segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Salvé, Conímbriga cidade romana

Com o Renascimento, nascem os primeiros interesses por esta cidade romana ainda por descobrir. A autorização, por escrita régia, de D. Manuel I em adquirir pedra neste lugar para construir a igreja de Condeixa-a-Nova, tornou público o conhecimento de muralhas, pedras com várias inscrições, aquedutos e túmulos. Quase 500 anos depois, as ruínas adquirem um estatuto de grande relevo e interesse cultural, mas muito ainda está por descobrir…


Mapa de Conímbriga (fonte: http://algarvivo.com/arqueo/romano/Conimbriga.jpg)
 

A história das escavações
O tempo frio e húmido que se sente, a um domingo de manhã, não é impeditivo de se fazer uma visita às ruínas de maior interesse do país. De facto, é evidente o valor do património que existe e irrecusável a grandeza do local. Porém muito ainda há para fazer.
Briga é sufixo céltico muito vulgar, significado de cidadela, lugar fortificado; conim é um elemento mais antigo utilizado por indígenas pré-indo-europeus, significando lugar. Conímbriga corresponde actualmente a uma área, definida por decreto em 1910, considerada monumento nacional e que merece a visita de qualquer um.
Quando D. Manuel I mandou retirar pedra do local para a construção da igreja matriz de Condeixa-a-Nova nunca pensaria que, sob aquele solo, uma imperial cidade romana se encontrava.
Todavia, só em 1899 é que se executam as primeiras sondagens de vulto, se desenham plantas, se efectuam os primeiros levantamentos de mosaicos. Alguns museus e singulares – colecionadores e interessados –, começam a adquirir algumas peças. Em 1911, o Instituto de Coimbra oferece as suas colecções ao Museu Machado de Castro onde começam a ser estudadas. Mas só em 1930, com a realização do XI Congresso Internacional de Antropologia e Pré-História, é que o Estado inicia a compra de alguns
terrenos para se iniciarem as escavações. Nas duas décadas seguintes, a Direcção Geral dos Monumentos Nacionais investe na criação de um projecto de reconstrução, consolidação e reconstituição de estruturas devido à crescente degradação que este tipo de património vinha a sofrer. Ao longo do tempo, as escavações multiplicam-se e, consequentemente, as descobertas também. Em 1962, o Museu Monográfico de Conímbriga é inaugurado, o que só veio enaltecer o trabalho e o esforço daqueles que se empenharam em fazer crescer o povoado romano e a cultura portuguesa. Ao longo dos anos, vários meios foram criados para se investigar rigorosamente o território e diversos meios de conservação foram aplicados de modo a que o património a descoberto se preserve.
Porém, a cidade parece parada no tempo. Ouve-se o cantar das aves e o cair da chuva sobre as ruínas das antigas casas ricas da cidade. Não se veem trabalhos de campo. Não se veem escavações. Não se veem desenvolvimentos nas estruturas existentes. A verdade é que só 1/5 da cidade está a descoberto.
 
 
 
A razão de tudo estar parado

O principal problema é que muito do património que ainda está por revelar se encontra em terrenos pertencentes à população local da aldeia mais próxima – Condeixa-a-Velha ou mesmo debaixo das habitações dos moradores. Obviamente que a população não iria ficar sem as suas casas para que as escavações prosseguissem – isso seria colidir com o livre uso dos seus bens. O processo de adquirição dos terrenos arrastou-se durante algum tempo. Depois de várias negociações, e com a contribuição de mecenas que, gostando do património local, quiseram ajudar na melhoria do espaço, o Estado acabou por arranjar uma solução viável: comprou os terrenos dos singulares na condição de que as escavações só se iniciariam nesses locais quando os proprietários falecessem. Até lá, os donos dos terrenos não pagarão qualquer tipo de renda.
Este tipo de acções foram e são essenciais. É urgente afastar a ameaça de construção e adquirir todas as terras ao longo da muralha que rodeia a cidade, para se conseguir obter uma área que abranja grande parte do património ainda inexplorado.
 
Vista sobre a Casa de Cantaber (fonte: http://1.bp.blogspot.com/_p3R6LPfJN1Q/SjLsDEKEegI/AAAAAAAABDs/DAym-NZEirg/s400/Con%C3%ADnbriga+romana+115.jpg)
 
 
 
