quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Viver de… trocas!

Andresa Salgueiro nasceu a 25 de Março de 1976, em Lisboa. Em 2002, frequentou o Mestrado em Administração e Gestão Educacional na instituição de ensino Universidade Aberta. A partir de 11 de Dezembro de 2011 é fundadora e mentora do projecto Believe em Portugal. Andresa Salgueiro acredita que nunca é tarde para mudar de vida. 
 
Andresa Salgueiro
 
 
Posts de Pescada: Como e porquê surge a decisão de viver de trocas?
Andresa Salgueiro: Para dizer a verdade, não sei muito bem como a ideia apareceu. Posso dizer que baseei-me em algumas coisas que já faziam parte da minha vida, mas dizer que tenho a certeza, que um dia chegou uma ideia à cabeça a dizer: “Vive de trocas”, não tenho. No momento em que decidi viver com os 1111€ durante 1 ano, 11 dias, 11 horas e 1 minuto, fazia voluntariado no Banco do Tempo e na Terra dos Sonhos. Achava a ideia do Banco do Tempo gírissima porque podia usufruir de um sem número de serviços sem pagar, contudo, achava que a resposta às solicitações dos serviços eram um pouco demoradas porque tinham sempre intermediários que distribuíam os serviços. Sendo voluntária na Terra dos Sonhos, onde aprendi que “Se és capaz de o sonhar, és capaz de o fazer” (Walt Disney), comecei a pensar que podia mudar de vida. E assim foi! Associando o Banco do Tempo à Terra dos Sonhos, criei o grupo Troco 1 hora, que logo foi tendo cada vez mais membros a trocar, desde produtos, serviços, contactos... E foi aí, que o clic na minha vida se deu, quando percebi que podia dinamizar muito mais este grupo e desafiar-me a viver de trocas.

PP: Não teve “medo” de deixar o emprego onde estava efectiva para começar este novo estilo de vida?
AS: Isso não! Era uma decisão que andava adormecida há já algum tempo. Estava efectiva, fazia o meu trabalho com perfeição, mas sabia que não tinha nascido para trabalhar num escritório a vida toda, das 9h às 5h, à frente de um computador. Sempre fui ambiciosa, mas uma ambição que não passa pelo dinheiro e sim, por fazer algo da vida, por mim e pelos outros. E parece que é isso que vou conseguindo por isso, não há espaço para “medo” nesta minha decisão.

PP: Não tem a sensação que um desafio que começou por ser pessoal passou a ser um desafio colectivo, que se transformou num projecto social?
AS: Tenho a sensação e só assim faz sentido. Só assim faz sentido mudar o mundo, se for um projecto de todos. Se não é um desafio colectivo, com transformação para um projecto social não há hipótese de se mudar verdadeiramente. Contudo, acredito que só mudamos, se mudarmos primeiro por dentro de nós. Por isso, acho muito importante
iniciar este projecto, com uma mudança pessoal, de mim mesma, para que aos poucos possa ir experienciando novas coisas, dando feedback e podendo ao fim ao cabo, ser como que uma “cobaia” na mudança no mundo.
É muito bom saber, e cada vez mais ter a certeza, que já existem pessoas espalhadas por este país (e pelo mundo) a fazer a mudança, com vontade de melhorar o mundo, de fazer diferente. Como eu costumo dizer, eu não inventei nada, limitei-me a juntar uma data de ideias e agora as ideias vão surgindo de todos, porque este é um projecto global.

PP: Foi importante construir o projecto “Believe”?
AS: No dia do lançamento, a 11 de Dezembro de 2011 disse que me estava a casar novamente. O Believe mais do que um projecto, é um desafio pessoal, é a minha vida. A construção do Believe, julgava eu que tinha sido antes dessa data, mas não. Comecei a perceber que ao longo do tempo o Believe estava a ser construído. Comecei a perceber também que o que está agora a decorrer é o Believe, o meu projecto pessoal e como numa gravidez, este 1 ano, 11 dias, 11 horas e 1 minuto, serão como que os 9 meses de gravidez, para que no último dia do meu projecto, 21 de Dezembro de 2012 possa nascer verdadeiramente o Believe in Portugal, que dia-a-dia vai sendo construído por cada vez mais portugueses.

PP: Quais os objectivos principais deste projecto?
AS: Este projecto tem como valores base: o altruísmo, a confiança e a partilha com trocas, sendo pontos fundamentais para o mundo mudar. A sua missão, podemos dizer que, é um despertar para outras possibilidades económicas, de união e de partilha. Tendo como visão: o caminho para um mundo diferente onde as pessoas possam viver através da interajuda e de trocas comunitárias de bens e serviços. Por isso, creio que os objectivos propriamente ditos são: melhorar o modo de vida dos portugueses, criar laços de partilha, vizinhança e amizade, linkar as várias entidades e projectos que acreditam num Portugal melhor e por fim, tal como o slogan do projecto afirma: “Be live, believe, be happy”.

