quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ex aequo - Pelo igual mérito, igualdade e equiparação

Gustavo Briz; Presidente da Direcção da Rede ex aequo
Numa sociedade que ainda compactua com a homofobia e onde o preconceito impõe barreirastanto psicológicas quanto estruturais, dá-se a importância de perceber o papel das associações de apoio Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero (LGBT) e de saber de que forma o seu trabalho contribui para o enrrequecimento social. Em entrevista a Gustavo Briz, presidente da direcção da Rede Ex aequo, encontra-se resposta a questões como a origem da associação e quais são as principais mudanças que ainda precisam de ser feitas quanto ao preconceito sobre a comunidade LGBT.





O que é a rede ex aequo? De onde surgiu a necessidade da criação desta associação?

Gustavo Briz (G.B.): A rede exaequou é uma associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, trangênero e simpatizantes dos 16 aos 30 anos. A associação nasceu nos finais do ano 2002. Havia a necessidade de dar apoio à juventude LBGT fora de Lisboa, que era no fundo onde o trabalho estava a ser desenvolvido pela ILGA Portugal. Entretanto surgiu um projeto que tinha como ideia criar grupos locais de apoio pelo país fora. A par desse projeto surgiu também um fórum online, que ainda hoje existe, e que no fundou criou um momento onde os jovens podem encontrar informação, apoio, partilhas de experiências de vida. No fundo foram estes dois projetos que deram origem à rede ex aequo, aos fóruns e aos grupos locais.


Isso quer dizer que vocês têm ações por todo o país.

G.B.: Exatamente. Nós somos uma associação de âmbito nacional que temos uma estrutura mais ou menos organizativa, ou seja há uma direção que tenta englobar o país inteiro, que coordena todos os projetos da associação, depois os grupos locais têm alguma autonomia para fazerem atividades e promoverem a visibilidade dos jovens LBGT da cidade onde estão a trabalhar.


Qual é a vossa principal missão?

G.B.: A missão da rede ex aequo é dar apoio a juventude LGBT e tocar para a mudança de mentalidades destas questões da orientação sexual. Identidade e expressão de género.


De que forma o vosso trabalho chega até a comunidade LGBT? Que projetos têm desenvolvido?

G.B.: Na área do apoio temos os grupos locais e fórum que são os pontos onde há melhor partilha entre pessoas LBGT. Temos também todos os anos um acampamento de verão que acontece na última semana de Agosto, para dar a possibilidade a pessoas que não têm rede local na sua cidade de poderem ter uma realidade em que não há qualquer discriminação, simplesmente cada um é quem é. É um momento bastante incrível do nosso ano de trabalho.
Na vertente da educação para a mudança de mentalidades temos o projeto de Educação LGBT que é uma intervenção nas escolas para dinamizar de facto sessões de esclarecimento sobre orientação sexual, identidade e expressão de género. Sempre numaabordagem de educação não formal.
Também o projeto Inclusão que foi uma campanha para dar visibilidade as questões de bullying homofóbico nas escolas. Consiste nuns cartazes onde num estão três rapazes e noutro três raparigas onde diz: “Ele é gay e estamos bem com isso.” e “Ela é lésbica e estamos bem com isso.” É no fundo para mostrar as pessoas que em primeiro lugar a orientação sexual não está escrita na testa de ninguém, ou seja não é visível. Não é algo que só as pessoas que são vitimas têm que fazer, tem que ser um trabalho alargado. Nesse contexto também damos formação a professores e outros profissionais que trabalhem com jovens, exatamente para estarem mais sensibilizados para esta especificidade.
Vão também ter no início de Dezembro os Prémios Media que é uma cerimónia onde homenageamos figuras das artes dos media e do espetáculo que tenham abordado a temática LGBT de maneira positiva ao longo do ano.
Dia 17 de Maio, que é o dia mundial contra a homofobia e transfobia, temos marcado deste 2011 esta data com ações pública. Temos marcado para o próximo ano, também para o dia 17 de Maio o 3º Encontro de Jovens Trans em Coimbra. Acontece em Coimbra porque maior parte das cirurgias de reatribuição de sexo são feitas e tem havido bastante dificuldade por parte das pessoas trans em aceder ao acompanhamento médico de qualidade.
Organizamos também os Ciclos de Cinema LGBT que consiste em disponibilizar gratuitamente filmes de temática LGBT e depois haver um debate sobre o filme.
Nós tentamos intervir em diferentes áreas e tentamos também ter uma vertente com mais participação política para trazer para a agenda as necessidades dos jovens LGBT. Nesse sentido integramos o Concelho Nacional de Juventude; que é uma plataforma que agrega associações de âmbito nacional.
São estes os projetos e os eventos, mas vamos tendo sempre um trabalho de intervenção junto de outras organizações, principalmente organizações da juventude LGBT.


Marcha LGBT - Rede ex aequo
Sente que a rede ex aequo tem tido o impacto desejado em toda a sociedade?

