quinta-feira, 3 de novembro de 2011

GERAÇÃO À RASCA QUE SE DESENRASCA


Crise vs. Educação. O que fazem os jovens estudantes portugueses para combaterem a crise?



GERAÇÃO À RASCA QUE SE DESENRASCA

Apesar das enormes dificuldades por que têm de passar, os jovens estudantes portugueses mostram-se capazes de superar os obstáculos que lhes são colocados ao longo da sua formação. Pagar as propinas e sustentarem-se a si próprios são algumas dessas barreiras que conseguem ultrapassar com um espírito de garra, esforço e dedicação.
Por Isabel Oliveira

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ropinas, 100 euros; renda do quarto, 150 euros; despesas da água, luz, gás e internet, 30 euros; transportes, 75 euros; alimentação e outros gastos, 80 euros. Esta poderia ser a factura média mensal de um estudante deslocado, do Ensino Superior, na cidade de Coimbra. Despesas que rondam os 500 euros mensais não são fáceis de ser suportadas, mas esta é a realidade por que têm de passar os universitários se querem investir no seu futuro.





Os Universitários vêm-se obrigados a fazer muitas contas para perceberem o que gastam e onde podem poupar.







Numa altura em que os valores das propinas sobem, as bolsas de estudo da acção social diminuem, as rendas da casa, transportes e alimentação são cada vez mais caros, muitos estudantes vêm-se obrigados a desistir de estudar, com impossibilidade de comportar tamanhos gastos. Segundo dados revelados pela Associação Académica de Coimbra, até Março do presente ano, já 600 estudantes da academia coimbrã tinham abandonado a Universidade.







Cartaz da AAC (Associação Académica de Coimbra) mostrando o desagrado com a diminuição das bolsas de estudo e as suas consequências: 600 estudantes abandonaram o Ensino Superior. Por: Isabel Oliveira










Ver os filhos tirarem um curso superior é o sonho de qualquer pai. Mas o que podem fazer as famílias portuguesas para verem este sonho tornar-se realidade? Num país em que as palavras da ordem do dia são FMI, Troika, dívidas, desemprego, crise, crise e mais crise, pouco ou nada podem fazer para ajudar os filhos. ‘A vida está cara’ é o que mais costumam dizer os portugueses quando confrontados com a sua situação económico-financeira. Para além de se verem privados de aumentar o poder de compra e de melhorar as suas condições de vida, porque simplesmente não há dinheiro, não conseguem simplesmente dar continuidade à formação dos filhos. Como muitas vezes afirmou José Sócrates, a educação e o investimento nos mais jovens é a base para o desenvolvimento do país. Com os desenvolvimentos políticos a que se tem assistido juntamente com as dificuldades de financiamento no sector da educação prevê-se dias muito complicados para uma geração que se tem intitulado de ‘geração à rasca’. Geração esta que se vê responsável por si própria, pelo cumprimento dos seus e dos sonhos dos familiares e pelo desenvolvimento do país. A maioria dos jovens portugueses universitários não se querem juntar aos 600 apontados pela AAC, pois, pretendem ver realizados os seus desejos. Cabe a cada um encontrar soluções para combater a crise, que em muitos casos passa por arregaçar as mangas e começar a trabalhar.

