segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Revolta en(vergonha)da

Portugal envergonha o seu Povo e a sua História. O que é feito do país de grandiosos Homens, das descobertas e do heróico e nobre povo de outrora, orgulhoso da sua nacionalidade?
Chegámos perto de um abismo sem precedentes. A crise económica que actualmente enfrentamos comporta igualmente uma crise social e, pior, uma crise de valores.
Estávamos em Agosto de 2009, quando o então Primeiro-Ministro José Sócrates invadia a televisão proclamando num tom deveras convincente (para a altura) que “o caminho para a saída da crise estava próximo”. Mentiras. Passaram-se três anos e o nosso país desmorona-se dia após dia. As pessoas perderam os seus postos de trabalho, as suas casas, os seus bens,… perderam tudo aquilo que demoraram uma vida a construir. Lutamos contra o tempo, como se tivéssemos uma ampulheta à nossa frente a ditar-nos a sentença.
Dois euros por dia. Isto ainda faz eco na minha cabeça! Comoveu-me. Chocou-me. Escandalizou-me. Senti (e sinto) uma revolta enorme e uma raiva ainda maior por viver num país dito democrático que é governado por homens corruptos, engravatados e com ar altivo a saírem dos seus carros topo de gama (que nós pagamos!) apregoando aos cidadãos que é necessário cortar nas despesas do Estado e afirmando relutantemente que a austeridade vai continuar.
Milhares de portugueses vivem hoje de ajudas dos seus familiares e de instituições de caridade que contribuem com alimentos, vestuário,… Vi num noticiário da noite uma reportagem sobre um grupo de pessoas muito carenciadas. Pelo meio, a minha atenção virou-se para o retracto de uma família que levava num pequeno saquinho de plástico as moedas de dois e cinco cêntimos minuciosamente contadas para pagarem o pão que queriam comprar para darem aos seus dois filhos. É esta a imagem do meu país – um lugar onde o desemprego prolifera e a fome começa a dar sinais. Sim, a fome! A Caritas recebe 15 novos pedidos de ajuda por hora, todos os dias. Muitas visitas, muitas ajudas são dadas a anónimos, pois os rostos dos portugueses estão voltados para o chão.
Como posso eu, uma mera estudante do Ensino Superior, orgulhar-me de um país gerido por corruptos que roubam dinheiro aos seus contribuintes, retiram ajudas e dividem a sociedade em dois blocos: os ricos e os pobres. Sim, porque o termo intermédio já não existe mais. Como posso eu perspectivar algo?!
Há tristeza, indignação, contestação… Como posso eu caminhar pelas ruas tranquila sabendo que existem pessoas ao meu lado que não têm dinheiro para comprar sequer os bens de primeira necessidade e vivem fechados em casa, ocultando os rostos e simultaneamente o desespero e a vergonha?
São inúmeros os sacrifícios realizados. Valerão a pena? Não sei, francamente.
Não consigo sequer imaginar o que seria de mim se ao abrir o meu porta-moedas visse que teria somente dois euros para gerir, para me sustentar durante um dia. E outro. E outro a seguir. Como posso eu orgulhar-me deste país?
Vivo num local cinzento que roubou conforto a tantos profissionais e pensionistas; que roubou o sorriso a tantas crianças e os sonhos a tantos jovens. Tenho vergonha. Vergonha por ver morrer todos os dias um pedaço de ambição. Não acredito que haja esperança que suporte mais esta situação. Nós, Portugueses, perdemos a confiança e muitos de nós a dignidade de honrar os seus compromissos.
Penhoraram o nosso presente e arruinaram a salvaguarda de um futuro melhor - um futuro que, certamente para muitos, já não será aqui.
Revolta-me o país ao qual (ainda) pertenço!

         por: Sofia Rocha
* Este artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico  

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