sexta-feira, 7 de outubro de 2011

País do vazio cultural e académico

          Vive-se uma época de extremas assimetrias sociais a todos os níveis e de um estado que vai mudando, progressivamente, a sua forma de actuar. Estado social é gradualmente substituído por estado patrão. Agora, invés de um estado solidário que distribui os grãos de areia por toda a população, temos um estado que recolhe grão a grão e esmiúça uma população empobrecida, num País constantemente dominado por recessões económicas que parecem não ter fim.
         Poderá um País marcado por enormes períodos de degredo económico, social e político sobreviver mais uma vez a uma crise que parece não parar de crescer? Poderá o estado por cobro a todas as desordens políticas, económicas e sociais que se abatem incessantemente?
        A par de toda a desordem em todos os domínios, vemos cortes intensos e sem escrúpulos em áreas de extrema importância, como a educação. Não será esta das áreas mais afectadas e contraditoriamente a mais importante para o futuro de um País sem perspectivas? O estado corta a cultura e a formação académica dos mais jovens para conseguir pôr cobro à despesa pública galopante, que tanto se faz sentir. É a tão actual desculpa “Troika”, cujas medidas de estado levam a que um País já pouco desenvolvido fique mergulhado num subdesenvolvimento ainda maior a comparar com alguns Países da União Europeia.
       As bolsas de estudo deixam de ser atribuídas sem qualquer pudor e jovens em fase inicial de formação académica vêem-se obrigados a desistir. “Desistir”, essa palavra que tanto atormenta a mente dos jovens Portugueses, numa geração à rasca que busca alguma esperança num país estrangeiro, que não pronuncie um futuro tão “à rasca” como a do seu país.
       No fundo, o problema começou a surgir quando Portugal abriu novos horizontes após a queda da ditadura em 1974. Horizontes democráticos, em que as mulheres se começam a libertar aos poucos e conseguem aceder a altos cargos profissionais. Passou a verificar-se cada vez mais mulheres a tirarem formações académicas e a ingressarem no mercado de trabalho, em áreas que antes eram estritamente dedicadas aos homens.
       Observa-se uma evidente explosão de cursos superiores e de candidatos com ambições muito semelhantes. Portugal, sendo um País extremamente danificado pela ditadura e pela falta de desenvolvimento, não consegue aguentar tal ritmo frenético por parte das inúmeras formações académicas.
       Os estudantes começam a sair dos cursos superiores como se fossem formiguinhas, em busca de um posto de trabalho na sua área. Com o afastar da ditadura, esta tendência aumenta freneticamente, ao mesmo ritmo da evolução da mentalidade democrática por parte do povo. O que acontece é que o País não possui uma estrutura suficientemente forte para conseguir suportar as ditas formiguinhas acabadinhas de sair da formação académica.
      Para além da falta de estruturas económicas e sociais, o País foi mergulhando aos poucos, como acontecera na Primeira República Portuguesa, em dívidas externas sem precedentes que o deixou à beira da banca rota. O FMI surge como meio de salvação, mas que parece ainda trazer mais dificuldades à comunidade estudantil, que mais sente na pele os famosos cortes nas bolsas de estudo, o aumento no preço dos transportes públicos e na alimentação. Os programas erasmus também diminuem, devido à não atribuição de bolsas a alguns alunos, por falta de financiamento das escolas. A troca cultural deixa de ser realizada tão facilmente.
      Entrámos no fenómeno bola de neve. Quanto mais medidas o estado impõe, mais os estudantes sentem o peso da crise económica, num País cuja esperança diminui a cada dia que passa. E é assim que jovens se juntam em discussões, numa forma de desabafo e de tentarem melhorar o que está mal.
       Este ano verificou-se um decrescimento do número de candidatos ao ensino superior. No entanto, as festas entre estudantes continuam, como uma forma de esquecer os verdadeiros problemas que vão surgindo País fora e que tanto se lê nos jornais. Convivem de forma barata até de madrugada. No entanto, o verdadeiro problema está naqueles que nem a simples formação suportam, com bolsas de estudo já quase inexistentes.
      Entrámos numa desilusão profunda por parte daqueles que sonham ir mais além, que sonham ser pessoas realizadas com o seu trabalho e cultura. A par disso vemos olhares tristes e funcionários sem simpatia nos locais de trabalho por tão forçados que estão.
      A crise económica em Portugal abarca tudo aquilo que de bom Portugal poderia possuir. Todo o desenvolvimento se vai desvanecendo em desânimo e emigração, em busca de condições de vida superiores a um periférico País cheio de assimetrias sociais. Assimetrias essas que vêm bem marcadas no rosto de cada estudante que, muitas vezes, investe num part-time para conseguir abarcar as dificuldades de ser estudante num País à rasca, numa geração também ela cada vez mais à rasca.
      A instabilidade política na história de Portugal tem vindo a criar atrasos estruturais na economia do país. Afinal, se a emigração aumenta e tantos jovens exercem cargos que não são da sua formação, os serviços nunca poderão funcionar satisfatoriamente.
      Serão os ventos democráticos exagerados a razão por toda esta instabilidade? Afinal, o pós vinte cinco de Abril foi marcado por muita instabilidade política e económica. São problemas de raiz, que dificilmente a politica actual conseguirá pôr cobro. E o que se verifica? Quebra no ensino superior, na esperança e no ânimo dos jovens que pretendem ir mais além.
      Portugal encontra-se, cada vez mais, à beira do colapso social, económico e politico, enquanto os jovens estudantes depositam a sua esperança e ambição num país distante. No entanto, estes continuarão a ter estampado no peito o orgulho de ser Português, porque apesar de tudo, Portugal é um país cheio de história, onde grandes homens e grandes mulheres o marcaram e distinguiram dos outros por enormes feitos, que jamais poderão ser apagados.
       O problema dos tempos que correm é a falta desses grandes homens e dessas grandes mulheres. Caiu-se numa geração sem sentido, em que aqueles que poderiam ser “uma grande mulher” ou “um grande homem”, nem sequer têm a mínima oportunidade para demonstrar o seu valor.

                                                                                                                                 
                                                                                                                                Por Ana Pombo. R2

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