Exemplos de Sacrifício

Olivia Silva, estudante do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas na Universidade de Coimbra, é um exemplo da vontade e coragem dos jovens de prosseguirem os estudos graças ao seu esforço. “Sou guia no Jardim Botânico de Coimbra. Para além da importância monetária deste part-time é-me igualmente útil por estar dentro da minha área de estudo pois uma das áreas de investigação para o desenvolvimento de novos fármacos é o estudo dos constituintes das plantas. Como aluna de MICF acho interessante saber que plantas podem ser usadas na medicina e que plantas pelo seu perigo não devem nem ser usadas na medicina tradicional. Como futura agente de saúde pública acho que é uma mais-valia saber identificar essas plantas para poder aconselhar os utentes” afirmou a estudante que se sente realizada por conseguir juntar o útil ao agradável, ou seja, ganhando dinheiro fazendo o que gosta. Para esta estudante, é muito importante o dinheiro que ganha com este pequeno part-time, pois lhe permite cobrir os gastos do seu dia-a-dia. Não sendo um exemplo com uma situação económica muito negra, quer, ainda assim, manter este trabalho, pois considera ser muito importante para não sobrecarregar tanto os seus pais. Um conjunto de factores faz com que Olivia adore este trabalho: boa recompensa monetária, é na área que gosta e pretende trabalhar futuramente e não lhe ocupa grande tempo, conseguindo conciliar na perfeição com os estudos. Sendo uma estudante deslocada, pois é oriunda de Pombal, mas estuda no centro de Coimbra, aproveita o ordenado, essencialmente, para as despesas alimentares e relativas aos transportes.
Já Sandra Antunes, estudante de Comunicação Social na Escola Superior de Educação de Coimbra, tem uma situação económica bem mais difícil. Os seus pais, com muita pena, não conseguem suportar os custos com a educação da filha. Contudo, a estudante não vira as costas às dificuldades. “Trabalho num quiosque dentro de um Centro Comercial, vendendo cafés, bolos e tostas. Já trabalhei também num call center da PT. Não posso estar parada sem trabalhar, porque tenho muitas despesas a pagar e, por isso, tenho de fazer qualquer coisa”, afirma a estudante. Orgulha-se de ser independente, por conseguir pagar as propinas, a renda do seu quarto, e todas as outras despesas com o seu próprio dinheiro, mas sente-se desiludida por não trabalhar no que gosta. Deixando por vezes as obrigações escolares um pouco de lado, Sandra assume que foi fácil arranjar trabalho, no entanto “as condições são terríveis”, em que os patrões abusam muito por haver muita procura.

Daniela Nunes faz animações em festas para crianças

Mas nem todos os estudantes encontram facilmente trabalho que consigam conciliar com os estudos. Estudante de Educação Básica, Daniela Nunes aproveita o tempo das férias para fazer limpezas em casa de vizinhos e animações em festas para crianças. “Prefiro sem dúvida fazer animações em festas para crianças, pois é com elas que quero trabalhar futuramente. Mas é fazendo limpezas que ganho mais dinheiro, por isso não posso dizer que não ao trabalho que me aparece”, disse, a futura professora. Fazer limpezas não é o trabalho ideal, mas é o perfeito para quem precisa de dinheiro. 









Para a maioria dos estudantes trabalhar é a solução para pagar os estudos. Sujeitam-se a qualquer trabalho para superar os elevados valores das propinas.

Estes são apenas três estudantes que mostram a realidade de muitos jovens portugueses. Uns conseguem conciliar a sua área de interesse com as questões monetárias, outros nem por isso, mas não é por isso que deixam de trabalhar, desistindo da sua vida. Contra todas as dificuldades, contra a crise, mas a favor dos seus sonhos, do seu futuro, os jovens mostram-se à altura de qualquer desafio. Trabalham, lutam e vêm a sua dedicação estampada na hora de pagarem as despesas com o seu próprio dinheiro. Conseguir cerca de 1000 € por ano (valor médio aproximado das propinas em Portugal) não é fácil, mas, como se consegue perceber a ‘geração à rasca’, afinal, consegue desenrascar-se. Mas valerá a pena este esforço grandioso para conseguir um curso superior, atendendo aos elevados valores de desemprego que apresenta Portugal?

Futuro incerto

“Quanto a perspectivas, acho que me fui desiludindo com o sistema, sonhei ter um futuro, e agora apercebo-me que vou ter outro completamente diferente” acrescentou Sandra Antunes, que aspirava seguir uma carreira na área da Comunicação Social. Acredita que o esforço vale a pena, nem que seja pelo simples facto de se sentir independente, “sem depender de ninguém” na hora de pagar as contas.
Já Fernando Pessoa afirmava que “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Com grandes almas cheias de espíritos de sacrifico, entrega, dedicação e luta pelo que querem os estudantes mostram que é possível combater a crise. Mesmo sem um futuro garantido, os jovens já não se sentem os mesmos com a realização dos seus grandes sonhos: licenciarem-se.

Por: Isabel Oliveira, Redacção 1



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