terça-feira, 23 de outubro de 2012

Encantada pela Profissão e pela Vida

Leonilde Bernardo
Submersa. É assim que está a nossa sociedade e também a nossa mentalidade. O dia-a-dia é uma constante correria, um sufoco sem fim. A evolução do Mundo e de tudo o que este engloba exige de cada um de nós a tomada de decisões repentinas e a maior parte das vezes precipitadas. De lado foram postos sentimentos fortes, momentos intensos e histórias duradouras. Em troca de quê? De sensações, rápidas e momentâneas, que se desvanecem como a névoa numa manhã de primavera.
 
Aos 89 anos, Leonilde da Cruz Bernardino já perdeu a conta aos cabelos que deslizou entre os dedos. Alfacinha de gema, começou a trabalhar apenas com o segundo ano de preparatória porque “não gostava dos estudos”. Trabalhou numa loja na baixa mas sentindo-se aborrecida dedicou-se à costura porque se ganhava bem. “Sempre fui muito ativa e tudo o que podia aprender fora no normal, aprendia.”, revela. Não se ficaria por aqui. Depressa sentiu que precisava “de uma coisa mais evoluída”. Foi então que algo lhe despertou a atenção: um cabeleireiro de arte que pertencia a pessoas amigas. Empenhou-se em aprender penteados e a fazer cabeleiras e foi trabalhar para lá como aprendiz, era “uma das boas casas de Lisboa e estava ligada ao Teatro da Trindade”. Esta foi a oportunidade da sua vida no que diz respeito ao mundo do trabalho, sendo um exemplo vivo de alguém que fez as suas escolhas e espelha hoje no rosto a satisfação do passado.


 
 
Atualmente vive numa residência sénior, situada nas Caldas da Rainha, local tranquilo e acolhedor onde passa a maior parte da semana. Um dos maiores prazeres é contar a sua história, partilhar a sua experiência.
Com o cabelo arranjado, os olhos inquietos e interessados vai olhando para os meus movimentos e expressões enquanto fala. “Os melhores momentos foram passados na RTP, a fazer caracterização. Tive essa oportunidade porque ia com o meu patrão, corria atrás dele com a mala que levava as coisas. Como tinha muito jeito e experiência, gostavam muito do que eu fazia e então consegui integrar a equipa de caraterização. Foi muito bom porque conheci muita gente e era muito divertido fazer perucas como a de Luís XIV ou preparar bigodes, todos diferentes. Uma altura fantástica que se vivia lá, era a do festival da canção e a interação entre todos. Era uma verdadeira família. Faz muitas saudades falar nisto.”, confessa emocionada.
 
 
Leonilde Bernardino, a segunda da esquerda para a direita, com a sua equipa de caracterização na RTP
 
Nomes como Henrique Santana, Artur Garcia, Ruy de Carvalho, António Calvário, as jornalistas Margarida Marante e Maria Elisa, o apresentador Fialho Gouveia, Eunice Muñoz, Marcelo Caetano, padrinho de casamento da sua filha, e Amália Rodrigues são algumas das figuras com quem convivia. Com alguns deles travou grandes amizades e apesar de menos constante, ainda mantém contacto. Viveu
experiências e teve oportunidades que apesar dos problemas de saúde que enfrenta não esquece.
 
O desemprego é como um furacão, destrói tudo por onde passa. Nas ruas sente-se o desespero pelo amanhã, o receio do que virá. Famílias e empresas estão arruinadas. Há pais que não sabem como dar comer aos filhos e filhos que não têm como cuidar dos pais. No meio de tudo, esconde-se o sonho, perde-se a esperança. O coração fica apertado e o corpo atormentado quando não há trabalho e os problemas crescem.
Todos temos o nosso lugar. Leonilde, conhecida também por Liquinhas, aprendeu a edificar o seu castelo aos poucos, cautelosa e intensamente, não se arrepende de nada e afirma ter sido sempre feliz. Muitas pessoas, essencialmente jovens, esperam ganhar a sua fortaleza um dia, mas ao olhar a números sabemos que cada vez são mais aqueles que enfrentam problemas de saúde e vivem em conflito interior devido à frustração e à insatisfação com que vivem e veem o futuro.
 
 
 
"Liquinhas" a maquilhar Henriqueta Maia, Vítor de Sousa e Irene Cruz, para uma peça de teatro
 
Com uma expressão cerrada, a senhora afirma que “Nunca é tarde para recomeçar”. E é verdade. Só ninguém sabe quando é que isso será possível. A cabeleireira fez muitas mudanças ao longo da sua vida e sempre se tentou adaptar às mais diversas situações. A idade, como diz, não lhe permite ser totalmente independente e por isso se afastou do meio em que estava inserida. Hoje, guarda as recordações e com “o coração cheio de saudade” passa os dias na conversa ou a fazer atividades diversas.
A realização profissional e sobretudo, pessoal, é uma temática de grande discussão. Variável na sua plenitude, diz respeito a cada um, de forma bem particular.
“Não gostava de fazer outra coisa porque eu nasci para aquilo. Tenho saudades da convivência e da amizade daquela gente por mim e de mim por eles. Na minha secção era muito agradável trabalhar. Tudo isto fez a pessoa que sou, trabalhar com tanta gente, uns bonitos, outros feios, não importa porque no fundo eramos todo igual. Era e sou muito feliz, sempre.”, declara. É necessário identificarmo-nos com aquilo que somos, com o que fazemos e com o que adquirimos ao longo do tempo. A satisfação vem do cimo de nós, dos objetivos que traçamos e da forma como enfrentamos a vida.


 A cabeleireira a pentear a jornalista Maria Elisa

 

         por: Joana Pestana
*Artigo escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico 



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