segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Homem que é (mesmo) homem

Homem que é (mesmo) homem, não usa camisola sem manga, a não ser que os amigos o tenham convidado para um jogo de futebol ou algo parecido. Homem que é homem não gosta de canapés, de barras de cereais, de iogurte de soja, nem de nada que demore menos de 30 segundos a ser mastigado. Um homem a sério prefere coisas a sério, tal como ele. E com isto quero dizer que esta espécie de seres do género masculino não vai ao cinema ver o “Titanic” ou uma qualquer outra história de amor porque é tudo bastante piroso (a não ser que a mulher faça uma birra tremenda); Homem que é homem não vai ao Teatro nem aos musicais porque não gosta de ver aquelas roupas justinhas, os collants de lycra e o peito depilado dos bailarinos. No fundo, ele sabe que a sensibilidade dos outros atrai a SUA mulher; Homem que é homem não fica no sofá às oito da noite para assistir à novela… não… ele apenas ficaria no sofá por duas razões: ou a protagonista da novela é bastante bonita e “abonada” ou então é porque vai dar um clássico “Real Madrid – Barcelona” e já tem as suas companheiras de sempre ao pé – as cervejas. Homem que é homem não deixa a sua linda mulher “mostrar o corpo” (nem no Carnaval!), apesar de adorar ver a Irina Shayk despida nas revistas; até o seu próprio corpo só é visto pelos colegas de balneário durante 20 segundos. Porquê? Se demorar mais tempo, já há confusão instalada.
Mas vejamos, se Homem que é homem não gosta deste tipo de coisas e prefere uma tarde no café do que uma tarde com a mulher a percorrer incansável e freneticamente as lojas de um centro comercial, então não temos Homens que são homens. Teremos, no máximo, Homens que tentam (mesmo) ser homens. Estes “HQTSH’s” não passam de um misto de machismo, vaidade, bajulação e por aí fora.
Hoje já não há (muitos) Homens com cheiro a cavalo e pouco importados se o garfo do meio serve para o peixe ou para as entradas, se o “after-shave” faz bem à pele. Actualmente, temos Homens que andam com camisolas mais decotadas que as das respectivas companheiras, vão à esteticista arranjar as unhas e as sobrancelhas, usam batom neutro para os lábios ressequidos, pastilhas para refrescar o hálito, têm problemas com consumo compulsivo e estão a par das últimas novidades, dizendo, convictamente “Eu tenho que me sentir bem. É para te agradar, querida.”. Tretas! Tentam encapotar o seu ócio e materialismo com declarações que nada fazem o seu estilo e, como se não bastasse, ainda têm a lata de gozar com o primeiro que passa na rua por usar umas calças em rosa-coral, bem justinhas (tal como é bom de se apreciar).
Estes “HQTSH’s” são muito estranhos. Apesar de usarem os nossos cremes às escondidas (com medo das rugas) têm o descaramento de nos criticar; apesar de parecerem afáveis e meigos, adoram gabar-se aos amigos (iguais a eles) das suas inúmeras conquistas e dos seus feitos memoráveis no seio do mundo feminino; julgando-se únicos e incansáveis, tornam-se chatos e insuportáveis. Apesar disto, ainda gostam de apanhar umas quantas bebedeiras, fazer uns bons engates nas noites com o
seu (intocável) grupo de colegas, fumar uns bons cigarros e adoptar danças e umas brincadeiras parvas, como se fossem crianças (que no fundo são, mas crescidas e com barba!).
Agora pergunto-me: o que é feito do verdadeiro Homem que é Homem? Ah?!
Este mundo foi feito por Homens que eram Homens. Os nossos valentes antepassados não usavam jeans, quanto mais da Levi’s ou da Lion of Porches. O que seria da história da Humanidade se Dom Pedro I se tivesse atrasado no dia 7 num cabeleireiro, enquanto fazia uma massagem facial? Algum de vocês consegue imaginar o Álvaro Cunhal de sunga de crochet? Pois. Não. Seria o descalabro!
Mas é isto que nós aguentamos. Um bando de Homens que nem sabem se o são. Vão tentando, vá.
E eu fico bastante aborrecida com isto. Não quero um dia viver com alguém que vai ao meu necessaire buscar o pó compacto e, ainda assim, gosta de futebol e noitadas. Ou uma coisa, ou outra. Decidam-se. Não sou preconceituosa, mas esta ambivalência incomoda-me.
Tal como dizia António Machado, poeta espanhol do século XIX, “caminante no hay caminho, se hace el caminho al andar”.
Continuemos, para ver ao que chegará.
 
por: Sofia Rocha
 
*O artigo não foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

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