quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Prendas de Natal em tempo de crise?

O Natal tornou-se numa época de consumismo desenfreado. Quantas são as crianças que quando lhes falam nesta altura do ano só pensam em prendas e no Pai Natal (porque é ele que as traz)? Afinal, o significado e os valores que esta tradição representava outrora já não permanecem. A família unida, as histórias engraçadas, as canções cantadas por toda a família, toda essa magia vai desaparecendo com a imagem da receção obrigatória de prendas por todos os familiares. Como se sentirão aquelas crianças que não podem receber brinquedos ouvir os seus amigos a contarem o que tiveram no dia 25 de dezembro?
Com esta ideia de consumismo e Natal ser igual a prendas enraizado nas crianças, é caso para dizer que esta quadra natalícia é só para a classe mais rica que comparada com as outras é uma minoria.
Já se torna doentio e obsessivo falar da crise, mas neste momento de aproximação desta festividade não seria correto ponderar nos gastos para as iluminações e para o réveillon? Recentemente foi publicado por vários órgãos de comunicação social que Lisboa e Porto iam gastar cerca de 250 mil euros e 120 mil euros em iluminações de Natal, respetivamente. Já para não falar do caso da Madeira! Estes três pontos geográficos vão despender mais dinheiro do que o ano passado! Será uma atitude ponderada, refletida e congruente com a conjuntura em que se vive? Cada um terá a sua interpretação; há quem concorde e há quem discorde.
Não seria mais vantajoso distribuir parte desse dinheiro pelas famílias mais carenciadas (e que são inúmeras) para que possam disfrutar parte da magia do Natal com a sua família? Para que possam dar uma prenda aos seus filhos só para verem um sorriso na cara e uns olhos brilhantes. Só para as crianças não serem “diferentes” das outras. Todos nascemos diferentes, mas no fundo somos todos iguais. Que igualdade é esta quando uns têm tudo e outros não? Já não falo em adultos, mas nas crianças que são a alegria de tudo. A crise não pode ser a desculpa para a maior parte dos rebentos não poderem saborear a magia do pai Natal e de todo o mistério que lhe está inerente. Neste momento, acredito que essa prenda poderia ser somente uma refeição como um pequeno-almoço! Inacreditavelmente, foi divulgado que há mais de dez mil crianças com fome, que vão para a escola sem terem tomado o pequeno-almoço, a refeição mais importante do dia. As pessoas ainda não se consciencializaram deste problema que se pode adjetivar como sendo grave no século em que estamos. Vivemos já numa sociedade “humanizada” em que aquilo que é fundamental não deveria faltar. Citando palavras do ex-Presidente da República, Ramalho Eanes, é uma questão “inaceitável e inadmissível”.
Não é a maior quantidade de luzes nas ruas da cidade que vai aumentar o número de compras, isto é, dinamizar o comércio tradicional. O egoísmo, a soberania, a autoridade são personalidades “quase cegas” e daquilo que vêm só olham para cima.
Há tantas críticas, há tantas palavras contraditórias. Quando é que chegará o dia em que as frases proferidas pelos deputados sejam congruentes com as ações que fazem? Mais uma vez os sonhos das crianças são mutilados friamente.

por: Patrícia Gomes
*Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico 

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