sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O “Sagres” em viagem


O mar é há muito a nossa janela para o mundo, não será segredo para ninguém que somos um país de bravos marinheiros que se aventuraram “por mares nunca de antes navegados” como diria Luís de Camões.
Várias pessoas contam aventuras passadas neste navio, as horas passadas “à vigia do inimigo” deitados nas redes da proa ou como o casquilho do navio bate no mar em dias de tempestade.



Foi assim

O navio-escola “Sagres” foi construído nos estaleiros alemães da Blohm & Voss, em Hamburgo em 1937. O navio Sagres veio para a marinha Portuguesa com intuito de dar continuidade à existência de um navio-escola, para que fosse assim assegurada uma melhor e mais completa formação dos seus futuros oficiais, para instruir os cadetes que passam muito tempo a treinar no mar fazendo do “Sagres” a sua casa e para complementar a formação já ministrada na Escola Naval.

No dia 25 de Abril de 1962 o navio parte para a sua primeira viagem com nome português e desde esse dia muitas se seguiram, já lá vão 50 anos.


 Leme do “NRP-Sagres”-

“A pátria honrae que a pátria vos contempla”

Viajar no sagrespla”
O navio prepara-se para a sua viagem de instrução à volta do Mundo, San Diego, Japão, Havai são alguns dos portos onde vai estar, vão ser três meses em alto mar.
Os cadetes voam até San Diego onde vão apanhar o barco que os vai levar à viagem das suas vidas, “Quando vi o navio pela primeira vez senti que era ali que pertencia e que iriam ser três meses inesquecíveis (…) o “Sagres” é muito mais que um navio e torna-nos a todos uma família” relembra Patrícia Duarte, então cadete da Escola Naval.



Apesar de ser uma viagem à volta do Mundo o “Sagres” é um navio-escola. Logo os seus ocupantes, sensivelmente 200 pessoas, 35 cadetes portugueses, 5 cadetes estrangeiros, marinheiros e guarnição, não passam os dias a desfrutar das férias de sonho de muitas pessoas. O que os leva ali, principalmente aos cadetes, é aprender, pois eles serão os futuros oficiais da marinha portuguesa. Sendo assim, os dias começam cedo e são rapidamente preenchidos.



Um dia no sagres começa por volta das 6h/6h30m da manhã onde os cadetes têm que rapidamente ficar prontos para às 7h formarem, receberem as ordens do dia e “começarem” a trabalhar. Existe muito para fazer num navio que tem de estar sempre exibível cada vez que chega aos ancoradouros. Pintar, limpar, aprender a subir aos mastros são apenas algumas das atividades que têm de ser realizadas de manhã e diariamente. Pela tarde, na maioria das vezes os cadetes encontram-se a ter aulas sobre partes específicas do navio, dadas pelos responsáveis por cada uma dessas áreas.

Infante do Henrique
Para além de tudo isto, os cadetes são divididos em grupos de trabalho para fazerem atividades específicas. “Se trabalhasses das 12h às 16h da tarde, trabalhavas das 20h às 4h da manhã e o grupo de cadetes que estivesse das 4h às 8h da manhã estavam responsáveis pelo briefing ao comandante.


Por exemplo num grupo de oito cadetes, existiam quatros cadetes que se estavam a preparar para a faina, três estavam na ponte a tratar do briefing ao comandante as 8h da manhã e ainda existia um cadete ao leme”, explica Patrícia Duarte.

Quando chegam a terra as tarefas obrigatórias continuam, mas ao ficarem cinco dias em cada um dos portos podem desfrutar da cidade. Assim, os cadetes aproveitam todas as horas antes de serem obrigados a voltar ao navio - o que acontecia às 7h da manhã do dia seguinte - ao máximo desfrutando o dia e a noite de todas as formas que podiam.

No primeiro dia em que chegam a porto, existe um conjunto de comemorações onde cada cadete tem uma função particular, existem cadetes que estão de relações públicas e ainda os cadetes adjunto oficial de serviço.

Nessas comemorações todas as pessoas importantes e com influência em cada país vão visitar o navio, por isso espera-se dos cadetes e de toda a tripulação o melhor serviço.



Mas, desengane-se quem pensa que apenas de trabalho se faz os três meses em alto mar no “Sagres”. Houve tempo suficiente para festa. Decorreu no barco a celebração do São João, onde toda tripulação recriou as marchas populares, com guitarras, danças e cantorias num barco apenas iluminado pelas pequenas lâmpadas que decoram os seus mastros e as velas sempre embaladas pelo mar. “Fazíamos torneios de futebol de convés onde tínhamos campeonato e taça. E ainda torneios de sueca. Um dos momentos que recordo com mais ternura foi uma regata que fizemos com barcos à vela contra a equipa do comandante, onde chovia torrencialmente, a velocidade que o vento impunha nas velas era enorme e nós conseguimos ganhar”, diz Patrícia.



Passado três meses consecutivos repletos de experiências únicas, a viagem chega ao fim. Para trás, ficam subidas e descidas de mastros altos, em noites escuras e de temporal, de conquistas pessoais e em conjunto, de uma aprendizagem quase maior a nível pessoal do que intelectual, de horas que passam sem se ter noção que se está a passar por elas. “Em alto mar nós não temos noção das horas apenas nos guiamos pelo que temos de fazer durante o dia” de visitas a cidades mágicas com muitas histórias para contar, de amizades que ficam para sempre, de camaradagem, uma nova “família”, uma segunda casa.



O navio volta para trás apenas com as pessoas que lhe chamam constantemente “casa”, vai partir para outra viagem e ter mais histórias para contar, porque o Navio-Escola Sagres nunca dorme.


Por: Cristiana Peres 

*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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