Os trabalhadores do local
E que recursos humanos existem para que o espaço evolua? E arqueólogos? Com tanto arqueólogo à espera de um emprego, de uma experiência no campo, porque razão não existem, de momento, profissionais a explorar o que Conímbriga ainda tem para oferecer? A verdade é que, para um local tão imenso existem apenas 3 arqueólogos contratados. Mas não há escavações. As que existem são feitas periodicamente por alunos que vêm das universidades portuguesas e espanholas no final da sua licenciatura, mestrado ou doutoramento ou por voluntários que se interessam pela trabalho de campo. Poderíamos pensar que o problema estaria nas verbas disponibilizadas, mas passa também por outras matérias. A questão essencial está na preservação das estruturas. Quando estas passam a estar a descoberto, acabam por ficar muito mais danificadas do que quando se encontram no subsolo devido aos efeitos erosivos, como o vento, a chuva, as mudanças de temperatura. E a aposta, por parte das entidades reguladoras destes espaços, passa sobretudo por conservar o que já existe permitindo a sua perpetuação ao longo do tempo.
Apesar do muito que ainda falta descobrir sabe-se que, a próxima área de intervenção será o Anfiteatro, uma estrutura oval de grandes dimensões e que se pensa abarcar cerca de 5000 pessoas sentadas. No próximo ano já se começarão a fazer progressos neste sentido.
 
 
A relação com a Direcção Geral do Património

Contudo, o fim do Ministério da Cultura e a criação da Direcção Geral do Património não trouxeram “bons ventos” a Conímbriga. As verbas para a Cultura diminuíram e as estruturas que apoiam este tipo de património também sofreram alterações. Em
conversa com colaboradores das ruínas de Conimbriga, ao longo do sinuoso caminho entre o que resta de antigas lojas romanas, concluiu-se que existem, actualmente, dois tipo de organogramas que reúnem os museus portugueses. O organograma do Ministério da Cultura e o organograma da Rede Portuguesa dos Museus (independente) – que ajuda à orientação, criação e tratamento de espólios. Mas Conímbriga em nenhum ficou agregada, ficando a sua situação indefinida - o que só prejudica este monumento.
 
 Mosaico com a figura do Monotauro – Casa dos Repuxos (fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/9e/Con%C3%ADmbriga_minotauro.jpg)
O apoio da Câmara Municipal de Condeixa
Com um legado cultural bastante presente, a Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, só tem a beneficiar com a existência deste local. As relações com o Museu de Conímbriga nem sempre foram as melhores, mas hoje em dia já estão mais amistosas. Apesar de não ser ela a entidade que regula a antiga cidade romana existem algumas parcerias (divulgação, actividades culturais, uso do auditório do museu para diversos eventos…). Todavia, Condeixa não tem estruturas capazes de receber um grande conjunto de pessoas durante um período de tempo considerável, estruturas capazes de servir como suporte de movimentos entre a Vila e Conímbriga e acaba por não lucrar com um local que é o terceiro monumento mais visitado do país.
Apesar destas dificuldades, a Câmara investiu fortemente na reabilitação de uma antiga quinta – Quinta de São Tomé – que servirá como Museu dos Romanos – um museu interactivo e que aposta em sistemas virtuais para recriar os ambientes da época romana, que terá como objectivo ser um elo de ligação entre Condeixa-a-Nova e Conímbriga, como afirma o site da Câmara Municipal. Mas o projecto continua indefinido porque não são conhecidas, até à data, qualquer protocolo ou parceria entre a Câmara e Conímbriga.


1962-2012: 50 Anos do Museu Monográfico de Conímbriga

Humberto Rendeiro e Paulo Alves foram os mentores da celebração dos 50 anos do Museu.
Durante o ano de 2012 várias iniciativas surgiram de forma a comemorar o quinquagésimo aniversário do
Museu. Eventos abertos ao público, como colóquios, exposições, peças de teatro, ciclos de conferência e debates sobre os mais variados temas, trouxeram turistas e curiosos até ao espaço. No final desta jornada, o feedback por parte do público revelou-se bastante positivo, a adesão foi enorme e a alegria de ver Conímbriga cheia de visitantes encheu de contentamento o coração daqueles que todos os dias trabalham em prol da manutenção, da preservação e da evolução desta antiga cidade romana.
 

 Vista da fachada principal do Museu Monográfico de Conímbriga (fonte: http://4.bp.blogspot.com/-Oi1I_7lA5vE/T4OPXxlnidI/AAAAAAAAQs4/bP177MUauNk/s1600/Museu+Monogra%CC%81fico+de+Coni%CC%81mbriga+-+Coimbra+01.jpg)


Estando ainda a maior parte das ruínas por descobrir, Conímbriga é um paraíso perdido em terras de Sicó e o local de vestígios romanos mais bem conservado do país.
A diminiuição das verbas para a cultura nacional é um factor prejudicial a desenvolvimento do espaço. Muito falta fazer e o abandono do local é evidente. Ervas daninhas em todo o jardim da entrada principal, um lago sem ser limpo, um território triste e vazio.
Esperemos que melhor políticas surjam, porque a cultura, como dizia Émile Henriot,”é aquilo que permanece no Homem quando ele já esqueceu tudo o resto”.
 
por: Rita Mendes
*Este abrigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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