar-me a viver sem ele. Não consigo… simplesmente! (…) O desporto é muito mais do que mexer o corpo. Tem leis, princípios, relações fortes com os outros, contigo próprio, com o mundo. É uma filosofia de vida! Depois de te agarrares nunca mais a consegues largar.” Enquanto fala, o brilhozinho nos olhos do João incendeia-se e transforma-se em fogo. As mãos mexem-se sem parar e o corpo não para quieto. Mais do que da boca, o discurso sai-lhe do coração.
 
         Quando o “tem que ser” não é assim tão mau

Entretanto, a Patrícia acabou mais um dos seus treinos caseiros. Os alongamentos são terminados e, de toalha na mão, rumo ao duche, abandona a pequena divisão da casa que transformou em ginásio pessoal.
“Sinto-me mais leve. Mais forte. A música embala-me o cansaço e distrai-me enquanto faço o que tenho de fazer. É uma rotina a que já me habituei… custa muito no início mas depois é cada vez mais normal. Chegas a um ponto que se deixa de ter de pensar muito no que se faz. É como lavar os dentes!” Se pudéssemos comparar o entusiasmo do João e da Patrícia numa mesma escala teríamos de usar anos-luz e nanómetros. A diferença é avassaladora. Pessoas diferentes, objectivos diferentes, atitudes diferentes.
“Comecei a fazer exercício físico quando finalmente me apercebi que o meu modelo de vida, mais do que me dar cabo da auto-estima e do rendimento pessoal me estava a arruinar a saúde!” confessa a licenciada em enfermagem veterinária. “Tinha problemas respiratórios, cansava-me muito rápido e sofria de um mau humor crónico horrível. Fui ao médico e não quis acreditar no que ouvi. Tinha a saúde de uma mulher de cinquenta anos… e cinquenta anos mal tratados foi o diagnóstico! Colesterol, acido úrico elevado, risco de diabetes e problemas de coração. Fiquei em pânico!” Enquanto falava levantou-se para ir buscar umas fotografias. À medida que relembrava a conversa do médico, pôs-se a espalhar as fotos na mesa da cozinha e ao mesmo tempo que olhava para elas ia abanando a cabeça. “ Tinha vinte anos gaita! Fiquei a pensar e apercebi-me que, para além de todos aqueles sintomas, aquilo com que eu ainda mais sofria era com o que via, ou tinha aprendido a não ver, ao espelho. (…) Uma coisa que eu fingia que não existia!” e, ao dizer isto, quase como que se tivesse voltado de uma viagem longínqua e lembrado que devia ir tomar banho, pegou na toalha outra vez e rematou para acabar “ Não te vou dizer que gosto de exercício físico. Não fui ensinada a gostar e não nasci para isso. Mas fui aprendendo. Teve de ser. Sempre quis separar as coisas mas é impossível! Tive de aprender a fazer desporto para aprender a gostar de mim! E agora, cada vez é mais fácil!”       


Simplesmente porque sabe bem

Mas também há quem durma ainda. O Guilherme é um dos exemplos. Tem vinte anos e estuda Engenharia Mecânica. Já fez de tudo um pouco… Andou metido no futebol, na natação, no ping-pong, no basquetebol. Já fez atletismo. Diz que já se fartou de tudo para voltar a fazer qualquer coisa. Agora não faz nada ou vai fazendo e considera-se saudável, extrovertido e sem papas na língua.
“Sempre fui o faz-tudo do meu grupo de amigos. Verdade seja dita que nunca fui muito bom em qualquer coisa mas isso também nunca foi o meu objectivo. Gosto simplesmente de não estar parado muito tempo no mesmo sítio” diz Guilherme, já a horas mais avançadas na esplanada dum café sobre o sol do meio-dia. 
“O papel do sedentarismo na nossa vida é um factor que marca a personalidade das pessoas! Mesmo que não se queira aceitar isso! Sou julgado. E somos todos! Não directamente… as pessoas não querem saber que modalidade é que fazemos e falar sobre isso, a não ser que vivamos disso ou sejamos mesmo muito bons. Mas fazem-se juízos…” O estudante fica a olhar por instantes para o vazio com ar pensativo, depois de bater com a palma da mão na mesa e continua. “O desporto e o sedentarismo não são conceitos iguais e há quem os misture erradamente mas completam-se. A forma de ver a vida tem muito a ver coma forma como encaramos a actividade física. tudo a ver com o papel do desporto na nossa vida. Isso de falar em desporto e sedentarismo e comparar como se fossem farinha do mesmo saco está errado… pode não se praticar uma modalidade desportiva e não se ser sedentário… embora o contrário seja impossível. Para além de se ver no que parecemos, reflecte-se na nossa maneira de estar na vida. Se somos pessoas activas ou não. Se gostamos de andar de um lado para o outro e ser eficientes ou se nos arrastamos pelo trabalho. E isso sim conta muito! Não usei o autocarro… vim a pé para aqui!. Entre palavras, bebe o sumo de laranja que pediu e olha outra vez para o ar.
“Sou feliz à conta de como me sinto comigo próprio e se me sinto bem tenho de agradecer ao meu corpo que me deixa ter uma mente limpinha e oleada, percebes?”


Entre o especial e o anormal

Num outro lugar, João continua perdido entre as suas paixões e desavenças de vida de atleta de alta competição. “Não imaginas os sacrifícios que se fazem nesta vida. Às vezes sentes-te o especial mas outras pareces o anormal! Queres vir aos meus anos? Então, jantar na sexta? Bebedeira para comemorar a positiva no exame? Achas?!”. João levanta-se e pega numa das fotografias que traz consigo. O entusiasmo está lá mas a rigidez de uma vida regrada e sem excessos a que um sistema de alta competição obriga vê-se bem na postura e na forma madura com que fala. “Tomar café, ler um livro, ter tempo livre para simplesmente não fazer nada…. Não existe! Não podes comer o que queres, pesar o que queres, dizer que sim sem ver a agenda.” E ora entre a tristeza, a pena, o orgulho, a paixão e o afinco, o olhar perde-se tantas vezes que, de tanta confusão de sentimentos, surge simplesmente um olhar decidido e nada mais.
“Os meus amigos as vezes dizem que eu sou um sortudo… As medalhas e as miúdas que acham piada… Não é bem assim. Tem que se suar a camisola... Mas eu não me importo. São escolhas! E eu tenho as minhas paixões muito bem definidas”. E com uma estranha atitude de loucura entre a paixão da juventude e a maturidade do atleta apontou para a cabeça e para o coração.


Trabalhar em conjunto

Patrícia, Guilherme e João. Três pessoas, três casos, três perspectivas. Entre filosofias de vida, fugas, descobertas interiores e milagres da medicina, parece missão impossível definir a palavra desporto. Porque muito mais do que o valor que o dicionário lhe dá, o clubes lhe usurpam, a sociedade lhe aponta… desporto é simplesmente o que cada um faz com ele, desde que corpo e mente estejam a trabalhar em conjunto!

                                                                                                                Mónica Ribau R2

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