PP: Para se viver de trocas é necessário haver uma comunidade consolidada. Existe?
AS: Sim, concordo com a sua afirmação, é preciso que haja o sentido de comunidade. É necessário que haja o sentimento interno pessoal de ajudar pelo simples facto de ajudar, de se saber quem nos pode ajudar na nossa necessidade, sermos humildes a aceitar e genuínos a dar. Se existe... antes de começar o projecto, não tinha a noção que havia tanto, como acho que já há. Claro que ainda estamos longe de uma comunidade “ideal” propriamente dita, mas creio que mais algum tempo, com as pessoas “certas” nos lugares “certos” certamente podemos fazer de Portugal uma comunidade global. Comecei no meu sonho, de viver na capital do nosso país como se de uma aldeia se tratasse... tem sido fácil, por isso, acho que não estou longe de sonhar que podemos transformar Portugal numa comunidade global... e quem sabe, mais tarde: o mundo!

PP: Quais os constrangimentos que tem encontrado durante este desafio?
AS: É-me díficil listar constrangimentos, porque actualmente, as bençãos diárias que tenho recebido, a alegria das pessoas, a força, a motivação, o incentivo, o ver que há quem mais acredite no potencial do nosso país, “apaga” a meu ver constrangimentos que podem surgir. Acho que tudo se ultrapassa. Tenho “crescido” como pessoa. Percebo que não posso controlar o que como diariamente, que não sei se posso mover-me pois poderei não ter gásoleo, que não posso frequentar restaurantes (ainda não tentei fazer
trocas com eles...), não posso pensar que quero fazer isto ou aquilo num determinado dia, pois estou condicionada às trocas, ao meu tempo, à disponibilidade dos outros. Mas a meu ver, isso não é constragimento, são ossos de ofícios e é isso que me tem feito aprender mais e mais. A viver de forma fluída, menos controladora com a vida e aceitando o presente, como um “presente” propriamente dito.

PP: O projecto tem organizado feiras de trocas por todo o país, existe adesão por parte de toda a comunidade?
AS: Sim, imensa adesão. Julgo que ainda não temos mais pessoas, porque neste momento, só fazemos divulgação através do facebook e dos emails. Agora começamos a divulgar nos meios de comunicação social, mas sei que ainda poderíamos divulgar muito mais, por exemplo nas zonas onde as feiras decorrem, com a afixação de cartazes, etc. Mesmo assim, as feiras em Lisboa levam uma média de 60 a 100 pessoas. Actualmente já se alargou aos distritos de: Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal, Faro, Madeira, Santarém e Leiria e neste momento, já estão também interessados os distritos de Évora, Castelo Branco e Braga.

PP: Ultrapassar a crise através de partilha é o objectivo, mas será que é possível principalmente na situação económica/financeira que o país de encontra?
AS: Eu acredito que só assim poderemos ultrapassar a situação económica/financeira. Só reentabilizando recursos, trocando, emprestando, partilhando será possível todos terem as suas necessidades suprimidas e posteriormente estarem de bem com a vida. A crise económica/financeira não me preocupa nada. Não acho que seja esse o verdadeiro problema actual. A verdadeira crise que temos é a de valores, a necessidade de termos bens para a nossa auto-estima estar alta; a necessidade de usarmos marcas para nos posicionarmos face aos outros com mais poder “pessoal”; a necessidade de termos um shopping a cada esquina, ainda que tenha as mesmas lojas; a necessidade de estarmos sempre em contacto por telemóvel ou internet pois só assim não nos sentimos sós; a necessidade de comprarmos cada vez mais coisas para colmatar o nosso vazio interior. Onde é que isto nos levará? A meu ver, ao colapso total... mas pessoal, não económico nem financeiro. Esse é apenas uma consequência dos nossos maus hábitos e dos nossos vícios.
Só sendo melhores seres humanos, só partilhando mais, só simplificando mais, só comunicarmos verdadeiramente mais uns com os outros, podemos todos juntos sair desta situação. Só este é o caminho!

PP: Acredita que no futuro haverá cada vez mais pessoas a viver de trocas?
AS: Eu tenho um sonho... e acho que mais dia menos dia, se vai tornar realidade: um dia todos vamos viver de trocas. Não da forma directa que eu vivo, mas de uma forma, mais solidada, com maior gestão de recursos e com interligação entre pessoas e empresas, entre aldeias e cidades, entre países, entre organizações e entidades governamentais, entre partidos e religiões. De todos para todos. Eu sonho... e como geralmente realizo os meus sonhos sempre...

Logótipo do projecto

Believe in Portugal: http://vivoatroca.blogspot.com/ ; http://facebook.com/andrezuska.salgueirix ; http://www.facebook.com/groups/troco1hora/
 
por: Sónia Miguel

*Este artigo não está escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

 

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