quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Afinal, ainda somos portugueses!

Ainda me lembro de ser criança e dizer que queria ser médica ou professora! Ainda me lembro dos meus amigos dizerem “quando for grande quero ser…”. Quando for grande…Naquela altura, brincávamos ao faz de conta e, por um dia, os nossos sonhos, as nossas ambições tornavam-se reais! Nada nos impedia de sonhar e os nossos professores abraçavam os nossos desejos e não nos deixavam parar de lutar. Investiam na nossa educação e pintavam um futuro promissor para nós.
A maioria dos meus amigos de infância seguiu o seu sonho, mas o tal futuro promissor que estava [supostamente] à nossa espera tornou-se numa utopia! E agora? “Onde e quando poderei eu ter um emprego?” É a pergunta mais frequente que mergulha nos pensamentos desta geração. O desejo de singrar na vida ainda está presente nas veias destes jovens, mas será que com a situação precária que se vive nesta nação fragmentada ele vai permanecer? A frustração de ter gasto as poupanças dos pais nos estudos emerge ao saber que provável ou obrigatoriamente tem se que emigrar para conseguir, de certa maneira, alguma realização profissional. Certezas? Já é uma palavra que entrou no mundo dos arcaísmos!
E hoje? Será que os artistas de palmo e meio têm aspirações de ser alguém? O discurso mudou! A realidade para uns é contada como se vivessem num mundo encantador, mas os mais astutos já afirmam que só querem ter um trabalho! Pequenas almas em crescimento já não empregam a palavra “emprego”. Basta um trabalho! Para elas e para os seus pais! Saberão elas a crucial diferença entre trabalho e emprego? As palavras crise, desemprego, impostos, défice, greves, manifestações, pobreza, fome, austeridade, troika e muitas, muitas mais marcam o seu quotidiano! A maior parte delas já sente as dificuldades económico-monetárias no seio familiar: antes saíam mais, íam ao cinema, compravam roupa e brinquedos. Neste momento, algumas já não sabem o que é tomar o pequeno-almoço em casa! A preocupação primordial dos pais é arranjar comida. Esta constante inquietação de querer que nada falte aos filhos gera uma disfuncionalidade familiar que, por outras palavras, significa que os pais já não têm predisposição para brincar com os seus rebentos. Os afetos, as emoções e o bem-estar vão-se desmoronando paulatinamente!
Estas crianças já não sabem o que é viver e amar, que é “a eterna inocência, e a única inocência não pensar”. A bela inocência daquela idade está a ser consumida pelos “papões”. Os seus sonhos já são controlados, os seus desejos [se ainda os têm] são, assim que possível, destruídos pelo exterior. Afinal, que liberdade é esta? Liberdade camuflada? Outrora foi…mas hoje…?? E é nesta linha cronológica que nos temos de debruçar e solucionar: os nossos avós não viveram numa conjuntura favorável, mas os bens essenciais não lhes faltavam. Quiseram dar uma vida melhor aos seus filhos e eles assim a tiveram. Os rebentos seguintes, a minha geração, teve ainda uma vida melhor do que os pais até ao presente. E a seguir? Estes pequenos pimpolhos conseguirão ter uma existência melhor do que os nossos avós? Esperemos que sim, mas como?
Recordo-me de um jovem muito inteligente e humilde, ainda a estudar no ensino secundário, que poderia ser um óptimo profissional e quiçá reconhecido pelo seu mérito, a
desistir dos seus sonhos. Com quinze anos, este rapaz afirma que não tenciona frequentar o ensino superior, porque os seus pais não têm condições económicas que permitam este investimento. Já não refiro o fato de ele pensar que a desistência do ensino obrigatório poderá estar iminente. “O dinheiro já não chega para tudo, livros, transportes…”. Que futuro terá este país com estas gerações sem ambições ou as tendo sentem-nas presas?
A luta incessante do querer, do ser, do fazer não pode morrer! A pouca esperança que existe nos nossos corações tem que estar sempre acesa!
Afinal, ainda somos portugueses!
por: Patrícia Gomes

*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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