segunda-feira, 14 de novembro de 2011

“Em Portugal não há racismo”

Tema Livre

Entrevista a Abdellah Bouazza, Consultor Jurídico da Associação dos Imigrantes Magrebinos e de Amizade Luso-Árabe


Consultor Jurídico da Associação dos Imigrantes Magrebinos e de Amizade Luso-Árabe e, ao mesmo tempo, responsável pelo Centro Cultural Islâmico do Porto, Adbellah Bouazza, Marroquino em Portugal há 26 anos, faz fortes críticas à burocracia portuguesa, considerando ser este o problema de uma não adaptação perfeita ao país. Lutador pelos direitos dos seus compatriotas e fiel à sua religião islâmica, confessa, no entanto, adorar Portugal e o povo português graças ao seu carácter humilde.


Qual o cargo que ocupa na ESSALAM?
Pertenço ao Conselho Jurídico.

Há quantos anos reside em Portugal?
Há 26 anos.

Em que consiste a ESSALAM?
A ESSALAM é uma Associação dos Imigrantes Magrebinos e de Amizade Luso-Árabe que está reconhecida pelo ACIDI (Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural) e que, desta forma, desenvolve acções perante pedidos de ajuda de qualquer cidadão magrebino que pretenda inserir-se na sociedade protuguesa.

Como surgiu a Associação? Quais os seus objectivos?
A ESSALAM surgiu para tentar compreender e revolver os problemas dos Marroquinos e também do povo Magrebino, nomeadamente, aspectos de legalização e de integração na sociedade portuguesa, tentando sempre que os nossos associados e os seus descendentes melhorem as suas condições de vida. Para além disto, fazemos com que haja uma coesão entre os associados, de modo a promover cada vez mais a cultura de todos os imigrantes do Norte de África. Outros objectivos da associação são incrementar cursos de formação profissional, em especial a aprendizagem da língua portuguesa e promover actividades desportivas entre os associados da ESSALAM e também entre associados e terceiros. No fundo funcionamos como guias para a total adaptação do povo Marroquino a Portugal.

Que actividades desenvolvem?
Organizamos variadas actividades, desde desporto até cultura em geral. As aulas de língua portuguesa são um exemplo das actividades por nós desenvolvidas. Em breve iremos organizar a Semana Cultural Marroquina, que irá decorrer no próximo mês de Maio em local que ainda não está definido mas que em princípio será ou no Porto ou em Matosinhos e que funcionará como uma exposição ou cartão-de-visita em que se pode ver tudo o que pertence à cultura Marroquina. Tradições, roupa, músicas, artesanato, turismo e alimentação … Imaginamos que estamos em Marrocos e recriamos o ambiente do nosso país.

Quantos marroquinos existem em Portugal?
Não temos dados concretos para responder a isso, mas no Norte de Portugal existem cerca de 4000 Marroquinos em que 500 são associados da ESSALAM que tem a sua sede situada no Porto.





Um associado nosso foi detido por não estar legal, mas o que é certo é que o pedido estava feito há mais de 2 anos”





Qual o principal problema que enfrentam os Marroquinos após a entrada em Portugal?

Bem, sem dúvida que o principal problema, que acaba por ser um obstáculo, é a legalização e toda a burocracia que está relacionada. A legalização de estrangeiros em Portugal é muito complicada, devido a todos os problemas jurídicos, pois o problema não é dos imigrantes, mas sim de Portugal. O SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) é o responsável por emitir as legalizações dentro de 2 meses após o pedido, mas raramente este prazo é comprido. Por exemplo, um associado nosso foi detido por não estar legal, mas o que é certo é que o pedido estava feito há mais de 2 anos. De quem é a culpa? O imigrante marroquino não podia fazer mais nada. Para o nosso pedido de legalização ser aceite é preciso termos um contrato de trabalho, mas em muitos casos temos de trabalhar a recibos verdes. Temos pedidos de legalização sem resposta até hoje que foram emitidos desde 2008. Outro problema que temos de enfrentar, embora seja mais fácil de resolver, é a língua. Para isso, a ESSALAM também dá uma preciosa ajuda, dando as aulas de aprendizagem da língua portuguesa para os cidadãos magrebinos.

Considera fácil para os Marroquinos arranjar trabalho em Portugal? Por que sectores de actividade de distribuem maioritariamente?
É fácil arranjar emprego em Portugal, o problema é mesmo a legalização. Muitos Marroquinos têm de trabalhar a recibos verdes. Obras, feiras, comércio, cafés e restaurantes são os locais de actividade onde podemos encontrar mais Marroquinos. Eu, actualmente, por estar em Portugal há muitos anos e dar-me bem com a língua, trabalho como tradutor nos tribunais, mas é óbvio que só com o passar de muitos anos é que se consegue arranjar um bom emprego. Ao inicio temos de nos sujeitar seja a que trabalho for.

Como podemos saber mais acerca da vossa cultura?
A melhor forma de conhecer a fundo a nossa cultura é estarem presentes na Semana Cultural Marroquina, onde, como já sabem, podem conviver com muitos Marroquinos e observar todos os aspectos da nossa cultura como o vestuário, a alimentação, a roupa, a música, entre outras coisas.

O que os levou a vir para cá?
Penso não existir uma razão concreta para essa escolha. Escolher Portugal ou outro país qualquer depende de cada um, pois a imigração não tem destino. No meu caso, escolhi Portugal por estar mais próximo e por oferecer boas condições comparativamente com a vida que tinha em Marrocos. Mesmo depois de algum tempo em Portugal, há os que conseguem ficar cá e os que têm de ir embora. Os imigrantes não têm sítio fixo.

A integração em Portugal é fácil?
Sim. (risos) A integração em Portugal é mesmo muito fácil. Nos primeiros tempos andamos preocupados com os documentos e não temos muito tempo nem disposição para a adaptação a Portugal e aos Portugueses, mas depois sim. Exemplo disso são as famílias marroquinas presentes em Portugal que vieram com os seus filhos e estes conseguem tirar cursos superiores. Portugal é um povo mediterrânico, mais humilde e, por vezes, achamos que estamos na nossa própria terra. Considero que em Portugal não há racismo.

Relativamente à vossa Religião, como a define? Como a costumam praticar?
Islamismo. Esta é a minha religião e a da maioria dos Marroquinos, somos muçulmanos. Para além do cargo aqui na ESSALAM, sou responsável pelo Centro Cultural Islâmico do Porto e creio que na zona Norte do País existem cerca de 4000/5000 muçulmanos, que não são apenas Marroquinos, mas também Asiáticos, Europeus e Africanos no geral. Na zona Norte existem centros de culto no Porto, em Vila do Conde, em Póvoa de Varzim e em Braga onde podemos praticar a nossa religião.  De uma forma breve, posso-vos explicar que como rituais temos as 5 orações diárias: uma de manhã cedo, outra à hora de almoço e as outras distribuem-se pelo resto do dia, dependendo do pôr-do-sol.

Rosália Costa
Redacção 1

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