G.B.: É uma boa questão. Por exemplo a nossa intervenção nas escolas, de há uns anos para cá o impacto tem sido reduzido. Nós entrávamos nas escolas através da Educação e Introdução à cidadania e Área de projeto. Área de projeto foi eliminada dos currículos e a Educação para a Cidadania neste momento é opcional. Portanto, a nossa janela de oportunidades na entrada de escolas, porque nós vamos sempre por convites das escolas, seja por professores, seja por grupos de alunos que estão a fazer um trabalho nesta área, reduziu bastante.Nós usamos muitas redes sociais, mas muitas vezes isso não é o suficiente para chegar às escolas. Também enviamos a divulgação do projeto, todos os anos, pela internet e por e-mail, mas as pessoas recebem e-mails que muitas vezes nem sequer abrem.
Ainda em termos de impactos, nós temos noção que o facto de conseguirmos aceder aos meios de comunicação social,tem um impacto imenso.Eu conheço pessoas que conheceram a associação exatamente porque viram alguém da rede ex aequo a falar na televisão e por vezes é difícil ter esses tempos de antena, chegar a esses meios com maior difusão.


Como presidente da direção de uma associação LGBT, quais são as principais barreiras que tem enfrentado?

G.B.: Há todas aquelas dificuldades que qualquer organização que vive à base do voluntariado há-de sentir: a dificuldade de financiamento, e a de garantir que os seus voluntários estão motivados e que não desaparecem.
Isto é um desafio quando nós temos projetos que são contínuos e eventos que têm que acontecer. Nós temos financiamento público a partir do Instituto Português de Desporto e Juventude (IPDJ), temos que prestar compras das nossas atividades e temos que ter um alcance real em saber se a nossa atividade teve impacto real e palpável na sociedade. Portanto temos sempre essa pressão dequando nos propomos a fazer um evento, ele tem de acontecer. Não podemos simplesmente chegar a meio e dizer “não temos a capacidade de o fazer, vamos desistir”.
Obviamente que as questões de financiamento são um desafio muito grande e constante. Encontrar fundos de financiamento para uma associação juvenil não é fácil. Muitas vezes existemcandidaturas que podemos fazer para fundos de financiamento, seja a nível nacional, seja a nível europeu. Mas o trabalho a nível das candidaturas é muito exigente e muitas vezes não há tempo para isso, porque temos que dar resposta a coisas mais imediatas.
Por outro lado tudo isto é compensado com o espírito de equipa que há e como somos uma rede que tem um método de trabalho que envolve muito a comunicação online, o que permite estarmos a trabalhar num documento a que toda a gente tem acesso e podemos ter o contributo de toda a gente.
Toda esta gestão de tempo e de foco onde vamos concentrar a nossa energia, a nossa ação é um grande desafio.Aqui acrescendo à dificuldade de garantir que as pessoas conseguem contribuir com o seu trabalho e com o seu tempo. Acresce depois, obviamente, o stress, porque é preciso dar resposta a muitas coisas o que é difícil fazer.
Uma das dificuldades que nós sentimos como associação LGBT é encontrar cedências de espaços, porque muitas vezes é algo que continua a ser alvo de preconceito e muitas vezes as associações ou as juntas de freguesia não se querem associar a esta causa.

Símbolos usados no holocausto para identificar gays e lésbicas.

Para terminar, sente que de alguma forma tem havido uma evolução na mentalidade portuguesa perante as questões e direitos LGBT?

G.B.: Eu acho que no geral houve, de facto, um avanço imenso. Se nós pensarmos que em Portugal a homossexualidade era criminalizada até 1982 e o facto de hoje em dia já termos um conjunto de papéis que reconhecem a igualdade das pessoas LGBT já é um grande caminho. Em termos de enquadramento legal já estamos bastante avançados nesse sentido.
Obviamente que muitas discriminações ainda estão presentes, por exemplo o acesso à parentalidade. Quando se instituiu a possibilidade de pessoas do mesmo sexo contraírem um casamento criou-se uma alínea que especifica eu não têm qualquer hipótese se acesso à parentalidade, ou seja, aqui estamos a criar uma nova discriminação.
Mesmo a lei da identidade de género que vem facilitar o processo de mudança de nome e de sexo no registo pressupõe ainda que as pessoas trans, para dar inicio a esse processo, tenham que ter um diagnóstico de disforia de género. Há sempre esta ideia de colocar as pessoas trans como sofrendo de uma patologia quando na realidade não sofrem. Ou seja, ainda há um trabalho muito grande em termos legislativos a fazer.
Depois, obviamente que há também um grande trabalho a fazer, o mais difícil, que é o da mudança de mentalidades no dia-a-dia. Uma coisa é sermos leigos outra coisa é termos a sociedade a ser inclusiva e respeitadora da diferença e esse é um trabalho diário e que envolve muito a questão da sensibilidade. É preciso que percebam que as pessoas LGBT estão em todo o lado, que elas próprias têm nas suas famílias, um grupo de amigos... É esse exercício que ajuda a construir a empatia pelo outro. E isto é muito difícil de se fazer, porque não se ensina a empatia, não é como a matemática.E aí sinto que apesar da evolução que se tem vindo a sentir, ainda temos um longo caminho a percorrer.


Agradecimento especial a Gustavo Briz.

Por: Bruna Dias

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